Mostrando postagens com marcador sindicalismo à Manguaba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sindicalismo à Manguaba. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mais do mesmo

Quando aqui me manifestei sobre a greve da educação, dizendo que era um ato insensato e provocado pelo processo eleitoral do SINTEAL, disse uma verdade. Mas faltou dizer que a dissidência do SINTEAL não tem outro discurso que não o da radicalização e da greve. Ou seja: mudar por mudar, melhor deixar tudo como está.

No Blog do Célio Gomes, fotos de uma passeata da oposição dentro do SINTEAL (aqui) mostram que os sindicatos alagoanos são movidos por uma única lógica: a greve, a radicalização, o confronto, o discurso vazio e a política da força. Há uma miopia dos movimentos sociais, não havendo quem possa criar uma via razoável, um discurso coerente, uma pauta construtiva. Diante disso, a luta interna nos sindicatos apenas pode dar nisso: mais do mesmo, à exaustão.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A marcha da insensatez: nova greve da educação

Os professores alagoanos seguem na marcha da insensatez, com a sua greve estúpida e equivocada. A Agência Estado publicou hoje uma matéria sobre o tema, com uma frase cheia de sentido da presidente do Sinteal:



"Só vamos voltar ao trabalho esses três dias, de quarta a sexta-feira, para não comprometer a legalidade do nosso movimento e evitar retaliação aos grevistas. Por isso vamos cumprir o prazo legal de 72 horas para que possamos deflagrar um segundo movimento paredista, desta vez por tempo indeterminado", explicou a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), Girlene Lázaro.

A principal reivindicação do SINTEAL é o reajuste salarial de 15%, mas na pauta de nove itens que eles entregaram ao governo do Estado constam também melhores condições de trabalho, contratação dos concursados de 2005 e a melhoria na qualidade do ensino. Na verdade, puro diversionismo. Sempre que um grevista fala em melhoria nas condições de trabalho lembro-me daqueles conceitos indeterminados que servem apenas de aparato retórico. Que condições de trabalho, quando o SINTEAL solapa o dinheiro da educação apenas para pagar folha de salário? Segundo Girlene, conforme a Agência Estado, a continuidade da greve foi aprovada por unanimidade pela categoria porque o governo do Estado até agora não acenou com uma proposta de reajuste salarial e ainda não demonstrou interesse em atender os demais pontos da pauta de reivindicações.

Certo está mesmo o governo, e mais certo estará se endurecer os procedimentos e começar a demitir os faltosos. Sinto-me extremamente perplexo em ver, mais uma vez, uma greve irresponsável destruir os sonhos de adolescentes e crianças alagoanos. É um crime.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Greve: A Arte da Guerra do Sindicalismo à Manguaba

A greve geral da educação vem aí. Na matéria postada por Célio Gomes, fotos da reunião do novo secretário estadual da Educação com os velhos dirigentes sindicais (aqui). Se fôssemos fazer um fotogaleria das greves dos últimos dez anos da educação, veríamos diversos secretários negociando com os mesmos sindicalistas. Algo de impressionante.

Com a experiência de ter participado de diversas mesas de negociação, proponho aqui A" Arte da Guerra do Sindicalismo à Manguaba - em 10 Proposições," com apontamentos sobre o eterno modus operandi do nosso movimento sindical.

Proposição 1: O líder sindical deve insuflar a sua base, convencendo-as de necessidades que ela não possui ou possui de modo mitigado. Com isso ele mostra a sua importância e evita que terceiros se apropriem do seu papel.

Proposição 2: Estimular a realização de paralisações ou greves. Sem elas, o sindicalista passa a ser uma figura sem importância e sem causa. As greves são essenciais para manter o líder em evidência.

Proposição 3: O líder sindical deve esmagar a oposição dentro do sindicato. Se aparecer líderes radicais, o líder no poder deve ser mais radical e incendiário, minando o discurso do oponente. Ao mesmo tempo, deve o líder sindical distribuir favores aos seus pares estratégicos, evitando perder o poder.

Proposição 4: Estabelecida a greve, deve o líder sindical constituir uma comissão do sindicato para negociar. Apenas devem participar as pessoas do seu grupo político, evitando o aparecimento de novas lideranças.

Proposição 5: Aberta a negociação com o governo, o líder sindical deve logo observar até onde vai o poder decisório e a vontade política do negociador. Se o negociador tiver vontade política, mas não tiver poder, deve o líder sindical preservá-lo no processo negocial, encontrando imediatamente um bode expiatório responsável pela ausência de avanços na negociação. A isso, denomino "Jogo do Anjo X Demônio". Identificar o entrave é fundamental para sobre ele jogar a culpa pessoal pelo insucesso nos resultados. Quem quer ceder é "bonzinho"; quem quer negociar racionalmente com os números e as possibilidades é "o lúcifer". Esse procedimento é fundamental para dividir o inimigo, fragilizando a posição dos setores menos flexíveis ao atendimento dos pleitos da categoria.

(Esse jogo é frequente e no governo sempre tem quem ainda caia nessa roubada. Na greve dos médicos, por exemplo, virei eu o demônio, enquanto outros se apresentaram como anjos, fragilizando a posição do Governo em mesas paralelas de negociação. Por vezes, o próprio Governador é enredado nesse jogo, porque não faltam amigos que aparecem com as mais variadas sugestões, soluções e milagres. Quando isso ocorre, o sindicato consegue fragilizar o negociador e obter sucesso. Na greve da educação, o demônio era o Maurício Toledo, secretário adjunto da Fazenda. Esse jogo é velho e inteligente, mas ainda há pessoas que caem nele).

Proposição 6: Esticar a corda até o limite, flexionando apenas quando sentir que as suas bases estão começando a claudicar. O líder sindical apenas deve recuar quando correr o risco de ficar sozinho na luta, pondo a sua liderança em risco. Ao primeiro sinal de cansaço da base, o líder sindical começa a flexionar, mas sempre deixando a decisão para ser tomada coletivamente.

Proposição 7: As mesas de negociação devem ser longas, criando a impressão na base que as conversas são produtivas e que há chances de sucesso na greve. A tática usada pelos sindicatos é levar muita gente para as reuniões, cada um pedindo a palavra para dizer muitas vezes a mesma coisa. Com isso, uma reunião que poderia durar 10 ou 15 minutos dura longas 2 ou 3 horas. A base fica aguardando do lado de fora, imaginando discussões técnicas, avanços, caminhos. Muitas vezes, as reuniões são vazias, com idas e vindas, circunlóquios cansativos, inutilidades.

(Na foto da matéria do Blog do Célio Gomes, vemos o secretário cercado de ao menos cinco dirigentes sindicais. Todos ali pedem a palavra sucessivamente, de modo que a reunião se alonga interminavelmente, dando esperança à base que espera na frente da secretaria. Todavia, os que estão na mesa sabem onde a reunião vai dar: em nada!).

Proposição 8: Nas reuniões maiores com os negociadores do governo (sobretudo se for com o Governador), deve ser levado um técnico que fale sobre os números, um servidor que faça um discurso emocionado e - se possível - chore ou faça chorar, e alguns parlamentares ligados ao sindicato, que tirarão proveito político se houver avanços.

Proposição 9: Quando houver impasse grave nas negociações, devem os líderes sindicais procurar interlocutores alternativos por diversionismo e para produzir notícias, evitando que a greve caia no esquecimento e as bases se enfraqueçam. É o que chamo de "Momento do Passeio".

(Em Alagoas, é comum que os líderes sindicais procurem o chefe do Ministério Público, a presidência do Poder Legislativo, a presidência do Poder Judiciário e qualquer um que tope recebê-los e que possa gerar notícias).

Proposição 10: Durante a greve, o líder sindical deve criar eventos para esquentar o clima e animar a base do sindicato. Se necessário, usando os sem-terras, os índios e o outros sindicatos. Uns ajudam os outros, uns engrossam o movimento dos outros, e assim todos podem sair ganhando.

***
O meio de se combater esse método dos sindicatos é simples, mas requer disciplina. Proponho aqui alguns encaminhamentos:

  1. Liderança: o líder deve saber o que quer e determinar aos seus comandados qual caminho tomar.
  2. Unidade: a equipe de governo deve estar unida e observar a voz de comando, evitando a formação de divisões internas.
  3. Respeito ao negociador: apenas quem negocia é o negociador. Não podem existir canais paralelos de negociação, de modo que o sindicato não encontre meios de dividir a equipe de governo. Para isso, porém, é fundamental o papel da liderança, que não permitirá tratar da greve sem ser através do negociador.
  4. Credibilidade: o negociador deve ter uma postura séria, sem escamotear as suas intenções.
  5. O que pode, pode; o que não pode, não pode: o negociador deve conduzir habilmente o processo negocial, flexibilizando o que puder e sendo inflexível no que for essencial. Se precisar esticar a corda, deve fazê-lo implacavelmente, chegando ao limite extremo de demissões exemplares. Negociar indefinidamente pode ser combustível para a greve e para as lideranças sindicais.
Penso esteja aí um mapa de como funciona uma greve e de como deve agir o governo. É uma anatomia crua de como as coisas ocorrem. Eu as vivi.