I.
Nada pode desafiar tanto a nossa humildade do que o sentimento de impotência diante do fato consumado.
II.
O passado é a nossa história já escrita, as nossas escolhas feitas, os nossos riscos assumidos. O nosso ontem impregna o que somos hoje.
III.
O que é o amor senão a aceitação do outro e as suas circunstâncias? Por isso o amor faz humildes até mesmo os soberbos. Acolhe inclusive o que renega.
IV.
Apenas em caso de violência ou entre pessoas profundamente vazias o ato sexual não é um profundo momento de entrega. O sexo casual, porém, é sempre o vazio partilhado, a objetificação do outro junto com a negação de si mesmo.
V.
Há quem queira se enganar a vida toda para industriar uma relação equilibrada. Mas o engano de si ou do outro apenas cria o simulacro de uma amor sincero. A verdade é sempre o sustento do amor viçoso e profundo.
VI.
Não há amor verdadeiro sem dor. Amor indolor é uma contradição em termos.
VII.
O que é o corpo da mulher amada? Um templo, solo sagrado, tábua dos mais densos suplícios. É ali onde o homem se deixa inteiro, se desveste de si para realizar em plenitude a mulher amada.
IX.
Numa relação a dois, a verdade. É apenas a verdade que faz possível o dia seguinte, ainda que ela deixe marcas profundas. O amor sem marcas é o amor imaturo, que não atravessou dia após dia a floresta densa e espinhosa do convívio.
X.
Dá-me as tuas misérias; sem elas, como posso te amar inteiramente? Dá-me os teus erros e o arrependimento sincero; sem eles, como poderei exercer a dolorosa humildade suplicada pelo amor autêntico?
Dá-me, sobretudo, a tua sinceridade; sem ela não há amor possível nem futuro a esperar os frutos da vida a dois.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
ORAÇÃO DA SEDE DE SENTIDO
Há em mim sede de infinito. Uma inesgotável necessidade de Ti, meu Senhor e meu Deus. Olho o horizonte, rezo diante da Tua grandeza e Te bendigo. Tu és a fonte de salvação; da salvação de mim mesmo, das minhas fraquezas, dos meus medos, das minhas angústias diárias. Tu és a fonte de sabedoria, o acalanto de paz, a certeza de sentido.
Estamos tão entretidos com a correria da vida. Escamoteamos tanto a sede de sentido que habita em nós. Mais da vez negamos a nossa limitação, vivemos como se Tu não existisses, fraturamos a nossa razão de ser. E nos perdemos. E andamos por caminhos que não são os Teus. Ouvimos demasiadamente a serpente que diz de nós: "E vós sereis como deuses, versados no bem e no mal!".
Prostro-me. Ponho-me diante de Ti. E mais uma vez Te bendigo: "Tu és meu Deus. Sou Teu servo. Na minha pobreza, com os meus pecados, na solidão quando estou sem Ti". E sinto o peito encontrar a paz, porque És toda a paz. Tu és o sentido da vida e da morte; a razão maior do que somos; a medida de todas as coisas. Tu és o meu Deus, o Deus encarnado em Cristo e misticamente corporificado na Tua Igreja; corpo cuja cabeça é o Cristo Jesus. Amém.
Estamos tão entretidos com a correria da vida. Escamoteamos tanto a sede de sentido que habita em nós. Mais da vez negamos a nossa limitação, vivemos como se Tu não existisses, fraturamos a nossa razão de ser. E nos perdemos. E andamos por caminhos que não são os Teus. Ouvimos demasiadamente a serpente que diz de nós: "E vós sereis como deuses, versados no bem e no mal!".
Prostro-me. Ponho-me diante de Ti. E mais uma vez Te bendigo: "Tu és meu Deus. Sou Teu servo. Na minha pobreza, com os meus pecados, na solidão quando estou sem Ti". E sinto o peito encontrar a paz, porque És toda a paz. Tu és o sentido da vida e da morte; a razão maior do que somos; a medida de todas as coisas. Tu és o meu Deus, o Deus encarnado em Cristo e misticamente corporificado na Tua Igreja; corpo cuja cabeça é o Cristo Jesus. Amém.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Éramos..., somos...
Éramos palavras, frases soltas./
Éramos vontades sem as roupas./
Éramos um tempo sem distância/
Éramos a ausência na constância.
Somos no presente os sonhos feitos;/
o amor, o querer, quadro sem defeitos./
Somos a verdade que em nós se impôs/
a eternidade plena sem que haja um depois.
Éramos vontades sem as roupas./
Éramos um tempo sem distância/
Éramos a ausência na constância.
Somos no presente os sonhos feitos;/
o amor, o querer, quadro sem defeitos./
Somos a verdade que em nós se impôs/
a eternidade plena sem que haja um depois.
BREVES E SOLTAS (IV)
I.
A condição para ser feliz é a aceitação da própria história e do passado.
II.
Os erros são vestimentas que adornam a nossa alma. Sem eles não podemos crescer; mas que não sejam eles desculpas, senão razões para os acertos futuros.
III.
Há, sim, muito de derrota pessoal em qualquer separação. Os casais se deixam antes de se separar; não lutaram o suficiente e se perderam nalguma esquina da vida.
IV.
Um padre que deixou de rezar e celebrar diariamente a missa é um homem que perdeu a vocação e a fé. Os ritos deixaram de ser uma liturgia necessária, o alimento da fé, passando a ser mera obrigação e repetição monocórdia.
V.
O beijo é essencial ao amor. Diz da sua efervescência. Quando as bocas não mais se querem ou não mais se buscam, todo o resto se perdeu.
VI.
Conto na palma das mãos os amigos. Mais do que isso é autoengano.
VII.
Não vale a pena pensar demais as mesmas coisas e os mesmos erros. Quem fica parado dando voltas em si mesmo perde o sabor da vida e as possibilidades do dia seguinte.
domingo, 11 de novembro de 2012
TONS CINZAS
Olho as coisas que se põem para serem vistas. Elas não sou eu; elas se fazem em mim parte de quem sou noematicamente.
Olho as minhas mãos. Espantam-me os primeiros sinais do tempo que vejo nelas. O tempo escorre por entre os dedos. São os minutos água escorrendo sem que possa dominá-los. E temo olhar para o espelho e já não me reconhecer.
Olho a vida passando como se não fosse minha. Sou um observador atônito de quem sou. Parvo. Não a domino qual montaria bravia a querer derrubar-me.
Olho quem sou e me espanto: há tantas idades em mim. Sou a criança da minha aldeia, correndo pelas ruas que me pareciam imensas. Sou o jovem angustiado que não via sentido algum nas ruas que andava. Sou o adulto perplexo e cheio de sonhos juvenis. Sou o velho que me fiz ao longo da trajetória.
Olho as minhas mãos. Espantam-me os primeiros sinais do tempo que vejo nelas. O tempo escorre por entre os dedos. São os minutos água escorrendo sem que possa dominá-los. E temo olhar para o espelho e já não me reconhecer.
Olho... Paro diante de mim mesmo. Brota em mim um sorriso no canto da boca. Há uma expressão triste, mas um quê de esperança. E sigo, porque o tempo me consome e a vida que há em mim pede mais vida, pede mais de si mesma. Não quero mais os tons cinzas. Abro a janela. O sol entra. Sinto vontade de andar e seguir. Porque há tantas razões para que o caminho se faça caminhada. E vou.
sábado, 10 de novembro de 2012
DEIXA
Deixa que meus braços alcancem o teu corpo sem que haja resistência. Qual exército dominado, deixa que as tuas defesas estejam submissas, porque doce é o sabor da entrega.
Deixa que os meus olhos penetrem os teus e dominem a tua alma, porque nesse momento não haverá nada entre mim e ti, senão a transparência do momento intemporalizado.
Deixa que meus lábios digam indecências, sejam impudicos e que as palavras ganhem novo sentido ao invadirem as tuas entranhas, molhando as tuas reentrâncias e fazendo o teu sangue pulsar.
Deixa que nossos corpos se confundam e se façam misturados, em movimentos improváveis que a anatomia não ousa explicar. Fazendo-nos um, que sejamos nós mesmos, sem confusão de almas mas misturados em desejos e gemidos sem pejo algum.
Deixa, afinal, que possamos nos amar sem medo, sem mistérios, sem recalques e, sobretudo, sem nos perder de nós mesmos diante dos desafios da vida. Que o amor se faça amor, que a entrega seja entrega, que o ciúme seja apenas o sinete de uma vida que se quer vivida na reciprocidade dos sentimentos.
E, deixando-se assim, que sejamos fortes. Fortes no caminhar, fortes no desbaste do orgulho, fortes na certeza de que somos melhores quando estamos um.
domingo, 27 de maio de 2012
Breves e soltas (III)
I.
Somos seres incongruentes, vejam só! Por isso, é que renego a lógica do razoável, a lógica do possível e a lógica do ponderável. "Abaixo a lógica", bradaram até Ministros, antes de transformarem a vida em "a coisa" a ser terapeuticamente estirpada.
II.
A horas tantas já não pensava em mais nada. Pensar era um sacrifício que emasculava a sua alma. Quis dormir, mas pensou melhor e continuou a pensar.
III.
Amor em ebolição arde mais que febre e também pede cama. Repouso, somente ao depois...
Beleza, suavidade e personalidade
Beleza é fundamental? Sim! Mas o que é o belo? Uma mulher bonita
fisicamente chama a atenção e enche os olhos. Mas a sua estética é o
começo, apenas. É impossível que algo mais profundo seja querido com ela
se mais ela não tiver, se mais ela não for.
A beleza sustenta um primeiro movimento de desejo. Estimula uma aproximação e até o jogo da conquista, a troca de olhares. Numa balada, um xaveco, uma dança, uma noite. Se for muito, mas muito bonita, uma segunda noite... Mas finda a conquista, à falta de conteúdo, outras conquistas de igual procedência passa a ser mais interessante. Salvo se ambos tiverem a mesma profundidade rasa intelectual e de valores.
Beleza é fundamental! Mas insuficiente... Nada mais interessante que uma mulher bonita, inteligente e feminina. Mulher marombada, parece-me, é uma contradição em termos. Ela há de ter formas, mas que sejam delicadas, suaves e com curvas suficientes para a perdição, sem que sejam excessivas. Seios e bumbum são necessários, como à música faz-se imperioso o ritmo e a letra adequados. Mas que sejam proporcionais ao todo, sem demasias que quebrem a harmonia ou carências que empalideçam o conjunto da obra.
Sim, mas o conteúdo há-de ser simétrico à forma. Beleza pensante, inteligente, que faz a refrega ser saciada em momentos posteriores de carinho, conjunção de corpos cansados que se deixam entregues e sustentados em um bom papo, uma conversa agradável, em que as horas passam em um piscar de olhos. A mulher bonita e inteligente desafia o tempo, o constrange, o faz módico. Não cansa a vista tampouco a alma.
A mulher apenas bonita pode ser um troféu de momento, com um carro que mostra aos amigos, um relógio novo ou mais um bem de consumo qualquer. Mas a mulher bonita adornada pela inteligência não é troféu, mas um constante campeonato nunca vencido, uma eterna e diária conquista, uma razão para lutar e temer a perda. Vale cada esforço, cada momento, cada elogio, cada cuidado... Ela é como o horizonte de fim de tarde, cujo sol pinta no céu um quadro único; e quanto mais nos aproximamos, mais cresce em nós o encanto e a certeza de que nunca o teremos dominado, nunca nos apropriaremos, seremos sempre pequenos diante da sua beleza completa, plena...
Beleza é fundamental, porém que seja feminina e suave. Que saiba ser e se fazer mulher. O perfume, o vestir-se, o cuidar-se para quem se ama. E que seja séria, muito séria, mantendo a exata distância para os outros; e que seja deliciosamente amante, despudorada na entrega àquele que lhe tomou o coração e a alma. E sendo assim, será como um sonho, um presente, uma descoberta constante, que se renova todos os dias.
É, que me desculpem as feias, as marombadas e as assanhadas, mas beleza, suavidade e personalidade são fundamentais.
A beleza sustenta um primeiro movimento de desejo. Estimula uma aproximação e até o jogo da conquista, a troca de olhares. Numa balada, um xaveco, uma dança, uma noite. Se for muito, mas muito bonita, uma segunda noite... Mas finda a conquista, à falta de conteúdo, outras conquistas de igual procedência passa a ser mais interessante. Salvo se ambos tiverem a mesma profundidade rasa intelectual e de valores.
Beleza é fundamental! Mas insuficiente... Nada mais interessante que uma mulher bonita, inteligente e feminina. Mulher marombada, parece-me, é uma contradição em termos. Ela há de ter formas, mas que sejam delicadas, suaves e com curvas suficientes para a perdição, sem que sejam excessivas. Seios e bumbum são necessários, como à música faz-se imperioso o ritmo e a letra adequados. Mas que sejam proporcionais ao todo, sem demasias que quebrem a harmonia ou carências que empalideçam o conjunto da obra.
Sim, mas o conteúdo há-de ser simétrico à forma. Beleza pensante, inteligente, que faz a refrega ser saciada em momentos posteriores de carinho, conjunção de corpos cansados que se deixam entregues e sustentados em um bom papo, uma conversa agradável, em que as horas passam em um piscar de olhos. A mulher bonita e inteligente desafia o tempo, o constrange, o faz módico. Não cansa a vista tampouco a alma.
A mulher apenas bonita pode ser um troféu de momento, com um carro que mostra aos amigos, um relógio novo ou mais um bem de consumo qualquer. Mas a mulher bonita adornada pela inteligência não é troféu, mas um constante campeonato nunca vencido, uma eterna e diária conquista, uma razão para lutar e temer a perda. Vale cada esforço, cada momento, cada elogio, cada cuidado... Ela é como o horizonte de fim de tarde, cujo sol pinta no céu um quadro único; e quanto mais nos aproximamos, mais cresce em nós o encanto e a certeza de que nunca o teremos dominado, nunca nos apropriaremos, seremos sempre pequenos diante da sua beleza completa, plena...
Beleza é fundamental, porém que seja feminina e suave. Que saiba ser e se fazer mulher. O perfume, o vestir-se, o cuidar-se para quem se ama. E que seja séria, muito séria, mantendo a exata distância para os outros; e que seja deliciosamente amante, despudorada na entrega àquele que lhe tomou o coração e a alma. E sendo assim, será como um sonho, um presente, uma descoberta constante, que se renova todos os dias.
É, que me desculpem as feias, as marombadas e as assanhadas, mas beleza, suavidade e personalidade são fundamentais.
Breves e soltas (II)
I.
De tanto prestar atenção ao rótulo, nunca se enganou de frasco. E tudo
foi sempre como esperado. Se não teve más surpresas, boas também deixou
de ter. Foi a vida geometricamente perfeita até a morte. A lápide aposta
em seu túmulo anunciava: "Viveu conforme os rótulos; morreu de tédio e
falta de criatividade generalizada".
II.
Era como uma pintura o horizonte visto da janela. Não sabia, porém, que a
beleza maior só poderia ser vista na aventura da rua. Bastava-lhe,
porém, o que sem luta já estava à sua disposição.
III.
Não lhe faltava apetite; apenas coragem. Por isso, definiu que a vida
seria apena o antepasto. Não se banqueteava, porque lhe exigiria, mais
do que fome, disposição...
IV.
A mulher era tão feia, mas tão feia, que o espelho selou um compromisso com ela: só se encontravam pelo avesso!
Viver a vida em abundância
Não quero viver olhando o que deixei de fazer, me arrependendo pelas
indecisões, omissões, comodismos. Prefiro a inquietude à paz dos mortos;
prefiro a angústia dos que fazem à serenidade dos que abdicaram dos
seus sonhos. Que a sede de viver me consuma, que o amor me desabrigue,
que os desafios se apresentem e sejam desafiados.
Quero viver o medo de errar, errando, na tentativa dos acertos; não quero a precisão dos inertes, a diplomacia dos acomodados, a vitória por wo. A vida, desejo tomá-la com as unhas, porque ou há sede de sentido ou caímos no vazio, no nada, na esterilidade.
Nasci para ser torto; o certo, o perfeito, o exato não me fascinam. São atemporais e imateriais. Minha contigência me impõe a sede de infinito; minha humanidade, a fé em que me ultrapassa, a clareza da Cruz e a esperança na Ressurreição.
Quero amar sem medo, sem cobranças, sem regras. Amar por amar, porque ela se faz inteira em mim, seu olhar me devora, a sua voz provoca meu sangue, a sua boca me diz do amor e faz o beijo ser mais beijo. Quero a alma em chamas, porque só assim vencemos o que nos oprime, o peso amargo do cotidiano.
Enfim, proclamo a felicidade dos que lutam, a paz dos que porfiam, a esperança dos que buscam, os sonhos dos que se aventuram, a fé dos que são capazes de morrer pelo que crêem. Proclamo que vida não seja uma sucessão de dias, um cotidiano repetitivo e oco, um país com fronteiras. A vida seja vida em abundância, afinal, e que em nós brote a responsabilidade de decidir e assumir os caminhos tomados e a alegria dos passos dados...
Quero viver o medo de errar, errando, na tentativa dos acertos; não quero a precisão dos inertes, a diplomacia dos acomodados, a vitória por wo. A vida, desejo tomá-la com as unhas, porque ou há sede de sentido ou caímos no vazio, no nada, na esterilidade.
Nasci para ser torto; o certo, o perfeito, o exato não me fascinam. São atemporais e imateriais. Minha contigência me impõe a sede de infinito; minha humanidade, a fé em que me ultrapassa, a clareza da Cruz e a esperança na Ressurreição.
Quero amar sem medo, sem cobranças, sem regras. Amar por amar, porque ela se faz inteira em mim, seu olhar me devora, a sua voz provoca meu sangue, a sua boca me diz do amor e faz o beijo ser mais beijo. Quero a alma em chamas, porque só assim vencemos o que nos oprime, o peso amargo do cotidiano.
Enfim, proclamo a felicidade dos que lutam, a paz dos que porfiam, a esperança dos que buscam, os sonhos dos que se aventuram, a fé dos que são capazes de morrer pelo que crêem. Proclamo que vida não seja uma sucessão de dias, um cotidiano repetitivo e oco, um país com fronteiras. A vida seja vida em abundância, afinal, e que em nós brote a responsabilidade de decidir e assumir os caminhos tomados e a alegria dos passos dados...
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