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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Papa Francisco, moral católica e flexibilidade

A visão latinoamericana é sempre mais flexível em relação aos valores morais. Somos, por assim dizer, mais condescendentes, menos afeitos à rigidez. Há um risco muito grande, portanto, quando olhamos o mundo a partir exclusivamente do nosso ponto de vista.

Parece-me que o Papa Francisco sofre um pouco desse mal vezo. Ao falar de modo flexível sobre temas caros à moral católica, como o aborto, por exemplo, que é a expressão mais eloquente do desrespeito à vida (que, intrauterina, não tem a possibilidade de autodefesa), o Papa passa uma ideia perigosa de sinal trocado, invitando a que, na vida privada, as pessoas deixem de fora justamente os preceitos religiosos que deveriam fazer vida e sob os quais deveria pautar os seu atos.

Ao Papa é dado ser luz para os católicos e não-católicos. Mostrar acolhimento e compreensão aos pecadores (entre os quais todos nos incluímos como dado de fé; todos precisamos do gesto salvífico de Cristo na cruz!). Nada obstante, em temas morais, a flexibilidade que se pode conceder nos casos individuais, conforme as circunstâncias concretas, não corresponde àquela defendida como princípio universal. Exemplificando: a Igreja não admite relações homoafetivas, por princípio, porque o casamento é um sacramento destinado a homem e mulher. Não poderia a Igreja, sem trair o Evangelho, adotar sacramentalmente a união entre pessoas do mesmo sexo. É algo que refoge à moda, que pertence à palavra de Deus. A Igreja não pode dispor dos tesouros da fé, sendo apenas a sua guardiã. Esse é o princípio universal da moral católica.

Isso, contudo, não implica em rejeitar os homossexuais. A Igreja pode até acolher casais homoafetivos que vivam uma relação sincera de amor, porém com acompanhamento pastoral e dentro de limites precisos: trata-se de uma relação que impede a vida sacramental, como ocorre, por exemplo, com os casais de segunda união. É dizer, a Igreja acolhe os seus filhos, porém sem abrir mão dos pontos cardinais da moral católica, baseada na tradição oral e escrita.

É disso que o Papa Francisco fala, porém sem a necessária prudência de pastor do povo de Deus. Expõe uma flexibilidade admitida diante de situações concretas como princípio universal, o que é grave erro em um mundo sem um eixo de valores seguros em que vivemos. Cabe à Igreja o duro papel de ser luz do mundo e sal da terra; cabe à Igreja de Cristo a dura missão de pregar a palavra de Deus, mesmo quando nos recusamos a ouvi-la. Não foi assim, ao seu tempo, com Jeremias? (Jer 1,5-9: "Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações. Mas eu disse: "Ah! Senhor Iahweh, eis que eu não sei falar, porque sou ainda uma criança!" Mas Iahweh me disse: Não digas: "Eu sou ainda uma criança!" Porque a quem eu te enviar, irás, e o que eu te ordenar, falarás. Não temas diante deles, porque eu estou contigo para te salvar, oráculo de Iahweh. Então Iahweh estendeu a sua mão e tocou-me a boca. E Iahweh me disse: Eis que ponho as minhas palavras em tua boca.").

Esse é o papel da Igreja: proclamar profeticamente a palavra de Deus. Ainda quando o mundo a rejeite. Ainda quando grupos de pressão a ataquem. Ainda quando os cristãos sejam perseguidos. Se a Igreja for pop, por certo estará traindo o Cristo Jesus. Ele que não foi pop, não veio para fazer sucesso e ser compreendido. Ele não quis se fazer compreender; quis antes de tudo converter.

Falo sobre mim. Dou o meu testemunho. Em minha privada tenho falhado em face desses princípios da moral católica. Isso não me autoriza, porém, a dobrá-la à minha vontade, à minha conveniência. Já dizia o Senhor, através da boca de Isaías: "Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh." (Is 55, 9 ). Cumpre-me, então, sinceramente arrepender-me e buscar adequar a minha vida à palavra de Deus. É fácil? Evidente que não! Já o dizia São Paulo aos Romanos (Rm 7,19-20): "Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que estou agindo, e sim o pecado que habita em mim".

A Igreja que amo é a Igreja de Cristo! Não a igreja que que busca estar cheia, não a igreja que se converte ao mundo ou apregoa milagres a torto e a direito. A Igreja de Cristo é aquela que proclama a sua palavra e que a preserva, mesmo sendo incompreendida. Por isso, penso que o Papa Francisco, com a sua doce humildade, não pode dar sinais dúbios em matéria de fé e em matéria moral, porque pesam sobre os seus ombros dois mil anos de história e bilhões de fiéis.

Amo Francisco, como meu pai na fé. É um sinal de humildade e pobreza. Mas há de ser também um sinal eloquente da fé católica em um mundo que não se cansa de dizer não a Deus.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ainda a pedofilia dos padres de Arapiraca

No blog do Célio Gomes foi publicada a carta de Dom Valério Breda, bispo diocesano de Penedo, sobre o escândalo dos padres de Arapiraca envolvidos em pedofilia. A carta afirma o seu desconhecimento sobre as denúncias de pedofilia antes da veiculação da matéria pelo SBT. Informa as medidas tomadas pela Diocese de Penedo para processar canonicamente os padres acusados, dando-lhes o direito de defesa, porém sem qualquer condescendência para com eles.

No blog, os comentários de alguns leitores foram simplesmente horríveis e cínicos (aqui). Como católico, ingressei com um comentário, que reproduzo abaixo.

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Adriano Soares da Costa:

Os inimigos da Igreja buscam atacá-la, minar a sua credibilidade construída em 2000 de história. Há erro de maus padres que negam a sua vocação e a sua fé, praticando pedofilia? Que sejam punidos, respeitado o direito de defesa. Punidos civil, penal e canonicamente. O pedófilo, seja ele casado ou solteiro, seja ele homossexual ou heterossexual, pratica um crime, mais grave ainda quando usa da sua posição de hierarquia para submeter os inocentes aos seus instintos (como pais, religiosos etc.). Dizer que a pedofilia é uma praga dentro da Igreja é uma rematada mentira: há padres, como há pastores, militares, promotor de Justiça (casado e com filhos), que são pedófilos e merecem ser punidos. Nada tem a ver a pedofilia com o celibato ou com o homossexualismo: a perversão da pedofilia não é um mal restrito a alguma instituição ou opção sexual.

Os que criticam a Igreja ou a todos os padres indistintamente não passam de pistoleiros da honra alheia, buscando satisfazer interesses outros. Não têm legitimidade nem credibilidade. Ou são tolos que atacam a tudo, até o que não entendem, ou são malintecionados.

sábado, 3 de abril de 2010

Bento XVI, batismo e ressurreição

Bento XVI está agora fazendo a homilia na Virgília da Páscoa (a Canção Nova transmite ao vivo).

O que acontece no batismo é o início do processo que dura toda a vida. No batismo mudamos as vestes do homem velho para irmos vestindo as vestes de Cristo. O homem são as suas qualidades melhores. O batismo é o sentido da libertação daquelas vestes velhas que devem ser depostas. E citando Paulo, Bento XVI dá concreção ao sentido das vestes velhas: os pecados que nos escravizam. Caridade, alegria, mansidão, continência, esperança, fé são as vestes novas que Deus nos dá pelo batismo. O batizado entrega a morte junto a Cristo e com Ele passa para a vida nova.

O Papa faz aquela paulina relação entre o batismo e a morte: o batismo é morte e ressurreição! Pelo batismo morremos no pecado para ressuscitarmos com Cristo. É o batismo essa veste nova que nos introduz na festa do Reino.

Uma bela reflexão neste sábado santo!

sábado, 27 de março de 2010

Bento XVI: uma declaração de amor

Um belo texto de Dom Henrique Soares, bispo auxiliar de Aracaju, sobre o Papa Bento XVI. É um texto lindo de um homem autêntico, em que o o bispo fala sobre o seu amor pelo Papa. Lendo, podemos conhecer pelos olhos de um católico fiel a figura enorme de Joseph Ratinger:

Meu Bento XVI

Nunca escondi meu profundo amor por Joseph Ratzinger. É antigo: desde 1981. Em novembro daquele ano, seminarista em férias, li um texto seu. Lá havia uma frase do então Cardeal Arcebispo de Munique: “Ninguém é maduro de verdade até que tenha enfrentado sua própria solidão!” Meus olhos marejaram (como marejam agora, neste momento). Pensei: quem afirma isto só pode ser um homem de verdade, só pode ser alguém que tem uma profunda experiência de Cristo! Eis aqui um homem de Igreja que continuou homem, com um coração, com sensibilidade, com retidão!

Um ano depois, dei com uma entrevista do Cardeal, agora nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ele afirmava: “O primeiro dever do Bispo é defender a fé dos pequenos contra a prepotência de alguns teólogos...” Vibrei de alegria! O homem era realmente católico em cada fibra: sabia que a fé supera a razão e que o Mistério não se apreende em profundidade a não ser de joelhos e bebendo a límpida fé da Mãe Igreja, fé que se manifesta sobretudo nos pequenos, nos simples, no Povo de Deus em seu dia-a-dia.

Ratzinger tornou-se para mim uma referência. Doíam-me tanto as calúnias contra ele, as afirmações de muitos adeptos da Teologia da Libertação, que deformavam a imagem e o pensamento do Cardeal de modo vergonhosamente desonesto. Lembro-me das declarações pervertidas de Leonardo Boff e companhia a respeito do Cardeal Prefeito que, generosamente, ajudara ao próprio Boff nos tempos de estudo na Alemanha... Aqui no Brasil, as editoras católicas o censuravam metodicamente... Se algum seu escrito perdido aparecia, era dos menos expressivos e importantes... A imprensa só falava do Cardeal para criticá-lo, insuflada por certos setores da Igreja no nosso País...

A coisa intensificou-se quando da doença de João Paulo II. Agora era preciso queimar de vez o Cardeal da Inquisição, o Desumano, o Ditador... Foi uma pesada campanha dentro e fora da Igreja, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa... As pessoas nunca leram nada de Ratzinger, mas o antipatizavam de todo o coração. Recordo do conhecido jornalista Alexandre Garcia, que confessou ter comprado livros de Ratzinger e lido seus textos. Tomou um susto: o homem que escrevera aquelas coisas não era nada daquele monstro que diziam... Eis: o preconceito, filho da ignorância e irmão da má-fé!

E veio o Conclave. Aquele que no céu tem o seu trono riu-se dos planos dos homens e zombou dos grandes e sabidos deste mundo. Ratzinger tornou-se Bento XVI! Ouvi entrevistas, vi matérias na imprensa nacional e internacional simplesmente vergonhosas, vi entrevistas de teólogos – recordo de um da PUC de São Paulo à TV alemã – simplesmente revoltantes: mentirosas, desonestas, caluniadoras, sem caridade...

E aí está Bento XVI: amado por seu rebanho e por tantas pessoas de boa vontade, pela gente simples, cristã, de DNA católico; homem profundo, mergulhado em Cristo, nele alicerçado; homem doce e ao mesmo tempo tão firme; homem que não tem medo de proclamar a verdade, sem gritar, sem impor, mas sem jamais escondê-la: mostra-a inteira, límpida, serena, cortante, libertadora!

No tocante à vida moral do clero, menos de um mês antes de ser eleito Papa, na via-sacra do Coliseu, afirmou sem meias palavras, desgostando a muita gente: “E que dizer da terceira queda de Jesus sob o peso da cruz? Pode talvez fazer-nos pensar na queda do homem em geral, no afastamento de muitos de Cristo, caminhando à deriva para um secularismo sem Deus. Mas não deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se distorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison – Senhor, salvai-nos (cf. Mt 8, 25)".

Um homem assim não passa despercebido: ou é amado ou profundamente odiado! E há muitos que odeiam este santo e bendito Papa! Foi ele que, logo ao assumir, suspendeu o Padre Marcial Maciel, sacerdote famoso e muito apreciado por João Paulo II (o Papa João Paulo desconfiava muitíssimo de acusações na área de pedofilia, porque os comunistas poloneses utilizavam muitas acusações falsas como modo de desmoralizar o clero polaco. Isto criou em João Paulo II uma tendência a não dar muito crédito às acusações. Sempre que via um padre zeloso ser acusado, a tendência era logo recordar as mentiras dos comunistas poloneses... daí, a lentidão do processo do Pe. Macial. Foi um erro compreensível, mas um erro). Bento XVI não! Suspendeu o Pe. Maciel e determinou que vivesse seu fim de vida de modo recluso e sem contato algum com os fieis, numa vida de oração e penitência. O mesmo com o conhecidíssimo italiano Pe. Luigi (Gino) Burresi. Sua punição foi severíssima. Aos Bispos sempre recomendou tolerância zero com a pedofilia. Em seus pronunciamentos sobre o tema, nunca, Papa algum foi tão direto, claro e radical: na Igreja não há lugar para pedófilos. Os pedófilos devem ser demitidos do estado clerical e os Bispos devem comunicar à justiça comum! Tanto que em seu pontificado os casos de pedofilia desabaram...

Mas, nada disso interessa à imprensa, sobretudo aos jornais anticatólicos como New York Times, La Repubblica, El País, Spiegel... Para estes não interessa a verdade: interessam os fatos distorcidos, as meia verdades que, somadas, dão uma enorme mentira, uma triste difamação, uma calúnia monstruosa... O mesmo fizeram com Pio XII... Qual o objetivo? Desautorizar um Papa incômodo, cuja única preocupação é testemunhar o Cristo com toda a inteireza da fé católica. E nada é tão incômodo e antipático quanto isto! Por isso mesmo, tudo quanto este Papa diga ou faça é distorcido, deformado e, depois, duramente criticado, até ao paroxismo...

Mas, Bento XVI seguirá seu caminho! No meu primeiro encontro com ele como Bispo novo com o Sucessor de Pedro, disse-lhe: “Santo Padre, o Povo de Deus lhe quer bem! Nós rezamos por Vossa Santidade, nós estaremos sempre ao lado de Vossa Santidade!” Ele sorriu aquele sorriso tímido, mas tão humilde e franco e disse: “Obrigado! Muito obrigado! Eu preciso tanto do vosso sustento!” Só quem não o conhece poderia pensar que ele se dobra! Ninguém é tão perigosamente livre, é tão docemente forte quanto o homem que fez de Cristo o seu refúgio, a sua luz, a sua certeza! Bento XVI – santo Bento XVI, bendito Bento XVI! – é assim.

Hoje, 29 anos depois daquele 1981, quando, de coração apertado, imagino a dor e a solidão deste homem de Deus, consolo-me pensando no gigante que ele é e vem-me forte, mansa, decidida, certa, a sua palavra: “Ninguém é maduro de verdade até que tenha enfrentado sua própria solidão!” Bento XVI é maduro, Bento XVI não tem medo da própria solidão, pois ela é toda povoada por Cristo!

Deus o abençoe sempre, Padre Santo! Deus o abençoe e o livre das mãos de seus ferozes e maldosos inimigos!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ainda a questão da pedofilia e do celibato



Sob intensa pressão. Assim está o Papa Bento XVI. As críticas à omissão da Igreja sobre uma tomada de atitude mais enérgica contra os padres acusados de pedofilia pesam agora sobretudo contra o Cardeal Joseph Ratizenger. O The New York Time fez publicar matéria sobre uma suposta omissão do Cardeal quando ainda atuava como bispo na Alemanha (aqui):

"O caso do padre alemão, Peter Hullermann, ganhou nova relevância porque ocorreu na época em que Ratzinger, que posteriormente foi encarregado de lidar em nome do Vaticano com milhares de casos de abuso, estava em posição de encaminhar o padre para ser processado, ou pelo menos impedi-lo de voltar a ter contato com crianças. A Arquidiocese alemã reconheceu que “grandes erros” foram cometidos na forma de lidar com Hullermann, apesar de ter atribuído esses erros a pessoas subalternas de Ratzinger, e não ao próprio cardeal.
...

Bento era conhecido por lidar com os casos de abusos por padres no Vaticano antes de se tornar papa. Apesar de alguns terem criticado seu papel no tratamento desses casos ao longo das últimas duas décadas, ele também foi elogiado pelos defensores das vítimas por levar o assunto mais a sério, pedindo desculpas às vítimas americanas em 2008.

A passagem do futuro papa por Munique, na história mais ampla de sua vida, até agora era vista como apenas um degrau na escada para o Vaticano. Mas este período em sua carreira recentemente passou a sofrer grande escrutínio –particularmente seis semanas decisivas de dezembro de 1979 a fevereiro de 1980.


É preciso cautela. A crítica que se faz ao Papa em 2010 é por uma suposta omissão sua no final dos anos 70 e início dos anos 80, quando a questão da pedofilia não se apresentava como um endemia do mundo moderno, não apenas na intimidade da Igreja. Ali, o líder religioso estava diante de um caso específico, em que se tentava recuperar o religioso dos seus vícios primitivos para que ele pudesse continuar legitimamente no exercício do seu ministério. Julgar a atuação da Diocese de Munique com os critérios e olhos de hoje é uma violação à história e à honestidade intelectual, ainda mais quando se coloca o caso dentro de um largo quadro de casos existentes em outros países, como Dinamarca, Irlanda, Holanda e Estados Unidos.

A pedofilia, insista-se, nada tem a ver como o celibato ou a homossexualidade. Há heterossexuais casados que são pedófilos, muitos deles tendo por vítimas as suas próprias filhas. Há redes de prostituição infantil, de turismo sexual, em que a exploração das crianças e adolescentes é feita por homens heterossexuais casados. Quem não se lembra do famoso e terrível caso do austríaco Josef Fritzl, que manteve a sua filha presa em um porão por 24 anos, tendo abusado sexualmente dela desde a infância, chegando ao absurdo de gerar 6 filhos com ela em todo esse período, frutos da relação incestuosa?


Poderíamos apontar aqui, através de uma pesquisa simples no Google, inúmeros casos escabrosos depedofilia, com verdadeiras redes de prostituição infantil utilizadas por empresários, políticos e toda a sorte de gente.

A crítica que se faz ao Papa Bento XVI é interesseira: muitos buscam deteriorar a legitimidade moral da Igreja em um mundo perdido, sem referência, que encontra nela uma firme âncora para esta nau desgovernada, sobretudo em temas delicados como o aborto, a eutanásia, a bioética, o casamento homossexual...

Que os católicos rezem e continuem a defender a sua fé, que não advém de homens, mas de Nosso Senhor Jesus Cristo, pedra angular da sua Igreja e da nossa fé.

terça-feira, 23 de março de 2010

Pedofilia e celibato

Um reflexão de Dom Henrique Soares (aqui) sobre a questão do celibato e da pedofilia:

Pedofilia: ponderações

Caro Leitor, em algumas partes do mundo – também no nosso País – têm surgido escândalos provocados por padres pedófilos (há também outros vários escândalos ligados à vida sexual dos sacerdotes). Na Europa, sobretudo, a imprensa e certos ambientes da Igreja ditos progressistas vêm procurando associar esses tristes e inaceitáveis casos ao celibato. Eis algumas ponderações que gostaria de fazer:

1. Há, sim, na Igreja, sacerdotes pedófilos. É triste, é vergonhoso, mas é verdade. Eles não estão nela porque a Igreja os promove e os acolhe... Há sacerdotes pedófilos, como há pastores evangélicos pedófilos, pais de família pedófilos, professores pedófilos, juízes pedófilos, médicos, psicólogos, militares e jornalistas pedófilos... Nem mais nem menos! Aliás, como já acenei neste blog, a grande maioria dos abusos de menores dá-se no recinto do próprio lar. Quando era padre acompanhei muitos desses dramas dolorosos e de difícil resolução... Então, por que aparecem muito mais os casos de padres pedófilos? Por vários motivos. Eis alguns: (1) É muito mais difícil para um sacerdote se esconder, (2) os casos com padres são mais divulgados pelo potencial de escândalo e de atrair atenção, (3) há o contato de muitos padres com jovens coroinhas e jovens educandos nas escolas católicas, (4)em alguns países há uma indústria mafiosa para arrancar dinheiro da Igreja com casos de pedofilia verdadeiros ou forjados...

2. Associar a pedofilia ao celibato é pura má fé! Uma coisa é totalmente independente da outra. Um pedófilo pode mascarar-se por baixo do ministério sacerdotal como pode encapar-se num casamento! E são tantos! O celibato é um dom de Deus para a Igreja e, que fique bem claro: não há nenhuma propensão do Papa e do episcopado de suspender a disciplina atual, que exige o celibato dos sacerdotes! A crise de vocação não é motivada pelo celibato, como também a crise de fidelidade não tem no celibato sua causa! A crise é de fé, não de celibato!

3. É preciso deixar claro o seguinte: o atual processo de secularização, de banalização do sagrado, da redução do sacerdócio a uma profissão e do padre a um fazedor de pastoral - esquecendo a ontologia mesma do sacerdócio, isto é, a essência, o ser mais profundo do padre, que pelo sacramento da Ordem torna-se um homem de Deus, um outro Cristo, um homem inteiramente consagrado “às coisas de Deus” -, é isto, precisamente, que leva ao relaxamento e ao enfraquecimento da vida moral de tantos padres. Há uma tendência, até mesmo em certos setores da Igreja, de ver o padre de modo secularizado, tirando-lhe todo o sentido sagrado e místico. Até na nomenclatura, quantas vezes, em tantos ambientes teologicamente doutros, evita-se chamar o padre de sacerdote para denominar-lhe simplesmente presbítero... é de fé católica e é indispensável recordar: o padre deve ser um homem de Deus, um homem sagrado e consagrado, um homem cujo modo de ser e de viver deve trazer claramente as marcas do Eterno!

4. Nunca esqueçamos: somos pecadores! O padre, como qualquer outro ser humano, é membro de uma humanidade ferida, com falhas, com más tendências, com fraquezas. Os padres são assim, os casados são assim, a humanidade toda é assim! O cristianismo ensina claramente que todos somos marcados pela ferida do pecado original. Não somos certinhos, bonzinhos, cheirosinhos! Somos lavados por Cristo, salvos por Cristo, recuperados, curados pela cruz de Cristo! Não é por acaso e não é jogo de cena que ao início de toda Missa comecemos por bater no peito pedindo perdão. O pecado é uma realidade concreta, forte, próxima, presente na nossa existência. Contra o pecado é necessária a vigilância, a oração, a mortificação, uma profunda adesão ao Senhor. Nunca nos deveríamos assustar com o pecado, mas olhar para o remédio, que é Cristo, e dele fazer uso! Sempre houve padres com más tendências na área sexual-afetiva. Muitos desses conseguiram superar e integrar suas misérias com uma vida espiritual séria e devota. Com a oração, a sincera busca da direção espiritual, a confissão e os demais meios que a Igreja nos oferece para buscar a santidade, é possível ir superando as feridas e quedas e ser um santo sacerdote, um verdadeiro homem de Deus. O padre, o cristão não são uns impecáveis, mas pessoas a caminho no seguimento de Cristo, olhando para ele, nele colocando a esperança, nele procurando o perdão e nele crescendo dia por dia, até o Dia eterno. O problema é que com a secularização e o relativismo atuais, tudo parece permitido, tudo é jogado na conta da misericórdia de Deus, tudo é resolvido psicologicamente! Penso que um dos maiores problemas para uma verdadeira e leal vivência do celibato dos padres é, precisamente, a secularização, isto é, a mundanização, a perda da consciência e dos sinais de uma clara identidade que mostra que o sacerdote é um homem de Deus. Muitos na Igreja alegam que os sinais de uma identidade (no agir, no rezar, no modo de viver, no vestir, no modo de se divertir...) são uma capa para esconder insegurança e vida dupla... Não concordo de modo algum! Há, realmente, aqueles, que se prendem de modo exagerado e patológico a sinais externos, como as vestes eclesiásticas e paramentos, descuidando-se de outros aspectos importantes e até mesmo do cultivo de uma piedade profunda, madura e integrada, de um zelo pastoral verdadeiro, de uma simplicidade de vida, sem ostentações ou luxos e sem excessivas preocupações materiais. Mas, daí, a se afirmar, como é costume hoje em muitos meios da Igreja, que valorizar o sagrado do sacerdócio é sinal e sintoma de hipocrisia, de carreirismo, de exibicionismo, de autoafirmação e mascaramento, é realmente um passo muito comprido e serve somente para justificar o outro extremo: a secularização, a vida sem piedade, uma compreensão do sacerdócio de modo simplesmente humano, funcional e mesmo profissional...

5. Vivemos num mundo complexo, paganizado, em crise de valores... Os jovens que entram no seminário não vêm do céu, mas do mundo. É fácil tirar o menino do “mundo”, mas tirar o “mundo” do menino, como é difícil. Aqui a urgência de uma formação seminarística que dê mística sacerdotal sólida, madura e profunda aos candidatos ao sacerdócio, também a necessidade de conhecer a dinâmica afetiva dos seminaristas. É preciso ter bem claro: um rapaz que não consiga ser casto no celibato não pode, de modo algum, ser padre! Um rapaz com tendências pedófilas tem que ser imediatamente mandado embora do seminário. Do mesmo modo, um sacerdote que se mostra incapaz de viver seu celibato deve ser aconselhado a deixar o exercício do ministério e, no caso de pedofilia, deve ser realmente excluído do exercício do sacerdócio: deve ser demitido do estado clerical. Quanto à tão propalada condescendência de Igreja com padres pedófilos no passado, é bom não esquecer que não se tinha nem de longe ideia da extensão e da gravidade da situação dessas pessoas pedófilas... O problema da pedofilia na sociedade é uma realidade que emergiu há poucas décadas atrás e ainda nos surpreende a todos!

6. É bom também que se saiba que na Igreja há o Direito Canônico: ninguém pode ser condenado sem uma acusação formal, sem ser antes advertido, sem o direito de defender-se. Não é justiça e é contra a caridade promover pura e simplesmente uma caça às bruxas. Como também é pecado grave de omissão por parte da autoridade eclesiástica simplesmente fechar os olhos para os escândalos e delitos dos sacerdotes: é necessário tomar corajosamente as medidas cabíveis!

7. Uma coisa importante: a infidelidade de muitos não pode deixar na sombra a fidelidade heróica e silenciosa de muitos e muitos tantos que, no dia-a-dia, sem aparecer em jornais, dão um esplêndido testemunho de amor a Cristo e aos irmãos. Que ninguém duvide: a grande maioria de nossos padres vive com alegria e amor a Cristo o seu celibato e é digna de todo o respeito e toda a confiança de nossa parte! Os católicos devem ter muito cuidado com uma imprensa em geral anticristã e sensacionalista, preocupada não com a verdade, mas com o escândalo. Quanto já se tentou incriminar o Santo Padre dos mais variados modos! Quanto já se deturpou atitudes e palavras do Papa! Que inferno fizeram os meios de comunicação com o caso da menina do aborto de Alagoinha, em Pernambuco... Até quando seremos ingênuos, achando que os meios de comunicação transmitem a mais pura verdade, sem escusos interesses por trás da notícia?

8. Uma última observação: nos momentos de glória e beleza da vida da Igreja (como, por exemplo, no sepultamento de João Paulo II) é fácil estufar o peito e declarar-se católico. O católico verdadeiro, o verdadeiro filho da Igreja, é aquele que nos momentos de dor e de escândalo, quando a Igreja é apedrejada, chora com sua Mãe católica, crava os olhos em Cristo, reza e permanece fiel. Para este, vale a palavra do Salvador: “Fostes vós que permanecestes comigo em todas as minhas tribulações!” Nunca esqueçamos: o mundo não está preocupado com o bem da Igreja ou das vítimas da pedofilia, mas com o escândalo, o sensacionalismo e a imposição hipócrita do politicamente correto. É só!



Escrito por Dom Henrique às 23h21

sábado, 20 de março de 2010

Pedofilia, celibato e fé

A Igreja Católica está sob ataque em razão das sucessivas denúncias contra religiosos em razão de casos de pedofilia? Sim, está. Há setores anticlericais que estão se aproveitando dos graves e inúmeros casos de pedofilia envolvendo religiosos católicos para deteriorar o papel e a importância moral da Igreja no mundo. Bem, apesar disso, não se pode culpar os acusadores pelos erros da própria Igreja, que foi pusilânime com os maus religiosos que usaram o seu hábito e o seu carisma para praticarem abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Benevolente com os religiosos, a Igreja foi omissa para com as vítimas, permitindo com a sua omissão que esses religiosos criminosos voltassem a cometer os mesmos delitos.

Alemanha, Holanda, Irlanda são países em que a Igreja tem sofrido de modo mais agudo as consequências da sua tolerância com religiosos pedófilos. Não que a Igreja não visse nessa prática de alguns poucos um delito ou uma grave falta, porém sempre viu com misericórdia e dando ao religioso que caiu em erro a chance de recomeçar. Na prática, terminou por dar a oportunidade para novos abusos, ao invés de afastar das suas funções o religiosos e denunciá-lo às autoridades civis. Pedofilia é crime; e dos mais graves: destrói a infância, tira dos jovens a sexualidade saudável, os valores corretos, a fé verdadeira. O religioso pedófilo pratica um crime mais grave porque alimenta os seus instintos primitivos através da força moral do seu hábito, da autoridade que possui diante da vítima, inclusive de perdoar os pecados...

Como católico, sinto-me envergonhado, tal qual o Papa Bento XVI. A Igreja errou, pecou pela omissão tolerante, mesmo que pelas melhores razões. E está pagando um grave preço por isso, inclusive diante de Deus. Infalível em questões de fé, o Papa pode errar em decisões pessoais, administrativas e políticas. Reconhecer esse grave erro, fazer o mea culpa, adotar uma severa política contra os religiosos pedófilos e colaborar com as autoridades civis são os caminhos que a Igreja está perlustrando, ao lado de uma atenção carinhosa, compreensiva e responsável pelas vítimas dos abusos praticados.

Amo a Igreja de Cristo. Tenho absoluta clareza que o celibato nada tem a ver com a questão da pedofilia. O celibato, a castidade, a ascese, sempre foram, em todas as religiões, meios de aproximação do homem ou mulher a Deus. Já os antigos rezavam: - "Dai-me um coração que seja um!". Sublimar a sexualidade é um ato de amor a Deus, assim como a abstinência de outros apetites: voto de pobreza, voto de silêncio, etc. Abdicar de uma vida sexual ativa, castrar-se pelo amor a Deus, ser eunuco pelo Reino, é entregar-se a aventura do amor integral e da renúncia sofrida, dolorosa, e por isso mesmo renúncia. São Francisco de Assis deitou-se nu sobre uma imaginária mulher feita de neve, diante da força da sua sexualidade e do desejo de se conservar casto e disciplinado para a sua dura missão: viver a pobreza e anunciar o Reino.

“Para defender sua pureza, São Francisco de Assis rolou na neve, São Bento se jogou em um arbusto de espinhos, São Bernardo trancou-se em um depósito gelado. E você, o que fez? Não diga “esse é meu jeito de ser, é meu caráter”. Não! É sua falta de caráter. Seja homem! Quando você decidir firmemente viver uma vida pura, a castidade não será um peso para você, será uma coroa de triunfo”.
São Josemaria Escrivá
É isso. Celibato é coisa para homem, para gente de fibra e de coragem! Pena que alguns se façam padres sem serem homens integrais. Podem ser homossexuais? Até podem. Mas vivendo a homossexualidade casta, cujo afeto é plenamente entregue a Deus. Então, também o problema não está no fato da existência de religiosos homossexuais; está na homossexualidade desenfreada, na entrega dos religiosos aos seus extintos, usando da sua posição privilegiada para ir à cata de jovens objetos sexuais, como passam a ver os jovens que estão aos seus cuidados.

A pedofilia tem sido praticada por heterossexuais casados aos borbotões. A internet está repleta de exemplos de corrupção de menores. O escândalo maior, nada obstante, é quando um religioso é flagrado usando a fé como arma para submeter as suas vítimas. E aí a gravidade do crime pede uma reação duríssima da sociedade e, sobretudo, da Igreja.

Podemos errar. Podemos pecar contra a castidade. Um padre pode se apaixonar por uma pessoa e ser infiel ao celibato, assim como um marido pode não ser fiel à sua esposa e ser infiel à castidade. Estamos no plano privado, em que as conduta serão analisadas à luz da fé. Mas um homem, casado ou religioso, não pode ser pedófilo, não pode abusar da infância e da juventude: além de um grave pecado, comete um crime! E como criminoso deve ser tratado por todos, inclusive e sobretudo pela Igreja.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Vocação e fé

A perda da vocação é terrível para um padre. Porque vocação, fé e vida andam juntas. O homem que perde a vocação, mas conserva a fé, vive um drama profundo, podendo muitas vezes viver dignamente a missão abraçada, mesmo quando já não mais se realiza. Porque vê aquele sofrimento pelas lentes da fé.

O padre que perde a fé, já não mais tem vocação. A vida religiosa passa a ser um um simulacro, um engodo, em que o padre permanece vivendo o sacramento da ordem já agora sem sacramentalidade. Pior: sem fé, sem temor a Deus, usa a sua condição para tentar legitimar as suas transgressões, levando jovens a viverem atos contrários à fé e à Igreja.

O programa Conexão Repórter, do SBT, apresentado por Roberto Cabrini, revelou de modo terrível o envolvimento sexual de padres de Arapiraca com seus acólitos. Ao menos quanto ao Monsenhor Luiz Marques, de 82 anos, a acusação vem comprovada por vídeo de relações sexuais entre ele e um coroinha, que o denuncia (a reportagem pode ser vista aqui; matéria do Uol, aqui).

O mal que estes religiosos causaram a esses meninos e à Igreja não tem tamanho. São homens que perderam a fé, a vocação e a razão. Perderam-se de Deus e se jogaram na satisfação dos instintos. E como é triste ver que perderam o temor de Deus e o amor por ele. Já não viam mais a missa como um memorial sagrado; já não criam mais no milagre do sacramento da ordem; já não eram mais padres...

E por isso transformaram os seus coroinhas em homem-coisa, em objetos para a satisfação da sua homossexualidade descontrolada. Uma pena, enfim!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Santo Subito

Livro diz que João Paulo II quis renunciar ao pontificado

Ter, 26 Jan, 05h43

Cidade do Vaticano, 26 jan (EFE).- João Paulo II assinou em 1989 uma carta na qual expressava sua vontade de renunciar ao pontificado caso sofresse de uma doença incurável que o impedisse de exercer a atividade e ratificou a decisão em 1994, diz um livro do principal defensor de sua canonização, o sacerdote polonês Slawomir Oder.

Oder escreveu junto com o jornalista italiano Saverio Gaeta o livro "Perché è santo" ("Porque é santo", em tradução livre), no qual também afirma que João Paulo II se autoflagelava.

A obra começará a ser vendida amanhã e teve trechos antecipados hoje pela revista "Famiglia Cristiana".

Em 1994, quando estava prestes a fazer 75 anos - idade na qual bispos e cardeais são obrigados a apresentar sua demissão ao pontífice - João Paulo II se questionou se deveria aplicar essa norma ao seu caso e fez consultas a responsáveis da Secretária de Estado e aos colaboradores e amigos mais íntimos.

Um deles foi o atual papa e então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger.

No final, João Paulo II, que sofria de mal de Parkinson, decidiu "colocar-se nas mãos da Providência", conta Oder.

Segundo Oder, João Paulo II disse ao médico Gianfranco Fineschi em 1994, quando o operava de uma fratura no fêmur, que ambos tinham apenas uma escolha: "Você deve me curar e eu tenho que ficar curado, já que não há posto na Igreja para um papa emérito (aposentado)".

Já em seu testamento, aberto em 7 de abril de 2005, cinco dias após sua morte, João Paulo II deu a entender que pensou na possibilidade de renunciar ao Pontificado após o jubileu de 2000,com a Igreja Católica conduzida ao terceiro milênio.

Segundo outros veículos de imprensa que tiveram acesso a "Perché è Santo", Oder também diz que João Paulo II costumava se autoflagelar.

Durante a Quaresma, por exemplo, comia apenas uma vez ao dia. Em certas ocasiões, dormia no chão, uma conduta que já tinha desde sua época de arcebispo da Cracóvia, segundo Oder.

De acordo com Oder, o papa tinha em seu apartamento do Vaticano um cinto que usava para se autoflagelar e que levava consigo sempre que visitava a residência de verão de Castelgandolfo.

Oder também revela que o grupo terrorista Brigadas Vermelhas tentou sequestrar João Paulo II antes do ataque armado cometido em 13 de maio de 1981 pelo terrorista turco Ali Agca na Praça de São Pedro.

Em 19 de dezembro de 2009, o papa Bento XVI proclamou João Paulo II como "venerável", primeiro passo rumo à santidade do pontífice polonês.

A assinatura do decreto não representa a imediata beatificação de Karol Wojtyla, já que ainda falta a aprovação de Bento XVI do milagre que levará à proclamação de seu antecessor como beato.

A aprovação desse milagre pode acontecer em 17 de outubro deste ano, coincidindo com a data na qual foi eleito pontífice em 1978. EFE

JL/bba

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal!

Poucas cenas revelam de modo tão dramático e ao mesmo tempo poético o projeto salvífico de Cristo do que aquela construída por Mel Gibson no filme a Paixão de Cristo. Ele nasceu desde o princípio como contradição: sendo Deus, fez-se homem; sendo homem, fez-se pobre; sendo pobre, fez-se humilhado ao nascer em uma estribaria. Esvaziou-se como Deus; esvaziou-se como homem.

Bento XVI adverte que o Natal não é um conto para crianças. Não se trata de aflorar um espírito de natal flor de laranja, mas de refletir sobre o nosso drama humano e a esperança que brota do amor de Deus, na figura daquele menino frágil deitado na manjedoura: “Hoje, como nos tempos de Jesus, o Natal não é um conto para crianças, mas a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da paz verdadeira”, afirma o nosso Papa.

O espírito de natal, citado por muitos, é aquele sentimento difuso, uma saudade não clara da pátria trinitária, escondida sob tantas formas e razões. É uma melancolia de algo que não se sabe o que; é uma felicidade com exceções reservadas, com medos escondidos, às portas de um precipício e de um enorme vazio. Por isso, nos atolamos em presentes, em confraternizações muitas vezes sem significado. E o universo humano pede sempre o sentido das coisas. O que nos move são as finalidades...

O sentido da nossa alegria no Natal - é assim para os cristãos - é o nascimento da criança, da esperança que ela inspira, da certeza inarredável do amor de Deus. É a certeza que somos pobres, limitados, frágeis, mas também de que tudo se dispersa na fortaleza que ele nos traz: o menino nasceu! A Esperança está entre nós! O Amor vive! Ele refaz a crianção e a redime para o Pai. O Natal é momento de algria por isso: renascemos com aquela criança, podemos recomeçar com a certeza de que ela nos ama tanto que veio a nós nos lavar com as suas lágrimas no parto e nos iluminar com o seu sorriso ao ser amamentado no seio da mãe.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Evolução humana?

Uma das teses do espiritismo, fundada na lei do carma, é a evolução dos seres vivos (daqui e doutros planetas). Todos evoluimos e, neste processo, purgamos os nossos erros em sucessivas vidas de aprendizado: o sofrimento de hoje seria produto dos erros de vidas passadas, de modo que pagamos elevado tributo nesse processo de crescimento espiritual (quem quiser ter uma visão sobre o espiritismo, com um enfoque para católicos, leia aqui).

Há espíritas que, fortes nessa visão da lei do carma (cuja origem positivista, com apego e decalque das leis de Newton não podem ser negadas, sequer historicamente), compreendem também que houve uma evolução cósmica do gênero humano, citando como exemplo a evolução tecnológica, as viagens espaciais, o desenvolvimento cultural dos povos, etc. Porém, é inegável que o mesmo homem que é capaz de pesquisar com sucesso o solo de Marte, descobrir água na Lua, criar aparelhos com o iPhone, é também capaz da tentativa de genocídio dos judeus em campos de concentração, de criar armas de destruição em massa, de alienar um povo inteiro e submetê-lo à miséria (como na Coreia do Norte), além de condutas individuais terríveis do ponto de vista da própria cultura em que vivemos situados.

A evolução ética, ao contrário da evolução tecnológica ou científica, é um conceito complexo, cuja própria possibilidade é questionada por pensadores através dos tempos. Quem muito bem resenha a questão e reflete sobre ela é o economista Eduardo Gianetti, na obra "Vícios privados, benefícios públicos?", da editora Companhia das Letras, obra que merece ser lida.

Penso que não existe evolução ética. Evolução pressupõe um movimento para cima, progressivo. O ponto alto da nossa evolução - do ponto de vista cristão e admitida que ela, a evolução, existisse - seria a encarnação do Verbo, quando Deus se faz carne e entra na História. É dizer, o centro da História e o ápice do gênero humano seria a humanização do divino por Cristo.

Escrevo essas linhas porque, com a facilidade de informação em tempo real, a cada dia assistimos coisas surpreendentes, que demonstram como a nossa sociedade, o bicho homem, consegue cair rente à sua natureza animal, decaída, vergada pelo pecado. O vídeo abaixo mostra uma notícia absurda, porém muito comum nos dias de hoje: abusos sexuais de filhas por pais e mães. Parece-me o mais baixo que podemos chegar como pais e mães, como pessoas. Assistam:

Venerável

Uma notícia doce para o Natal do Senhor: João Paulo II foi declarado venerável (aqui). Santo subito!, como pediam os italianos e os católicos do mundo:

O papa Bento XVI proclamou neste sábado como «venerável» João Paulo II, após aprovar o decreto pelo qual são reconhecidas as «virtudes heróicas do servo de Deus» Karol Wojtyla. Trata-se do primeiro passo em direcção à santidade.

O decreto foi aprovado durante a audiência concedida no Vaticano pelo prefeito regional da Congregação para a Causa dos Santos, o arcebispo Angelo Amato, embora não signifique a imediata beatificação de Karol Wojtyla, já que ainda falta a aprovação por Bento XVI do milagre que leve à proclamação de seu antecessor como beato.

domingo, 8 de novembro de 2009

O menino, os sonhos e a fé

Lá estavam o meu pai e a minha mãe, Paula e eu. Conversávamos gostosamente sobre os caminhos da vida. A infância difícil dos meus pais, cada qual do seu modo. Meu pai criado sem mãe, pulando de casa em casa de parentes, enquanto o vovô João, seu pai, seguia em suas andanças tantas. Um homem bom ele, porém avesso a responsabilidades, com uma constante inquietude que o fizera ir para lá e para cá, muitas vezes sem rumo certo, em busca de sonhos e realidades fátuas. O papai, que nasceu em casa de taipa, em um lugar ermo chamado Pau Amarelo (hoje situado em Taquarana), andou de déu em déu, às vezes dentro de uma cangalha no lombo de um burro, para ficar mais uma vez em casa de parentes desconhecidos.

Foi salvo pelo encanto de criança, que se impressionou com a prédica de uma padre, com a sua cultura, e quis ser como ele, falar como ele, ser também culto. Os sonhos nos movem, rompem as fronteiras entre a crua realidade e a esperança, podendo nos fazer transcender os limites impostos pelo nosso mundo circundante. E aquele menino criado por familiares, incomodado com a ausência de ninho e de segurança, correu atrás das letras, das palavras diferentes que o padre rescitava em latim. Vejo aquele menino, não sem me emocionar.

O menino esgueirou-se por entre os crentes e ficou com o rosto na porta semi-aberta, olhando para o padre, que rezava a missa em latim. Os pobres viam uma vez por mês o homem trajado com aquelas vestes diferentes, falando uma língua estranha. O menino observava aquilo tudo com os olhos imensos de vivo interesse, porque naquela aldeia era incomum homens letrados, cuja fala revelava sabedoria e preparo. Sim, com os seus sete anos, aquele imagem o marcou para o resto da sua vida: queria ser igual àquele padre alemão, com o seu português carregado de sotaque, sempre seguido pelas beatas quando desfiava o seu latim.

O povoado de Barro Vermelho ficava no município de Juqueiro, em Alagoas. Pequeno, acolhia os sonhos daquele menino que havia perdido a mãe aos cinco anos de idade. O seu pai, sempre afeito a viagens e ao descompromisso, vivia pulando daqui para acolá, por vezes deixando o menino na casa de parentes. E foi assim que um dia o levou na casa de uma parenta, em Penedo, deixando-o por lá para estudar. E mais uma vez viu-se ele encantado com os padres, o seu preparo diferenciado naqueles anos 40 do seculo XX. Assim, foi ao mosteiro que fica ainda hoje na parte histórica de Penedo, conhecendo o padre Libório, a quem disse sem ter nem porque que queria ser padre. “Mas menino, você tem certeza?”. Sim claro que tinha. E lá foi o seu pai ao convento para dizer que não tinha as condições financeiras para comprar o enxoval que o levaria a ingressar no seminário.

Entre a boa vontade do frade e a falta de recursos do pai, deu-se que o menino foi à sede da Diocese e procurou o bispo, a quem falou da sua vocação e da falta de recursos. O bispo, comovido com a coragem e disposição daquele menino de 12 anos, deu-lhe recursos (alguns réis), que foram levados ao frade. Que surpresa! E assim foram comprados tecidos para o enxoval, feito inteiramente pela parenta do menino. E lá foi ele para Campina Grande, com os sonhos na mala, ingressando no seminário para ser um dia como aqueles homens letrados, tão diferentes dos lavradores da sua família e dos seus vizinhos.

O menino estudou no seminário. Aprendeu latim, foi apresentado à língua grega, ganhou intimidade com o português, aprendendo profundamente gramática. Ali, entre os estudos e os rigores dos frades alemães, pode estudar e ganhar contato com as letras, com a cultura, tudo tão estranho à sua gente e à pobreza de onde vinha. Se desde cedo vivera fora de casa, sem o aconchego da mãe que perdera, sem o sentido de família que o pai não lhe dera, ali, no seminário, encontrava-se com Deus, com a fé católica que marcara toda a sua vida, sonhando ser um dia padre.

E assim foi, até que a má alimentação da infância cobrou o seu elevado preço: estafa, cansaço, dificuldade física, tudo começou a lhe pesar, fazendo-o padecer de forma tão intensa que, já sem forças para continuar silenciando os seus tormentos, teve que se abrir com o seus superiores. E foi levado ao médico, sendo dado um triste diagnóstico: não mais podia ficar no seminário; quela vida contribuia para o seu infortúnio. Aos 21 anos viu-se sem rumo, voltando para a casa do seu pai, agora novamente casado com outra mulher e sem espaço para que ele pudesse sentir-se acolhido.

O menino, que fora realizar os seus sonhos, de repente foi abandonado por eles, jogado à própria sorte em razão da sua precária saúde. E lá foi ele novamente andar sem casa, sem o seu lugar, indo ensinar a crianças em uma fazenda próxima, mediante pagamento, chamada “Brejo”. Foi no Brejo que pode se recuperar, porque entre as aulas dadas às crianças da região e aos filhos do dono do local, pode ter contato constante com o verde, o leite de vaca na manhã cedinho, as andanças silenciosas e despreocupadas, podendo ganhar peso e paz, sem os horários e as atribuições que tinha no seminário.

Até que pode juntar uma pequena soma de dinheiro e foi morar em Junqueiro, à convite do Padre Santana, passando a dividir com ele a casa paroquial, justamente para ensinar um número maior de crianças na cidade. Como se fora frade, certo que um dia voltaria ao seminário, continuava andando na cidade com uma túnica amarrada com largo cordão na sua cintura.

Estimulado pelo Padre Santana, passou a estudar para concursos e, com o ritmo intenso, voltaram os sintomas que o fizeram sair do seminário. Ali, para a sua dor, teve a certeza que não mais voltaria para aquela que seria a sua vida e a sua vocação. Ali, naquele momento, poderia ficar revoltado com Deus e com a sua fé. Mas soube ser humilde diante dos desígnios que não lhe eram compreensíveis, buscando seguir em frente, à procura de novos caminhos.

Mas encontrou Tereza e com ela o amor, a família que não tivera até então, o ninho que lhe faltara. Com ela encontrou o aconhego, os cuidados constantes, a realização de homem e de pessoa. Mas sempre rezando, sempre fazendo da sua vida uma oração constante e um profundo esforço para honrar a Deus. Não se pode pensar no papai sem pensar na sua fé, sem pensar na Igreja.

Conversamos muito ontem. E essas histórias me vieram à mente. Como aprendi tanto com elas, quis participar aos meus leitores aquele exemplo que tivemos, os seus filhos.


sábado, 29 de agosto de 2009

Ensino religioso: por que tanto medo?

Criou-se uma polêmica sobre o acordo diplomático firmado entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé (Estado do Vaticano), denominado Concordata, pelo qual se definiu o estatuto jurídico da Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil. Trata-se de um documento assinado por Sua Santidade, o Papa Bento XVI, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a finalidade de formalizar as relações entre Estado e Igreja, definindo perante a legislação brasileira a natureza jurídica das atividades desenvolvidas pela Igreja Católica, a disciplina jurídica das relações entre ela e os seus ministros ordenados e fiéis consagrados, o regime tributário a que ela e as pessoas jurídicas por ela criadas com a finalidade filantrópica se submetem, além do ensino religioso nas escolas públicas. Em resumo, a concordata trata dos seguintes temas: organização e personalidade jurídica das instituições eclesiásticas; imunidades, isenções e benefícios fiscais; patrimônio cultural; casamento; regime trabalhista de religiosos.


Em que pese a simplicidade do documento, criou-se uma descabida polêmica, sendo suscitada por alguns a inconstitucionalidade do acordo, em razão de ser o Brasil um estado laico e da separação histórica entre Igreja e Estado. E a razão principal da crítica seria justamente a previsão do ensino religioso em escolas públicas, o que quebraria, sempre segundo essa visão reducionista, a vértebra de um Estado laico. Afora isso, houve algumas denominações religiosas que se queixaram do tratamento jurídico diferenciado dado à Igreja Católica, nada obstante a crítica fosse difusa, talvez por desconhecimento do conteúdo do texto assinado pelo Brasil e pela Santa Sé.


Na verdade, a concordata não traz grandes novidades nem cria privilégios para a Igreja Católica. Trata-se de um acordo que formaliza práticas já consolidadas, sendo agora juridicamente reconhecidas pelo Estado Brasileiro de modo formal e orgânico. Por exemplo, a organização e a personalidade jurídica das instituições eclesiásticas é historicamente vivenciada em nosso ordenamento jurídico, sendo de conhecimento corrente que a Igreja possui em sua estrutura organismos como a Conferência Episcopal, Províncias Eclesiásticas, Arquidioceses, Dioceses, Prelazias Territoriais ou Pessoais, Vicariatos e Prefeituras Apostólicas, Administrações Apostólicas, Administrações Apostólicas Pessoais, Missões Sui Iuris, Ordinariado Militar e Ordinariados para os Fiéis de Outros Ritos, Paróquias, Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica (artigo 3º do Acordo).


No que diz respeito ao ensino religioso, aí sim, surge o eixo mais sensível da crítica daqueles que sonham com um Estado sem a presença de Deus e, sobretudo, sem os sinais da Igreja. Todavia, ao contrário do que muitos poderiam pensar, o Acordo firmado não buscou criar qualquer benefício para a Igreja Católica, porém, respeitando o pluralismo, desejou preservar a manutenção do ensino religioso, independentemente da sua vinculação aos ditames da Igreja, para que as crianças e jovens tenham direito a uma formação integral, inclusive com ênfase em sua espiritualidade. Por isso, em seu artigo 11 foi estipulada a seguinte cláusula: “A República Federativa do Brasil, em observância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação integral da pessoa”. E em seu parágrafo único: “O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação”. Ou seja, cumpre o Acordo o programa constitucional que prevê a obrigatoriedade do ensino religioso em escolas públicas, nada obstante sem previamente definir ou negar o seu caráter confessional.


Aliás, esse é o ponto fundamental da irritação daqueles que pregam um Estado sem Deus: o acordo celebrado reconhece claramente, extensiva a todas as denominações religiosas, a possibilidade de ensino confessional, em sintonia com o art.210, § 1º, da Constituição Federal e com uma reta interpretação do art.33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Como muito bem enfatizou Dom Filippo Santoro, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, “É inegável que o ensino religioso não deve ser entendido como alusivo a uma 'religião genérica', a-confessional, indefinida, já que uma tal ‘religião’ não existe. Seria pura abstração mental, sem correspondência na realidade da vida e da sociedade humana. E se o Estado quisesse administrar esta forma de ensino genérica, esta sim seria contra a laicidade do próprio Estado porque ele não possui uma religião própria, mas deve respeitar as formas religiosas que se encontram na sociedade”.


Deste modo, resta claro que o Acordo celebrado entre a Igreja e o Brasil não cria privilégios, mas apenas reconhece juridicamente práticas históricas consolidadas da principal religião do país. Ademais, reafirma o programa constitucional da obrigatoriedade de ensino religioso, levando para as crianças e jovens da rede pública o sentido do sagrado e a mensagem salvífica. Assim, o Acordo apenas afeta os que desejam não um Estado laico, mas sim um Estado anti-religioso, intolerante e sem Deus. Por isso, a pergunta inicialmente formulada: por que tanto medo do ensino religioso?


(Texto publicado originariamente no blog "Visão Cristã")

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ataque ao crucifixo

Reproduzo aqui o blog do Reinaldo Azevedo (aqui). Há alguns que, em nome do Estado laico, querem simplemente apagar as raízes históricas do Brasil com o cristianismo católico, desde a sua descoberta. Ao tentarem retirar símbolos religiosos de prédios públicos, como o crucifixo, querem mesmo é arrancar um pedaço da nossa cultura, cuja expressão está até mesmo na invocação de Deus no preâmbulo da nossa Constituição. Laico que é, como pode o Estado mencionar Deus em sua principal norma jurídica, que funda juridicamente o país?

Depois, como vagar, trato do assunto:

QUEREM CASSAR E CAÇAR ESTE SÍMBOLO DAS REPARTIÇÕES. EM NOME DA TOLERÂNCIA!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009 | 19:14

crucifixo

Uma coisa é ser agnóstico; outra, distinta, é considerar mera estupidez o que não pode ser explicado pela razão; uma coisa é ser ateu; outra, distinta, é achar que os crentes merecem a fogueira — ainda que seja a da desmoralização. Uma coisa é ser laico e advogar um estado idem; outra, diferente, é perseguir as religiões e os signos religiosos. Uma coisa é defender firmemente que a religião não degenere em fanatismo e sectarismo; outra, distinta, é perseguir fanática e sectariamente os que fazem questão de evidenciar a sua religião.

Por que esse preâmbulo?

Certamente por julgar que todas as outras questões que dizem respeito aos “Direitos do Cidadão” já estão em seu devido Lugar, a Procuradoria Regional dessa área, em São Paulo, decidiu ajuizar uma ação civil pública pedindo à Justiça que obrigue a União a retirar símbolos religiosos, como crucifixo e bíblias, das áreas públicas dos órgãos federais. A argumentação: o Estado é laico.

Parece tudo tão óbvio, não? Parece tudo tão evidente: se é laico, sem símbolos religiosos. Pronto! Não! Pronto nada! De jeito nenhum! Houvesse a obrigatoriedade de se exibir o crucifixo nessas repartições, eu estaria entre aqueles a lutar pela mudança da lei. Mas não é assim.

Dada a forma como se ostentam esses símbolos nos órgãos públicos, estamos diante de uma óbvia e legítima expressão que é também da nossa cultura — não diz respeito apenas à nossa crença. Se um juiz ou promotor decidir pôr em sua sala um quadro com a imagem de uma figura do Candomblé, não ocorreria a ninguém lhe pedir que tirasse o objeto de lá. E ai daquele que o fizesse! Correria o risco de ser processado por racismo ou intolerância religiosa.

O mais surpreendente, e até engraçado, é que a ação da Procuradoria teve origem na representação de um tal grupo chamado Brasil para Todos. Para todos, como se nota, mas menos, então, para os cristãos, que formam, suponho, mais de 90% da população brasileira. Estamos diante da intolerância em nome da tolerância; do desprezo, então, à vontade da maioria em nome da minoria. Aí não é possível. Isso não é democracia, mas autoritarismo sectário.

Como já vimos aqui tantas vezes, a democracia não se esgota com a realização da vontade da maioria. Se os direitos e a voz das minorias não estiverem assegurados, não há regime democrático. A simples exposição de um crucifixo ofende a minoria não-cristã do Brasil? Aliás, dentro dessa minoria, quantos, de fato, estão se sentindo agredidos? Não estamos diante de uma daquelas situações típicas em que não podendo o grupo minoritário impor a todos a sua vontade e as suas escolhas, contenta-se, então, em constranger a vontade majoritária?

Caberá à juíza Maria Lúcia Lencastre, da 3ª Vara Federal, a decisão. O grande guia da meritíssima, a exemplo do que ocorre com todos os juízes, é a Constituição da República Federativa do Brasil, aquela que, como está explícito em seu preâmbulo, foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Ou haverá nesta referência algo de profundamente ofensivo aos ateus e agnósticos? O tal grupo Brasil para Todos dará início a um movimento para tirar Deus da Constituição? Não seria o caso de consultar os brasileiros, então, já que a consulta feita — por meio da eleição dos constituintes — parece sem validade a essa gente?

Preconceito anticristão! Esse é o nome da iniciativa do grupo e, se quiserem saber, da ação da Procuradoria Regional. Aliás, seria mais específico: trata-se de preconceito anticatólico, porque é do catolicismo que deriva a, atenção!, “tradição cultural” de se ornarem repartições públicas com o símbolo maior do cristianismo. Ora, que valores tão exóticos ele encerra? O da convivência entre as diferenças? O do amor ao próximo? O da solidariedade? O da caridade? O do perdão? O da fraternidade em Cristo? A quem isso tudo ofende? A quem isso tudo constrange? A quem isso tudo afronta?

Fui ao site do grupo. Encontro lá os dirigentes. E algumas coisas começaram a ficar mais claras para mim:
- Iyalorisa Sandra M. Epega - Presidente da ONG Respeito Brasil Yorubá;
- Pai Celso de Oxaguián;
- Monja Coen Sensei - Missionária da tradição Soto Shu - Zen Budismo;
- Mahesvara Caitanya Das - sacerdote Vaishnava;
- Pr. Djalma Rosa Torres - Igreja Batista Nazareth;
- Rev. Cristiano Valério - Igreja da Com. Metropolitana de São Paulo;
- Ricardo Mário Gonçalves, PhD, monge budista;
- Monge Genshô, Diretor-Geral do Colegiado Budista Brasileiro;
- Jagannatha Dhama Dasa - sacerdote hinduísta Vaishnava;
- Milton R. Medran Moreira - Presidente da Conf. Espírita Pan-Americana.

Como fica evidente, trata-se da expressão de minorias religiosas. Que têm todo o direito de se manifestar. Aliás, é justamente o regime de tolerância propiciado, felizmente, pelo cristianismo que lhes garante lutar para que se apaguem da vida pública brasileira os sinais do… cristianismo. Essa gente seria realmente corajosa, valente, se decidisse, sei lá, pedir que o Irã eliminasse os sinais do islamismo da vida pública — imagem de Maomé, não, porque não pode…

Sim, senhores! O fato é que o cristianismo moderno tem sido a melhor garantia da tolerância entre as diferenças. A lei é sua forma civil. A tradição cristã é seu caldo cultural.

A ONG também conta com “juristas”, como aparecem identificadass lá as seguintes pessoas:
- Roberto Arriada Lorea, MSc. - Juiz de direito;
- Daniel Sarmento - Procurador da República;
- José Henrique Torres - Juiz de direito;
- Iso Chaitz Scherkerkewitz - Procurador do Estado de SP;
- Aldir Soriano - Vice-presidente da Ass. Bras. de Liberdade Religiosa e Cidadania, membro da Comiss. de Dir. e Liberdade Religiosa da OAB-SP;
- Elza Galdino - Advogada

Que esses doutores reflitam se não estão tentando, a exemplo dos racialistas, trazer para o Brasil um conflito que não existe, importando tensões que não estão presentes entre nós ou que têm sido equacionadas no espaço da convivência democrática. Rituais de natureza religiosa, segundo a tradição de cada país, estão presentes em quase todo o mundo. Em boa parte do planeta, a testemunha jura dizer a verdade com a mão sobre a Bíblia.

O cristianismo, felizmente, não se impõe mais a ninguém. No Brasil e no mundo. No que respeita à Igreja Católica, poucas religiões têm buscado, com tanta dedicação, a convivência com as diferenças — em alguns casos, a ponto de se descaracterizar. Querer cassar e caçar o crucifixo, impondo uma proibição, corresponde a violentar a história brasileira e a incentivar a intolerância.