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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O BOBO-DA-CORTE E OS BOBO

Perguntou ao bobo-da-corte:

- "Por que és tão bobo? Tens necessidade de fazeres rirem de ti os outros?"
O bobo-da-corte pôs-se a pensar demasiado e terminou por vituperar o indagante com não sei quantos impropérios. Depois, amuado, disse-lhe:
- "Minha essência é fazer os outros rirem de mim, de minhas pilhérias... Não fosse assim, bobo não seria, muito menos da corte real. Afinal, passo o dia a me dedicar esforçadamente a construir tiradas para que se riem delas. A minha profissão é ser bobo, ora pois."
O indagante, então, sorriu com afeto. - "Mas e os livros que lês tão acotiadamente? Que fazes com tanta sabedoria de que és portador?"
O bobo-da-corte continuou amofinado.
_ "Meus conhecimentos são para mim mesmo. Não os quero partilhar, porque foram obtidos com os sacrifícios de horas de dedicadas leituras. Prefiro que os outros me conheçam pelos meus gracejos, não pelas minhas convicções ou pelos produtos das minhas meditações."
- "Ah! - ponderou o indagante -, tu preferes idiotizar os teus ouvintes e guardar os tesouros que adquiristes. Compreendi. Tu não és bobo coisa alguma; bobos são todos os que te ouvem e se riem em kkkkkkks e kikikikikis, deixando de ouvirem coisa de melhor proveito."
O bobo-da-corte piscou o olho e riu-se muito. O indagante, enfim, descobrira a lógica da coisa toda. O bobo-da-corte é profissional; os verdadeiros bobos são os desocupados que riem de qualquer chiste ou facécia, perdendo de se dedicarem a coisa de melhor proveito.

domingo, 18 de agosto de 2013

Trabalho duro!

Passo horas lendo, refletindo, debulhando livros. Porque para ser o melhor que posso ser é preciso muito TRABALHO DURO. O objetivo não é ser melhor do que os outros; é ser o meu melhor, o resultado dos meus esforços. Horas no silêncio. Horas sabendo que o mundo lá fora corre alucinadamente, enquanto eu estou aqui, sentado, os livros abertos...

Quantas vezes tenho a sensação de que estou perdendo tempo... Não raras vezes me vem uma ansiedade, uma vontade de estar na rua, de travar relações com as pessoas, de estar correndo o tempo todo como elas. Mas paro. Concentro-me. Há ainda muito TRABALHO DURO pela frente. Os livros densos fazem com que os leia página por página, linha por linha, sorvendo cada palavra como fossem o sumo da laranja que chupamos com sede ingente.

E a leitura mistura-se com a comparação com outros textos; articulamos ideias contrárias, pesamos os argumentos, caminhamos no meio de um sentido ou de outro e logo alcançamos uma nova forma de ver e um momento de suprassumir o que lá estava e se pôs para mim.

(Parêntese: Dizia Hegel na Fenomenologia do Espírito: "O suprassumir ('aufheben') apresenta essa dupla significação verdadeira que vimos no negativo: é ao mesmo tempo um negar e um conservar. O nada, como nada disto, conserva a imediatez e é, ele próprio, sensível; porém é uma imediatez universal” (FE, p. 84, §113)").

TRABALHO DURO! Não há outro meio para o sucesso em qualquer área. Dedicação, esforço, empenho, coragem, paciência, perseverança, fé...

Muitas vezes as pessoas perguntam: "Para quê isso?, por que tanto esforço?, por que razão tantas horas lendo?, por que investir tanto em livros?". Perguntam como a dizer: "Você está perdendo tempo!". Sim, as pessoas teimam em adjudicar aos nossos esforços a pecha de inutilidade, de excesso, de falta de senso. Por quê? Porque incomodamos. Saber o que se quer, saber para onde se vai simplesmente incomoda.

Quantas vezes fui e sou tachado de arrogante, de orgulhoso, de pedante, de vaidoso? As pessoas rotulam o esforço, a perseverança. Em um mundo sem convicção, em que tudo é nada e nada é tudo, ter posição incomoda muito. É, pois, preciso ter coragem para ser o melhor que podemos ser. Ouvir menos os "conselhos" e as críticas alheias e estar mais atento ao desafio que se quer alcançar. E mui, muito TRABALHO DURO.

Sugiro que assistam o vídeo abaixo. Vale a pena.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Meu Pontes de Miranda

Havia terminado o curso de Direito. Fazendo o Exame de Ordem vi no mural um pequeno aviso: um advogado vendia os 60 volumes do "Tratado de direito privado" de Pontes de Miranda. Fui para casa ansioso. Sabia que os servidores públicos estavam numa fase difícil, com atrasos de pagamentos. Comprar uma coleção daquelas não seria fácil. No jantar, comentei com o papai sobre aquela possibilidade. Ele sabia o quanto lia Pontes de Miranda, sempre através de cópias ou empréstimos.

Era eu pontesiano, estudando com profundo interesse o pensamento genial do jurista alagoano, um dos maiores gênios que as letras jurídicas produziram. Eu, é certo, vinha me esforçando para comprar meus livros sem espremer tanto o orçamento lá de casa. Afinal, era frequentador assíduo da extinta livraria Caetés, onde comprava excessivamente livros, jurídicos ou não. Certo mês, o papai me chamou a atenção, porque fiz gastos elevados demais: "Filho, estude, compre seus livros, mas combine antes, porque vocês são quatro filhos. Assim, você desestrutura o orçamento de casa".

De fato, a minha avidez precisava ser ponderada. Para não deixar de comprar meus livros sem prejudicar os outros irmãos, encontrei uma solução: dar aulas de reforço a meninos e meninas da minha rua. E foi assim que virei professor de matemática (matéria que detestava), ensinando alunos em apuros, com baixo aproveitamento. Seis meses assim, que me renderam dinheiro para torrar em livros. E - que bom! - meus alunos passaram de ano com boas notas.

Bem, mas comprar a obra de Pontes de Miranda estava além das minhas possibilidades. Já gastava com livros a minha mesada, o dinheiro que ganhava dando aulas e o que mais os meus pais davam para pagar outros livros que eu comprava. Aliás, eu andava sem dinheiro. Tudo era para livros. A minha namorada, quando saíamos, era quem pagava a conta. Ela já sabia desse pequeno detalhe...

Diante da possibilidade de dispor daquela obra e da minha dedicação, o papai me olhou e disse que iria comigo ver o dono da coleção de Pontes de Miranda. Fiquei numa expectativa absurda. Quase não dormi. E fomos lá, juntos, no dia seguinte. A coleção era muito conservada; os livros, pensei eu, nunca foram abertos e lidos. O papai tentou negociar. O advogado, dono do "Tratado", mostrou-se irredutível. Precisava do dinheiro e não abria mão do valor. Conversa vai, conversa bem, ele fez a seguinte proposta ao papai: "O sr. leva o Tratado por esse valor e eu cedo, sem custos adicionais, esses outros livros", disse, apontando para uma outra obra de Pontes de Miranda, 17 tomos, os "Comentários ao Código de Processo Civil".

Fiquei doido! Querias muito também aquela obra. O papai me fitou. Viu o brilho nos meus olhos. Não me perguntou nada. Minha expressão dizia-lhe tudo. Ele virou-se para o advogado e concordou. Comprou os livros, realizando o meu sonho. Lembro-me, não sem emoção, daquele momento: levando os livros para o carro, colocando-os na mala, ao ponto de enchê-la: 60 tomos do "Tratado de direito privado" e mais 17 dos "Comentários ao Código de Processo Civil". E o advogado, querendo livrar-se dos livros da sua biblioteca, ainda me deu algumas outras boas obras, que me servem até hoje.

Foi um sonho. Arrumar aqueles livros em estantes compradas para recebê-los, passar a ler as obras podendo riscá-las, fazendo anotações. Uma alegria imensa. E essas obras ainda hoje são lidas, consultadas, fazendo parte da minha formação intelectual. Foi estudando Pontes que pude criar minha teoria da inelegibilidade.

Bem, aquele esforço do papai, naquele momento difícil, foi fundamental para a minha formação. Achavam, ele e a mamãe, que eu me excedia com tanta leitura e livros, mesmo tendo sido essa a educação que deram. Mas eu era demais da conta; virava noites lendo. Mesmo sem entender, apoiaram, porque a causa era justa. E foi por causa deles que pude me desenvolver intelectualmente. Lembrei dessa história hoje e quis compartilhar. Sou grato demais aos dois, que me deram tudo o que precisava para ser gente e ter valores.

terça-feira, 1 de maio de 2012

FÓRMULA DO AMOR

Amar é intemporal e geograficamente ubíquo. O amor não tem tempo nem espaço; é energia vital, que doses cavalares toma não apenas o coração, mas cada poro do corpo e cada pedaço da alma.

O amor, assim, desafia as leis da física e dá um ultimato à razão pura kantiana. Nele tudo é já de antemão a priori, sem que se possa mais falar em depois. O amor é; como o ser, não admite definições, senão tautologias ocas.

Ama-se! Ama-se e, com isso, se deixa apoderar o coração, os pensamentos, o corpo, a alma. E o ser, assim amante, outra coisa mais não é que uma busca do ser amado, esse complemento que não completa, esse outro que, para ser amado, haverá de ser sempre outro, na sua individualidade, nas suas idiossincrasias.

No amor há fórmulas? Há quem diga que se ama de A a Z, assim, na completude e inteireza do ser. Mas uma outra fórmula possível é dizer que o amor é igual à soma da Luz, que tudo ilumina, e da Caridade, que nos faz abrir a alma ao outro, querer o bem, buscar a verdade e a felicidade do outro (A'= L + C).

Sim, Luz e Caridade é o amor verdadeiro. E, quando esse amor se converte no amor de homem e mulher, a fórmula ganha o elemento da sexualidade, da carne que nos revela não sermos anjos celestes, mas humanos para vivermos a nossa humanidade (A''= L + C + C).

A' é o amor ágape; A" é o amor eros. O Eros é o amor com ágape, acrescido de um "plus": o desejo sexual que pede a inteireza de alma e carne.

Eis aí uma fórmula para o amor...

Amar amar a mulher amada



Não existe relacionamento amoroso perfeito, sem choques ou sem dor. Se perfeito ele for, se não houver momentos de desentendimentos ou cobranças, é porque ambos se acostumaram com o que têm, não sonham mais, não se olham mais, já estão empanturrados do vazio da relação.


Uma relação se desgasta mais pelo adormecimento do que pelos conflitos. Quando há o comodismo, o dar de ombros, o "tanto faz", é porque o outro já não importa tanto; o convívio passou a ser natural, como natural é a porta de madeira na entrada da casa. Está ali, sem que nem sempre nos demos conta dela... O "estar ali" é o costume morto, como a aceitação da camisa poida, o andar com a meia levemente furada, o comer o cuscuz já frio. Nada importa porque simplesmente já não chama a atenção.



Melhor os desentendimentos. Claro, no limite do respeito, decorrendo da vontade de que o outro possa refletir sobre algo. O conflito é, muitas vezes, produtivo para o casal, desde que haja amor e a vontade sincera de construir as pontes para o outro. Brigar por brigar é tão vazio como o estar por estar; é a morte inquieta da relação, a última convulsão.



O fundamental em uma relação a dois é que haja amor inquieto. O amor dormente, o amor acomodado, o amor saciado, o amor silencioso, o amor sem tesão, o amor satisfeito... são expressões do amor moribundo. A inquietude significa o importar-se, o sair de si, o ter medo de perder, o enciumar-se, o cuidar, o nutrir, o buscar, o estar vigilante... É o amor em estado de ebulição!



Sim, cuidado! A mulher é um bicho estranho. Ela nunca esquece o que lhe é dito; ela guarda todas as suas mágoas em um pote, dentro de um cofre com segredo criptografado. E leva consigo aquelas mágoas até onde o tempo lhe dê algum tino para, na primeira oportunidade, cobrar com juros e correção monetária aquela ofensa sentida. A mulher ama com a mesma intensidade com que cobra e guarda...



Se lá para as tantas você diz "eu te amo" e, antes, fez alguma observação ou brincadeira que lhe desagradou, ela apenas dará atenção ao desagrado; o "eu te amo" cai no abismo das suas cobranças, dos seus reclamos e, no mais da vez, da sua vitimização. Ah, essa é uma poderosa arma para a mulher, porque nos põe frágeis, pequenos, se ela se mostra atingida por algo dito ou feito por nós, gerando em nós a mais profunda compunção.



Desisti de tentar compreender a mulher amada. Quanto mais amada, quanto mais nos damos, mais ela nos cobra e exige, mais ela nos nega ter recebido o amor e a atenção que damos, mais ela nos ataca e exige, fazendo-se de vítima da secura de um amor viçoso e cheio de vida, que ela finge não ver...



É por essas e outras que amo amar a mulher amada. Porque só ela pode ser assim tão contraditória, tão cheia de misteriosos caminhos, tão complexa em nos dar abrigo sem nos tirar do relento, tão rica, sendo dadivosa, e tão pobre, sendo fria quando quer ser, a nos fazer mendigos dos beijos, carinhos e cuidados...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Há tempo para tudo na vida. Tempo de esperar, tempo de decidir, tempo de agir, tempo de amar... Só não há tempo de perder tempo. O tempo que se perde é a vida não vivida, o sonho não sonhado, a felicidade abdicada.

O tempo não é inimigo. É apenas uma verdade. A verdade do que vivemos ou a verdade do que nos negamos a viver por comodismo.


Como diz o poeta Oswaldo Montenegro, em uma de suas músicas, "eu quero ser feliz a
gora!". O "agora" é a calibração do tempo. Não quero postergar, não quero deixar para amanhã, não quero simplesmente dar de ombros, como se houvesse um dia sequer em que pudesse abrir mão de ser feliz.

E ser feliz nada mais é do que dar passos para a honesta autorrealização. Passos para o que grita em nossa alma, para a essência que somos. Passos para o destino que nos chama, proclamando ao nosso coração: "Vem!".

O tempo, então, é o ladrilho que faz o nosso caminho. É o piso que diz dos nossos passos ou da nossa paralisia. E sendo o eixo aonde a vida se dá, poderá ser nosso aliado ou nosso inquisidor. Ele nos mostrará o quanto percorremos ou, tristemente, o quanto simplesmente ficamos ali estacionados, como se tudo passasse por nós e estivéssemos em um ponto morto dominado pelo medo e pelo comodismo amargo.

Tempo, tempo, tempo, tempo...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Era para ser...

Era para ser como o encontro do rio com o mar. A convulsão do encontro antes da calmaria profunda, que é a vocação dos amantes.

Era para ser como um sorriso aberto, largo, pleno, do que se deixou encantar pela entrada dos olhos, pelo que se viu esperado e achado entre as esquinas da vida.


Era para ser como a estrela primeira a brilhar, quando a tarde começa a dormir e a noite lhe toma o lugar e ilumina o céu com o descortinar das estrelas.


Era para ser como um sonho bom, que deleita o sono profundo e faz com que o acordar seja pesaroso e triste.

Era para ser como a alegria de um momento que se eterniza em nós, para além do tempo e das vicissitudes da vida.

Era para ser... E ao não ser, tanto se perdeu, tanto ficou por ser vivido e feito. E restou o sorriso que não veio, o olhar que não brilhou, a estrela que ficou submissa às nuvens, a alegria que não se viveu.

E a vida seguiu assim, como uma nau sem velas, levada pelo fluxo das marés, sem ter sonhos para sonhar e terras novas a descobrir.

E veio o tempo... E ao olhar para trás, tudo era apenas a ausência do que não foi. E o viver - esse dom maravilhoso - ficou como um projeto não realizado, um passar de dias sem sentido e sem fé. E tudo era nada, e tudo era desilusão, e tudo era a certeza dos erros das dúvidas e dos medos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Recuperando

Sou grato ao meu pai por tudo. Pelos apertos que me deu, para que fosse um homem responsável; pela orientação que deu, para que amasse Cristo e a Igreja; pelos livros que deu, quando os recursos minguavam com os desgovernos e os atrasos dos pagamentos do Estado. Sou grato pelo que não me deu, porque não pode. Sou grato por ter me feito um homem, em todos os sentidos da palavra. Meu pai nunca aceitou moleques; nunca compactuou com a preguiça, a irresponsabilidade, a covardia e a desonestidade. "Não seja uma pessoa com a cara para trás", contra a covardia. "O trabalho dignifica o homem e as coisas altas e lustrosas - repetindo Camões - só se alcançam com trabalho e fadiga", contra a preguiça e a irresponsabilidade. "Elas poderam. Eles poderam. Por que eu não posso?", contra a autocompaixão e o complexo de vira-lata. "Sem Jesus Cristo nossa vida não tem sentido", pela nossa conversão.

"Recuperando!" Esse era o meu novo nome quando fiquei em recuperação no 1º ano científico do Marista. Ele me rebatizou. Deixei de ser Adriano, perdi a identidade: "Recuperando - diazia-me à mesa -, passe a menteiga!", "Recuperando, nada de televisão. Vá estudar!". Nunca mais fiquei em recuperação em nada na vida; os livros passaram a ser meus amigos definitivos, tendo eu cumprindo a promessa que lhe fiz, logo após passar na prova de recuperação em química: "Papai, o senhor mais nunca reclamará de mim por não estudar. Mas lhe digo: haverá um dia que o senhor reclamará porque eu estudo demais!". Esse dia, um dia, chegou. E eu o lembrei da promessa e continuei estudando...

Papai é um homem inteiro, com todas as suas limitações e contradições. É um Homem, na acepção da palavra. Seus filhos não poderão nunca reclamar da omissão paterna. Nunca poderão dizerem-se frustrados por causa do pai. Somos, os quatro, frutos das nossas opções, acertos e desacertos. Mas nunca erramos porque ele se omitiu. Quando passei no concurso para juiz e não quis assumir, ele me orientou a experimentar a carreira. Quando quis sair, ele me orientou a esperar maturar a idéia. Quando sai, ele rezou por mim e esteve ao meu lado. Nuna me chamou de louco ou de irresponsável. Confiou nas minhas escolhas, porque confiava na educação que me havia dado. Se fosse um frustrado hoje, não seria por causa dele; teria toda a responsabilidade. Como sou um profissional feliz, sou-lhe grato por não ter me amarrado em uma carreira digna e importantíssima, com a qual ele próprio sonhara para ele, mas que não me realizava.

"Recuperando!", ouço a voz dele, chateado comigo. Mas do que a voz, o olhar de desapontamento. Era como se ele se perguntasse: onde foi que errei com esse menino? Eu respondo: em nada, meu pai, porque todos os seus erros foram para o nosso bem! Suas noites trabalhando no entroncamento de Penedo, como fiscal de renda, mesmo sem uma boa saúde, não foram em vão; sua preocupação em ser exemplo para os filhos, tampouco. As vezes em que o senhor e a mamãe contavam, na ponta do lápis, o que poderiam comprar para a gente, renunciando muitas vezes o que seria importante para vocês, valeu a pena: seus filhos testemunham o amor de vocês! Somos o que somos, vencemos na vida, porque lutamos; nada caiu do céu, a não ser a graça divina de termos vocês como pai e mãe.

Lembro-me do dia que uma amigo meu me questionou, na faculdade, porque estudava tanto. Ele, rico; eu, filho de funcionários públicos em um Estado que sequer pagava em dia. Respondi: "Porque o estudo é o meu trabalho!" Nada mais parecido com Lourival Nunes da Costa. O homem para quem o maior elogio dado a outro era: fulano é trabalhador! Seu caçula trabalha tanto, que às vezes vai além dos seus limites. Porque um homem é o seu trabalho, a sua luta. Sou um filho marcado por meu pai. Justamente o filho que mais o questionava, que mais resistia às suas orientações...

Escrevo essas linhas públicas com lágrimas. Sim, lembranças e mais lembranças me invadem. As pisas de cinturão (que os psicológos de hoje condenam, por sentimentalóides) deram-me fibra; os puxões de orelha, deram-me limites; os conselhos e o diálogo constante, deram-me a capacidade de pensar e discernir; a vergonha de beijar um filho, deu-me a coragem de beijar o pai e dizer que o amo; as limitações de saúde e a superação, ensinaram-se que o homem se faz na rinha, sem queixas miúdas e com a coragem de vencer; os sonhos impossíveis pelas próprias limitações da vida ensinaram-me que os sonhos que valem são os possíveis, os que podemos transformar em realidade, após a conquista. Os sonhos irrealizáveis não são sonhos; são miragens que nos afastam da realidade e nos enganam. Por isso, o meu pai é o meu herói. Por isso, o amo profundamente, porque sou o que ele me possibilitou ser, a partir das bases sólidas que ele me deu.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Livros


Havia terminado o curso de Direito. Fazendo o Exame de Ordem vi no mural um pequeno aviso: um advogado vendia os 60 volumes do Tratado de direito privado. Fui para casa ansioso. Sabia que os servidores públicos estavam numa fase difícil, com atrasos de pagamentos. Comprar uma coleção daquelas não seria fácil. No jantar, comentei com o papai sobre aquela possibilidade. Ele sabia o quanto lia Pontes de Miranda, sempre através de cópias ou empréstimos. Era eu pontesiano, estudando com profundo interesse o pensamento genial do jurista alagoano, um dos maiores gênios que as letras jurídicas produziram.

Eu, é certo, vinha me esforçando para comprar meus livros sem espremer tanto o orçamento lá de casa. Afinal, era frequentador assíduo da extinta livraria Caetés, onde comprava excessivamente livros, jurídicos ou não. Certo mês, o papai me chamou a atenção, porque fiz gastos elevados demais: "Filho, estude, compre seus livros, mas combine antes, porque vocês são quatro filhos. Assim, você desestrutura o orçamento de casa". De fato, a minha avidez precisava ser ponderada.

Para não deixar de comprar meus livros sem prejudicar os outros irmãos, encontrei uma solução: dar aulas de reforço a meninos e meninas da minha rua. E foi assim que virei professor de matemática (matéria que detestava), ensinando alunos em apuros, com baixo aproveitamento. Seis meses assim, que me renderam dinheiro para torrar em livros. E - que bom! - meus alunos passaram de ano com boas notas.

Bem, mas comprar a obra de Pontes de Miranda estava além das minhas possibilidades. Já gastava com livros a minha mesada, o dinheiro que ganhava dando aulas e o que mais os meus pais davam para pagar outros livros que eu comprava. Aliás, eu andava sem dinheiro. Tudo era para livros. A minha namorada, quando saíamos, era quem pagava a conta. Ela já sabia desse pequeno detalhe...

O papai me olhou e disse que iria comigo ver o dono da coleção de Pontes de Miranda. Fiquei numa expectativa absurda. Quase não dormi. E fomos lá, juntos, no dia seguinte. A coleção era muito conservada; os livros, pensei eu, nunca foram abertos e lidos. O papai tentou negociar. O advogado, dono do Tratado, mostrou-se irredutível. Precisava do dinheiro e não abria mão do valor. Conversa vai, conversa bem, ele fez a seguinte proposta ao papai: "O sr. leva o Tratado por esse valor e eu cedo, sem custos adicionais, esses outros livros", disse, apontando para uma outra obra de Pontes de Miranda, 17 tomos, os Comentários ao Código de Processo Civil. Fiquei doido. Querias muito também aquela obra.

O papai me fitou. Viu o brilho nos meus olhos. Não me perguntou nada. Minha expressão dizia-lhe tudo. Ele virou-se para o advogado e concordou. Comprou os livros, realizando o meu sonho. Lembro-me, não sem emoção, daquele momento: levando os livros para o carro, colocando-os na mala, ao ponto de enchê-la: 60 tomos do Tratado de direito privado e mais 17 dos Comentários ao Código de Processo Civil. E o advogado, querendo livrar-se dos livros da sua biblioteca, ainda me deu algumas outras boas obras, que me servem até hoje.

Foi um sonho. Arrumar aqueles livros em estantes compradas para recebê-los, passar a ler as obras podendo riscá-las, fazendo anotações. Uma alegria imensa. E essas obras ainda hoje são lidas, consultadas, fazendo parte da minha formação intelectual. Foi estudando Pontes que pude criar minha teoria da inelegibilidade.

Bem, aquele esforço do papai, naquele momento difícil, foi fundamental para a minha formação. Achavam, ele e a mamãe, que eu me excedia com tanta leitura e livros, mesmo tendo sido essa a educação que deram. Mas eu era demais da conta; virava noites lendo. Mesmo sem entender, apoiaram, porque a causa era justa. E foi por causa deles que pude me desenvolver intelectualmente.

Lembrei dessa história hoje e quis compartilhar. Sou grato demais aos dois, que me deram tudo o que precisava para ser gente e ter valores.

Há dias...

Há dias sofridos. Dias em que vemos nossos sonhos irrealizáveis.
Há dias em que o frescor da manhã não nos atinge, em que a sua luz suave parece distante.
Há dias em que olhamos sem ver, porque nossa mente está nublada.
Há dias em que nosso sorriso é sem apelo, protocolar, quase uma satisfação para os que nos rodeiam.
Há dias em que nem sorriso há.
Há dias em que somos o copo vazio, posto em um canto qualquer. Somos a dor e o silêncio, a sombra e a palavra não-dita. 
Há dias em que somos a saudade, a dor indolente do fastio de viver, a roupa molhada na cerca suplicando o sol, o vento assobiando as sujeiras das ruas...
Há dias em que a saudade aperta.
Há dias em que a melancolia nos toma e se apropria de nós. Em que nos desconhecemos e não sabemos quem somos, o que queremos, aonde vamos. 
Quando estamos assim, nesses dias grizes, devemos parar, olhar para o céu e agradecer.
Rezar com fé, com serenidade, e bendizer a Deus por estarmos vivos, com as nossas limitações e virtudes, com as nossas dores e sonhos, com todo o futuro à nossa espera para ser conquistado.

Harmonia de quereres

Na boca há de haver um sorriso doce, a expressão perfeita do acolhimento. Se carnes a mais houver, que haja. E o molhado do beijo é fundamental, para que tudo se misture numa harmoniosa troca de líquidos e línguas. E que, sendo assim, não faltem os suspiros fundos, a emoção incontida, o bater descompassado do coração, o ferver do sangue, ao ponto limite do ataque cardíaco.

Que os olhos se encontrem e se falem sem palavras. Que se digam tudo, numa obscena invasão da alma, quase se apropriando dos pudores e vergonhas alheias, numa troca profunda dos recônditos labirintos do eu. E desse olhar penetrante, que haja a desventura do perder-se no achar-se noutra alma, e que tudo seja assim, como se nada fosse fora daquele instante único.

Os gestos com as mãos devem falar também. Não tanto pelo atrevimento, mas pela expressão sincera de um querer que não se esconde de si mesmo, revelada na ansiedade de uma fome descontrolada. Mãos suaves que se deixam soltas à procura de um destino onde repouse o desvelar da sua emoção. Se não vão por si mesmas, fingem-se alheias e se deixam encaminhar.

O cruzar de pernas é fundamental. Feminino, o gesto já revela toda uma sensualidade, em liturgia perfeita e ortodoxa. É toda uma odisséia o pousar uma perna sobre a outra, como quem se prepara para acomodar um violão a ser dedilhado em notas docemente declinadas. Tão instigante quanto esse movimento, apenas o consequente gesto inverso, numa atitude cuidadosa de convite a um momento mais delicado.

E, finalmente, a entrega. Que não haja regras, nem manual de instrução nem tampouco normas heterônimas de comportamento. Se houver etiqueta, que seja pouca, porque em demasia não se chega ao estado de ebolição, quando não mais se racionalizam os gestos. O amor muito educado é como vinho em que se despejou água: tirou-lhe o sabor, a força e a tonalidade.

E que tudo seja assim: uma perfeita harmonia de quereres, em que o certo seja o permitido e buscado, entre olhares, mãos, pernas e coração. E o final seja a fadiga plena, o olhar cúmplice e um novo começar, até que esmagados de tantos recomeços, haja o silêncio das onomatopéias e possam, enfim, repousar do amor consumado.

Amar se aprende amando


Amar se aprende amando. Não há receita. É uma descoberta a dois, na aventura do outro. Aventura que pede apenas uma coisa: a sincera busca do entendimento. Um olhar de si mesmo que não exclua a quem se ama. Antes, seja includente. Sou feliz, quero ser live, mas na presença do outro, mesmo ausente. Ou seja, o outro, por ser amado, está sempre para mim como realidade, como necessidade viva.

O amor que não pensa no outro, que não o inclui na pauta de decisões básicas da vida, amor não é. Porque não cuida, não se preocupa, não importa. Há uma ausência de apropriação do sentir no lugar do outro, como se fora o outro, ao menos para entendê-lo e trazer para si.

Quem ama cuida, ainda que tome decisões que machuquem. Mas ao fazê-lo, criou pontes para a construção do caminho conjunto, naquilo que for caro a ambos. Abre-se mão de algo menor para a conquista de uma relação madura, profunda e inteira.

E amando, constroem-se e se deixam construir, saindo do comodismo do "eu sou assim", "eu nasci assim", "você me conheceu assim", para uma sadia construção de caminhos comuns, sem que um abra mão de ser um em função do outro. Um e outro permanecem um e outro, ou não haveria polaridade, o eu-tu, mas numa constante construção recíproca e contínua. Isso, sim, é amar de modo maduro.

Amor glutão

O amor pede o encontro de almas em carne e coração. Amor desencarnado não deu o passo para o pertencimento de vidas.

O amor autêntico, entre homem e mulher, é glutão. Tem aquela fome indomável, em que se pede o antepasto, o pasto e a sobremesa, sem que isso sacie todo o apetite, que se renova com pressa deseducada, soterrando etiquetas e salamaleques, tão ao gosto dos que racionalizam demais o sentir.

Amor pede pele, cheiro e litígio de olhares certeiros, incisivos e profundos. E o tempo nada mais é e se conta, senão a partir da ausência ou presença de quem se ama; ali, o tempo é largo e lerdo; aqui, fagueiro e célere, sumindo num repente indesejado.

Mas o mais interessante do amor: a sua busca pelo objeto amado. Ele não se compadece com a imobilização, a inércia, o esquecimento ou a erosão do tempo. Ele é a um só tempo arco e flecha; é o que lança e se faz lançar. Por isso, amor pede ciúme (no limite certo, no tempero exato), para que se lance sempre, busque sem nunca acomodar-se.

Sim, amar é viver, nutrir, buscar, inquietar-se. E se não mais for, não é!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Perdas e ganhos

Aprendi que a vida é feita de perdas e ganhos. As perdas, por mais dolorosas que sejam, sempre nos acrescem também. Mesmo quando nos mutilam, quando fazem doer a alma, deixam em nós algo de acréscimo: um aprendizado, uma lembrança boa, uma saudade eterna, um amargor que ensina e nos faz mais fortes.


As perdas são perdas, mas não apenas isso. Se perdemos a visão, avultam os outros sentidos. É o olfato que fica mais saliente, a audição que capta o que se perdia nos ruídos, o tato que domestica e domina as coisas ao redor. Sim, nos adaptamos às perdas e passamos com elas a ter possibilidades.

Mas é preciso ohar adiante, deixar que o que se perdeu fique para trás, em seu tempo e em seu lugar, como caminho necessário no processo de crescimento pessoal. A oportunidade de emprego, a chance de melhorias, a mulher amada, o amigo fraterno... São às vezes perdas profundas, que trazem imensa dor. Terão elas lugar em nossas vidas, como paisagens que ficaram presas em nossas retinas e nos acompanham. Mas passam...

Mesmo quando há um amor como o de Florentino por Firmina, no livro "O Amor nos tempos do cólera", que ultrapassam 53 anos de espera dele por ela quase sem nenhum contato, as perdas sofridas se convertem em buscas constantes, irresistíveis, como forças catalisadoras para que os passos sejam dados.

Há, é certo, as perdas que levam à amargura, à perda de sentido, à amoralidade em busca do sucesso fácil ou da vingança menor, como no livro "O Oportunista", de Piers Paul Read, em que Hilary Fletcher, por se sentir esmagado pelo amor de uma jovem rica, resolve fazer da dor meio de destruição. Mas a vitória, o que parecia um ganho, se revelará para ele apenas a mais amarga das perdas: a perda de si mesmo.

O que fazemos com as nossas perdas dizem de nós. Que elas não sejam a última palavra, mas apenas um passo difícil no imenso caminho que nos levará à vitória e à felicidade. Aí, as perdas se convertem em elementos necessários dos ganhos, que apenas lhe adornam o valor e a grandeza. No jogo de perdas e ganhos, que elas, as perdas, sejam sempre a experiência que valorizam e ensinam o valor dos ganhos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Paralelas

Linhas paralelas se tocam em algum ponto do tempo ou espaço? Na geometria euclidiana essa operação é impossível; destruiria o próprio conceito. Matematicamente, as paralelas vão ao infinito. Não há possibilidade do toque, da perda de rumo, como fossem linhas de trem, construídas exatamente para serem uma para a outra companheiras do desencontro.

Mas na geometria da vida as linhas, mesmo quando paralelas, terminam tendo um ponto de confluência: às vezes, o acaso; por vezes, um olhar; vezes bastas, uma palavra; outras tantas, um gesto qualquer. E o que era para ser um infinito desencontro transforma-se em uma inversão na lógica euclidiana: as linhas se tocam, se invadem nos espaços e no correr do adiante.

Almas que se encontram são como linhas paralelas que desafiam o destino, a história, o "script", a receita de bolo pronta e acabada. Desafiam, sim, porque negam-se a ler páginas escritas previamente, roteiros traçados por se-sabe-lá-quem, que com com régua e esquadro desenha o caminho ou, lápis à mão, bosqueja uma crônica antecipada do que devemos ser.

O amor é o elemento que destrói a geometria perfeita da vida predisposta e, em um giro sobre si mesmo, redesenha linhas em descompasso e reconstrói novas realidades. É ele essa revolução que esmiuça e desqualifica todos os postulados, rompendo os vincos precisos dos paradigmas, mostrando que a nossa racionalidade simplesmente se rende àquilo que está além mesmo da própria linguagem, do plano da expressão: amar é dizer - de si mesmo e do outro - sem a posse das palavras e para além dos próprios pensamentos! É sentir o sentimento; é assumir o outro antes mesmo do cogito, do "eu penso".

O amor invade a cidadela da razão. Toma-lhe as terras, derruba as fronteiras, se apodera dos seus despojos e faz escravo, como diria o poeta, o vencedor! Amar é ganhar para perder-se, consoante Camões proclamara ainda nos tempos das caravelas. E não sem razão. Não sem olhar para o Sr. El Rey, o amor, e lançar, sem medidas, as velas ao mar da vida.

Há revolução no amor. Quem não sentiu a vida mudar ao ser tomado por ele, quem não sentiu o coração espicaçado em mil pedaços, quem não sentiu a perda do senhorio sobre os próprios sentimentos, não viveu a experiência do amor. Pode ter gostado, pode ter nutrido um sentimento bom por alguém, pode até ter se enamorado, mas não viveu a experiência daquilo que os poetas proclamaram desde sempre, quando o homem começou a se entender e brincar com as palavras. E se você - sim, você que me lê! - não viveu nada disso, a vida lhe roubou a maior das experiências, deixando-o longe do abismo, é certo, mas sem a emoção que ele proporciona.

Porém, que viveu essa densa tempestade, não adianta fugir dela. Ele, o amor, não abandona quem o descobriu comendo-lhe as entranhas da alma. A fuga é o salto no vazio da autonegação. Se o amor não é correspondido com a mesma intensidade e força, o único modo de sobreviver a ele não é negá-lo, é simplesmente deixá-lo vivente, lá em quarto escuro do coração, privado de água e pão, até que, moribundo, não tenha forças para ferir a alma, embora subsista vivo, ali onde não pode gritar para ser ouvido. Mas, nesse caso, nunca deixe que os olhos vejam a pessoa amada: a masmorra em que o amor foi aprisionado poderá não existir à experiência e viver dias de Bastilha.

O amor, finalmente, é a mais bruta força da natureza. Morre-se por amor, agiganta-se por amor, faz-se guerras por amor. Reinos caíram em razão dele, reis abdicaram, plebeus viraram príncipes, obras de arte foram compostas, monumentos erguidos. Em seu nome, a história da humanidade foi escrita e reescrita. Tudo pelo amor humano, amor de homem e mulher. Por ele, as paralelas se curvam e se perdem no enlace do infinito!

domingo, 11 de dezembro de 2011

Sonhos e realidade: "sim, eu posso!".

Somos muitas vezes limitados em nossos sonhos. Muitos dizem para nós: "vocë não pode!", "isso é impossível!", "você não consegue!". E isso, mais da vez, é dito por pessoas que amamos, que têm receio e apenas passam para nós os seus próprios limites, os seus próprios medos diante da vida.

São como a mãe de Marisa Ventura (J.Lo) no filme "Encontro de Amor". Diante do primeiro problema, diante de sonhos que parecem difíceis, não apenas a negativa do incentivo, mas a realidade crua jogada na cara, como uma âncora a impedir que se navegue para águas mais profundas:

- "Quer continuar a ter sonhos que nunca vão se realizar ou botar comida na mesa?", pergunta ela à filha mostrando-lhe contas a serem pagas.

Diante de uma pergunta assim, qual a resposta possível? Deixar que o medo tome conta, deixar os sonhos de lado para simplesmente "lavar o chão", como seria o destino de Marisa?

E ela dá a resposta possível, corajosa, definitiva:

- "Eu vou pegar essa chance sem medo nenhum, sem a sua voz na cabeça dizendo que eu não posso!".

Sim, como é imperativo, em nossas vidas, dar os saltos necessários, com os riscos todos, para que possamos transformar aqueles sonhos em uma nova realidade. Nem sempre é fácil, nem sempre dá certo, mas ao menos podemos olhar para a vida e dizer: "eu tentei!; eu lutei".

Afinal, vencer é apenas uma possibilidade; lutar, porém, é sempre a única saída digna e definitiva.

Aí podemos ver, quem sabe!?, as pessoas que antes toldavam os nossos sonhos, dizerem como a mãe de Marisa, ao final do filme, muito orgulhosa:

- "Aquela é a minha filha!", apontando para a televisão.



A frase do filme, dita pelo Mordomo do Hotel:

"O que fazemos, não define o que somos. O que nos define é o quão rápido nos levantamos depois de cair."
Maid in Manhattan - Um encontro de amor.



(Uma breve reflexão sobre o filme água com açúcar "Encontro de Amor", 2002).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Escolhas


Lá estava a vida com as suas escolhas. Cá estamos nós, com as nossas possibilidades. E entre um e outro, entre a vida e quem somos, há os passos a serem dados, as opções a serem assumidas, o destino a nos bater a porta. Todos nós, indefectivelmente, vivemos isso. Todos nós, indefectivelmente, caminhamos em um universo de escolhas e possibilidades.

O que é a felicidade? O encontro certeiro com a nossa vocação, o transformar as possibilidades em realidade, o fazer as nossas escolhas segundo o nosso coração. A felicidade é um estado de refazer-se constante! É o resultado dos passos dados, dos caminhos percorridos, do suor despendido na lida sem fim.

Não pode ser feliz quem se trai; não pode ser feliz quem se nega a si mesmo no processo da vida. Porque faz de si uma farsante, um reflexo falso dos seus próprios sentimentos e sonhos.

Eu simplesmente admiro - sim, admiração! - quem se permite questionar. Quem põe em xeque as suas certezas e se deixa indagar sobre os seus próprios fundamentos. Perguntar-se é em si mesmo uma atitude corajosa. Quem sou?, que é para mim a vida?, como Deus se apresenta para mim?, quais as tradições que quero ou não seguir por razões tais ou quais?, quais caminhos devo percorrer?... O exercício sincero das perguntas que buscam respostas é a mais profunda experiência de si mesmo. Revela a grandeza maiúscula de quem se põe diante da vida com um vivente autêntico.

E o perguntar-se sinceramente permite sonhar quem tem a coragem linda, encantadora, de se refazer todos os dias à procura de si mesmo. Só quem se busca cresce; só que se olha a si mesmo com verdade se agiganta diante das escolhas e possibilidades. Só quem, afinal, tem a profundidade para se perguntar "quem sou nesse mundo que me cerca?" pode estar sempre à procura das constantes respostas que nos fazem crescer, buscar, amar, sonhar e... dar os passos para a construção de quem somos de fato.

Amor líquido

Três coisas que dilaceram o amor maduro: o ciúme sem medida, a desconfiança injustificada e as atitudes intempestivas.

O amor de hoje é líquido, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, porque amar é cuidar. O bom jardineiro cuida do seu jardim, conhece as vicissitudes das suas plantas. Para isso, deixa-se estar com elas. Esse "perder tempo" é fundamental no amor, também. Amar é enamorar-se. É ganhar tempo ao perder-se nele, criando raízes, olhando nos olhos, invadindo todas as reentrâncias da alma... e não apenas dela!

"É um cuidar que se ganha em se perder", já dizia Camões, com a sua pena precisa de poeta. O perder-se em momentos de conversas, de cumplicidade, de uma dança doce de mundos que se querem amalgamados numa história construída passo a passo.

Quem não sabe perder tempo com quem se ama não sabe amar. Quem se perde em ciúme tolo, em desconfiança excessiva ou em atitudes intempestivas, perde justamente uma das coisas mais doces do amor: a cumplicidade.



O amor nem sempre é investimento; é perda para um ganho humano, Perda do orgulho, perda dos medos, perda do EU para iniciar o NÓS que não se funde e se complementa, perda do tempo dos negócios em favor do tempo de um telefonema de carinho... Perder nem sempre é subtração, afinal!

O bom amor líquido é líquido pelo que se provoca na mulher amada; e nada mais!

Ter medo


Ter MEDO do amanhã é uma necessidade de sobrevivência. Quem não tem medo não tem como saber valorar o que vale a pena nos levar aos riscos. O medo são os nossos sentidos avisando que há razões para cautela, para que o passo dado seja melhor medido e pesado. Mas o medo não pode nos paralisar, não pode ser a desculpa para abrir mão do que acreditamos e do que realmente somos.


Não é ruim ter medo. Mas é terrível ser dominado por ele, permitir que ele dê a última palavra, abrindo mão dos sonhos, das razões que nos fazem sorrir, gozar a vida, dar passos firmes rumo ao desconhecido horizonte que de quando em quando se nos apresenta. Por vezes, horizontes que se nos apresentam uma única vez na vida...

"Não tenha medo!", "Non abbiate paura!". João Paulo II nos disse as palavras de Jesus para que sempre nos lembremos que o medo faz parte da vida e da história humana, mas que a coragem é a nossa verdadeira vocação para a felicidade.

A aventura de viver


Viver é sempre uma impressionante aventura. Cada dia aprendo mais isso. Cada dia acho que vale mais a pena as lutas diárias, as defesas das convicções, as buscas constantes… Cada dia acredito mais que, aconteça o que acontecer, é preciso sonhar, ter caminhos a seguir, ter a força para pegar a vida com as unhas, sem medo do amanhã que, poxa!, ninguém sabe como será. Podemos construi-lo, é certo, mas sempre a partir do HOJE. O HOJE é o passo dado, é a decisão tomada, é o querer feito ação…


Quem se prende demais ao amanhã, logo se vê!, não dá conta que o amanhã será sempre o amanhã, que não há pontes outras para ele, senão o indefectível HOJE gritando, pulsando, mostrando que a vida é dom de Deus. Quem olha demais para o horizonte esquece o caminho que leva a ele…



Às vezes o caminho é pedregoso, às vezes tem espinhos e armadilhas, às vezes esfola os pés e dá medo… Mas está ali, nos desafiando, porque depois dele há já o que nos espera e buscamos… Não se constrói nada sem luta, sem riscos, sem medos… E é por isso que o resultado de tudo isso se chama “conquista”!