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domingo, 10 de outubro de 2010

Encontros de domingos

O papai nos reunia aos domingos. Conversávamos sobre as coisas de casa, sobre os fatos da semana e rezávamos. Ricardo e eu, os mais novos, passamos, com o tempo, a ser objeto de atenção especial. Desde os 8 anos essas conversas eram semanais. Quem eram os nossos coleguinhas, o que conversávamos, quais os palavrões que aprendíamos... E o papai nos ensinava o significado e o porquê de não chamarmos aquelas palavras.

"A Vida Sexual dos Solteiros e Casados", do padre João Mohana, era uma leitura constante. O papai lia e, passo a passo, comentava o que ouvíamos fascinados. "Prepare os seus filhos para o futuro", também de João Mohana, era lido e comentado, mostrando-nos as razões pelas quais éramos admoestados, eventualmente apanhávamos, sempre com o sentido de limites e de responsabilidade.

Lembro-me que o papai usava uma expressão que para mim soava misteriosa, quando tinha 9 ou 10 anos: "Olhe, lá para os 13, 14 anos vocês passarão a sentir o grito do sexo", para o qual desde já ele nos preparava, buscando uma vida equilibrada e ordenada na adolescência. Temas como masturbação, relações sexuais, namoro, amor, eram tratados de uma forma bonita, amena, dentro de uma moral católica.

O papai nos apresentava sempre o binômio amor e sexo. E desde sempre aprendemos que a dissociação entre um e outro, entre homem e mulher, é um desequilíbrio na relação: amor sem sexo é amor de irmãos, de amigos, mas não é o amor de casal; sexo sem amor é o prazer pelo prazer, que só se compreende no vazio dele mesmo.

Lembro-me do papai lendo o livro de Dom Valfredo Tepe, "O sentido da vida", e repetindo a frase que tantas cito como se fosse minha, porque já apropriada em minhas reflexões: "Amor é força unitiva na diferença". O amor como essa relação constante entre um eu e um tu, cuja polaridade não se perde, não se dissolve, em uma relação reflexiva e esvaziada.

Devo àqueles domingos muito do que sou: o gosto pela leitura, pela reflexão sobre ela, o interesse por filosofia e teologia, o estímulo ao diálogo e ao debate, o prazer de uma boa conversa... Meu pai sempre foi um exemplo para mim. Mesmo no que não comungo com ele, mesmo no que não temos identidade, mesmo no que pensamos diferentes. Em tudo, tenho um imenso carinho e respeito, porque "amor é força unitiva na diferença".


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Meus sonhos feito carne

Dia 24, aniversário da Maria Eduarda. Olho para trás, vendo aquela pequena porção de mim chorando deitada no berçário, após o parto. Olhei para aquele rostinho inchado, com feições indefinidas, de uma linda feiúra. Diziam-me que as crianças nascem com a "cara de joelho"; constatei como Deus é sábio: nascem chorando, feinhas, porque são um mistério lindo, insondável, profundo. Ela chorava copiosamente, sentindo-se fora do seu mundo, da proteção do silêncio e do amor do útero materno.

Meu coração apertado. Minha filha! Meus sonhos feito carne!

Tomei-a em meus braços, o choro forte, intenso, profundo. Tantas noites falando para ela na barriga da mãe: "Filhinha, o papai te ama!". Tantas noites fazendo carinho, apalpando, participando daquele remexido, vendo a vida brotando ali, milagrosamente. E ela ali, agora em meus braços, com o choro do chamado à vida.

"Filhinha, é o papai!", disse-lhe carinhosamente ao ouvido. O choro cessou. Os olhos entreabriram-se. Aquela voz lhe era conhecida, trazia alguma boa sensação. Fiquei bobo, emocionado, lágrimas nos olhos.

Um encontro único, enigmático, sem igual. Ninguém pode ser tão amada como aquela criança, simplesmente porque é a melhor parte de mim, o pedaço que melhor me traduz, os olhos pelos quais eu seria capaz dos maiores gestos, dos atos mais improváveis.

Agradeço a Deus ser pai. Pai da Maria Eduarda. Agradeço viver a alegria de ser puxado pelas mãos, como hoje ao chegar cansado em casa, e ouvir um pedido irrecusável: "Papai, vamos brincar de pônei". Lá ia ela, puxando-me, com a outra mão ocupada com um saco repleto de pôneis coloridos, presentes da avó paterna. Sentado ao chão, disse-lhe: "Filha, essa brincadeira de pentear a crina do pônei é de menina". Ela olhou-me ternamente e disse-me: "Ah, papai, brinca comigo, quero ficar com você".

A arte da sedução feminina nasce cedo. Nós, os homens, somos sempre dominados às suas vontades. E fique segurando os pôneis, enquanto ela passa a escova, depois o secador de mentirinha.

Parabéns, minha filha. Hoje, agora, você faz 4 anos de idade. Obrigado, meu Senhor, por esse lindo presente.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Envelhecer e morrer

"- Papai, você vai ficar velho?". Olhei para Maria Eduarda surpreso com a pergunta. Ela me fitou e, antes que pudesse responder, pespegou-me outra: "- Papai, você vai morrer?". Os olhinhos miúdos esperavam uma resposta negativa, como se a eterna juventude pudesse ser adquirida nalguma esquina. Sorri-lhe um sorriso acolhedor, condescendente. "- Sim, filha, o papai vai ficar velhinho e, um dia, vai morrer. Todos nós passaremos por isso, inclusive você. Mas, olhe, vai demorar muiiito", assim mesmo, com ênfase no "i", para dar a sensação de demora sem fim.

A consciência da morte começa precocemente em nós, abrindo-nos para a sede do infinito, esse sentimento que nos diferencia de tudo: os animais, ainda que tenham consciência, ainda que tenham capacidade intelectiva, vivem apenas o presente, o hoje da existência. O ser humano, não, ele olha para o futuro, tentando enxergá-lo.

A pergunta da minha filha não é simples. Há profundidade nela. Velhice e morte são símbolos da corrupção da vida. A diferença entre nós e as crianças é justamente esta: elas se permitem perguntar sobre o que parece óbvio, sem adormecer o que as incomoda. Nós, os adultos, deixamos essas questões em stand by, passando por elas como não existissem, como se morte, por exemplo, não estivesse nos acompanhando dia a dia.

Certa feita, Ana Paula começou a cantar para Maria Eduarda músicas religiosas. Lá para as tantas, cantarolou "Mãezinha do céu, eu não sei rezar / só sei dizer / eu quero te amar / azul é o teu manto / branco é o teu véu / Mãezinha eu quero te ver...". Uma abrupta parada. Olhou para mim com enormes olhos, uma angústia de mãe: "- Não, não agora. Essa parte do ver lá no céu deve ser mudada...". Sim, Ana Paula quer ver Nossa Senhora no céu, em um futuro beeem distante. Também quer que a Maria Eduarda a veja, mas não tão cedo; quem sabe depois dos 80 anos...

Sim, temos uma imensa sede do infinito. Temos uma sede difusa do que tem nome, tem presença, tem constância em nossa história: Deus! É Nele que o envelhecer se transforma em juventude da alma, que a morte é vencida, que a ressurreição é mais que promessa: é fato! É Nele que o homem caído, estiolado pelo pecado, divinizou-se no homem glorificado em Cristo.

Mãezinha do céu, nós não sabemos rezar e queremos, sim, vê-la lá no céu. Reze por nós, media por nossas faltas, sê advogada nossa. E protege nossa filhinha com o seu imenso amor de mãe.

domingo, 13 de junho de 2010

No mundo de Xuxa

Final de semana em São Paulo. Ana Paula, Maria Eduarda e eu. Passamos o sábado praticamente no Mundo da Xuxa, um espaço maravilhoso para as crianças brincarem. Um Xuxa Só Para Baixinhos de verdade, em que as crianças brincam e convivem com a Xuxinha, o Txutxucão, a Bila Bilu, o Teddy e as Paquitas.

A Maria Eduarda adorou. Mas nós também, os pais, nos divertimos. Viramos crianças também, mesmo com todo o cansaço.


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Um dia gostoso, sem dúvida. Brincar e sorrir compensam os desgastes, os aborrecimentos, os compromissos todos. Um dia completo, pleno, porque o que poderia faltar se fez em tudo presente.

Só faltou a Argentina perder para a Nigéria. Mas aí, também, já seria pedir muito.

domingo, 9 de maio de 2010

Dia das mães: dia do amor

Mãe. Uma palavra doce, plena de significados. Mãe é o amor pleno, sem limites, sem condicionantes, sem porém. É o amor em estado puro, a renúncia total, o aniquilar-se pela felicidade de alguém que, sendo outro, é a continuidade de si.

Como pai, sei o que é ser mãe, esse amor à beira da irracionalidade, essa entrega ilimitada e infinita em noites longas de vigília, de cuidados, de desvelo. Como pai sei o papel fundamental da mãe para o equilíbrio e a alegria de uma filho.

Maria Eduarda é uma criança feliz por ter uma mãe amorosa, cuja doação é o atributo maior do amor. Por isso é segura, tem personalidade, sabe o que é carinho, amor, atenção e zelo.

Então, Paula, no seu dia, uma homenagem da sua filha e do seu marido, com muito amor. Como lhe disse hoje na Missa, obrigado por ter me dado o maior presente da minha vida: a minha filha, a minha Maria Eduarda. É fruto do seu amor, da sua dedicação, da sua vontade de superar as dificuldades para nos dar uma linda filha, um sonho feito carne.

Feliz dia das mães!!! Com amor, Maria Eduarda e Adriano.


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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Felicidade e felicidade

Há felicidade? Ela é um estado ou um acontecimento? Felicidade ou felicidades? Constância ou momentos dispersos e esparsos? Podemos ser felizes ou estar felizes?

O homem luta para ser feliz, luta para encontrar um estado em que a sua realização seja uma constância, em que o equilíbrio da vida seja não uma promessa, mas uma conquista. Porém, nosso estado de espírito é sempre um ir e vir constante, sempre pendente no fluxo da nossa vida. Somos sempre uma busca constante, um nunca satisfazer-se. É da essência do homem a busca, seja pelo que for, porque a nossa estrutura é aberta ao infinito: temos uma abertura vertical para a eternidade, para a futuridade, para o que se põe ali maior do que nós.

A felicidade é um estado de espírito, há muito de subjetivo nela. Nesse sentido, vivemos momentos felizes. A par dessa felicidade, há a Felicidade, aquele estado que buscamos constantemente, como uma situação objetivamente ideal. A Felicidade é mais do que a felicidade; aqui há o contingente, o passageiro, o fugaz; ali, não, há o constante, o permanente.

Um chocolate me faz feliz. O sorriso da minha filha, também. Os carinhos da minha esposa. A vitória do Flamengo. O abraço apertado em quem se ama, após a saudade que devasta a alma. Vencer uma copa do mundo. Ler um bom livro. Escrever um texto inspirado. Amar. Namorar. São momentos felizes. Há aqui a felicidade, como momentos de prazer, momentos agradáveis.

Ter uma profissão que realize. Uma família ajustada. Um grande amor, que motive os dias, que alimente tomadas de decisões, que encha sempre o peito e o coração. Ah, ser rubro-negro. Uma filha (filhos!). Aqui, para além do momento, do acontecimento, há o estado de felicidade, que é a Felicidade.

A Felicidade não implica que não haja algum sofrimento, alguma dificuldade. Diferente da felicidade, que é episódica, vem de um jato e vai do mesmo modo, com as suas urgências, num turbilhão de boas emoções (aquele porre depois de ser aprovado no vestibular, o palpitar do primeiro beijo, a ânsia realizada do primeiro amor em ato), a Felicidade convive com as diversidades, sem ser por elas fustigada. Somos felizes por termos filhos, pouco se dá que eles deem um pouco de trabalho; somos felizes por termos uma família equilibrada, não importando aqui e ali um desentendimento menor; somos felizes de sermos flamenguistas, sendo de pouca importância uma derrota para um timeco como o Botafogo. Somos felizes porque fizemos opções, decidimos e abraçamos o caminho desejado, a ser percorrido, ainda que haja atropelos.

A Felicidade é o estado constante de ser feliz, apesar de tudo. É a capacidade que temos de sorrir apesar de. Essa Felicidade se plenifica em Deus, quando formos por Ele chamados. Mas podemos já experimentar na vida aquilo que Ele nos oferece na ressurreição. A Felicidade é, enfim, o caminho, a verdade e a vida. Em abundância.

Amor e vida

Trabalhar demais. A vida às vezes se resume a isso. E por mais importante e legítimo que seja, não pode ser só isso. Há de haver momento para o amor, para a família, para o lazer, para o descanso. É o que estou fazendo: diante de tantos atropelos, acabamos parando um pouco, visando recarregar as energias, sentir o sentido de família, viver o lado lúdico da vida.

Parei com as minhas mulheres. Poder falar mais com elas, dividir o tempo sem as preocupações do dia a dia, estar vivendo cada minuto a presença e a saudade, o carinho, me faz sentir como criança, que fica até verde como um ogro, um Sherek. Sim, quando somos felizes podemos deixar de lado o nosso mundo e entrar num outro, mais doce, mais colorido, que nos remete à própria infância.

Hoje foi um dos dias mais gostosos da minha vida, porque pude partilhar com as minhas mulheres, porque pude me dar a cada uma delas, deixando de lado as pressões da vida e do trabalho. E isso foi muito bom.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mudança

Hoje estou fazendo a mudança para a minha casa. Não tem coisa pior, a não ser dor de dente. Ficamos no limbo: nem temos mais o nosso antigo lugar, com tudo arrumado como de hábito, nem temos o nosso novo lugar com os novos hábitos. Ficamos naquela metamorfose ambulante, onde tudo é tudo e nada é nada!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Pais e filhos

A relação pais e filhos não é fácil. Aliás, nunca foi, mesmo em sociedades de formação patriarcal. Com a mudança cultural vivida pela revolução sexual (com a liberdade maior do desenvolvimento da sexualidade), revolução feminista (em que a mulher buscou o seu lugar no mundo, agora com a liberdade sexual obtida pelos meios contraceptivos, com luta pelos mesmos postos de trabalho dos homens) e revolução tecnológica, sobretudo através dos meios de comunicação (a internet e o celular mudaram as interações humanas, aproximaram globalmente as pessoas e permitiram o acesso direto e vertiginoso à informação), as relações familiares mudaram substantivamente.

Pais e mães passaram também a ver uma mudança no seu próprio papel, agora indefinido em certa medida. O pai provedor foi substituído, de vez que normalmente a mulher está no mercado de trabalho também, ajudando com as despesas da casa. Mesmo que assim não seja, o papel do pai passou a mudar também pela exigência de que ele se envolva mais no dia a dia dos filhos. Assim, com a igualdade na relação conjugal, não há mais uma hierarquia tácita no processo decisório: a própria educação passa a ser um processo de negociação entre os pais, que devem buscar conciliar valores, padrões e regras.

A família mudou, portanto. Mesmo aquela mais tradicional, com pais vivendo juntos e sem filhos de outras relações, passaram pelo influxo dessas mudanças profundas, o que implica em não sobrevalorizar nenhum deles no processo educativo.

Na revista Veja desta semana, há uma ótima entrevista com o psicólogo Jerome Kagan (aqui), em que ele mostra que a mãe não é mais influente do que o pai no início da vida do filho, tendo ambos um papel importante e, evidentemente, diferente. As mães, que em razão do processo de gravidez, depois pela amamentação, tornam-se fundamentais para o desenvolvimento físico e emocional da criança, muitas vezes terminam vendo os filhos como sendo seus, sobrevalorizando a sua importância em relação à do pai. Esse equívoco, quando estimulado, muitas vezes leva a um excesso de proteção da criança, uma dependência exagerada da figura materna, em imenso prejuízo futuro.

É pelo diálogo e compreensão mútua que o casal pode encontrar um justo equilíbrio na formação dos filhos, gerando um processo educativo dinâmico, maduro e consequente. Assim, os pais podem complementar os seus carismas, a sua visão de mundo, auxiliando a formação equilibrada de filhos saudáveis. Numa visão complexa da vida, podem gerar aquela força unitiva na diferença, que só o amor verdadeiro é capaz.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Lembranças de W.

Era ela uma menina bonita. Lembro-me dos olhos verdes, da pele alva, o cabelo liso e curto. Era a 6ª série do Marista. O nome dela era W. Gostava de conversar com ela, mas não cheguei a gostar dela de outra forma que não como amigo. Porque bonita, era muito popular; porque também simpática, tinha dos meninos uma atenção a mais.

W. era precoce e fisicamente parecia ter em idade mais do que realmente possuía. Com isso, despertava o interesse de meninos mais velhos do que nós. Não raro os rapazes que estudavam nas turmas mais adiantadas da manhã e faziam exercícios à tarde passavam pela nossa sala, para conversar com ela. E pegavam em suas mãos em conversas animadas de corredor; e passavam as mãos nos cabelos dela, que permitia entre sorrisos; e brincavam aqui e ali com abraços nem sempre tão inocentes. W. sorria e permitia as brincadeiras desses meninos mais velhos. Isso começou a despertar a reprovação das suas colegas, e, depois, das suas amigas, que passaram, também elas, a ser objeto de comentários pouco edificantes das meninas da turma.

W. não ligava, porque gostava do convívio dos rapazes e de se sentir desejada por eles. Era um jogo gostoso que ela estimulava, com um que de inocência, sem consequências práticas. Até que um dia - pouco importa se era verdade ou não - alguém disse que dormiu com ela. E a história se espalhou no colégio. Naquela época não era comum as adolescentes irem namorar em motéis, ter experiência sexual na adolescência. Não. As que iam, eram logo conhecidas e mal vistas por todos, como meninas para o lazer, não para um relacionamento sério. W. ficou marcada, então. E perderam por ela o respeito.

Lembro-me do dia em que íamos ter as últimas provas daquele ano. Estávamos no corredor, esperando o professor de geografia que iria aplicá-la, quando ouviu-se aquele enorme burburinho. Olhei e vi W. correndo com colegas nossos em seu encalço, em grande algazarra, tentando pegar em seus seios. Ao passar por nós com os braços em "x" sobre os seios, segurando ambos os ombros, tentando proteger-se das mãos que tentavam buliná-la, W., às lágrimas, ainda recebia de alguns apertos em suas ancas, enquanto tentava se desvencilhar daquele corredor polonês.

Impressionou-me aquela reação coletiva, o desrespeito quase criminoso, além da perda de dignidade de W., exposta àquele vilipêndio. A menina bonita se transformara em uma Geni, em uma pessoa rejeitada, como se fora um pária. Simplesmente porque incomodava a algumas colegas, que a invejavam, ou a alguns meninos, que a desejavam mas não podiam tê-la.

Não sei por onde ela anda, nem o que é feito dela. W. deixou de estudar no colégio. Como a aluna Geise, da Uniban, ela foi objeto de sentimentos primitivos, gerando reações simplesmente irracionais, não explicáveis. Faltou quem a orientasse, quem pedisse que ela se resguardasse, justamente pela inveja que despertava. Faltou quem pudesse protegê-la das suas virtudes, transformando-as - ao menos aos olhos de alguns - em gravíssimos defeitos.

Bem, W. cedo descobriu como funciona a nossa sociedade. Não sei se aquele acontecimento amputou a sua alma, tampouco as consequências para a sua vida. Sei, porém, que essa lembrança me invadiu por um acaso, refletindo sobre a educação e o papel dos pais. De repente, lembrei de tantos rostos e acontecimentos daquela época, como a menina que, em uma viagem da turma, deixou-se flagrar mantendo relações com um dos nossos. Fizeram uma roda, enquanto no centro ambos desfrutavam o resultado da bebida em alta dosagem. A menina continuou no colégio e não foi, diferente de W., objeto de reações como aquela. Por quê? Talvez porque não despertasse tantos sentimentos contraditórios como W., como a inveja e o desejo, ambos desmedidos.

Ah, o Colégio não era permissivo, não. Mas já estávamos entrando em novo tempo, em que os limites para os adolescentes foram sendo esquecidos pelos pais. A tolerância era grande e as inconsequências de muitos, também. Resultado: o imponderável.

Não há desculpas naquelas reações contra W., nem justificativa alguma. Uma coisa, porém, é certa: W. não se preservou, não se protegeu contra as invejosas. Ela creu muito nas pessoas; foi inocente em se achar acima do julgamento dos que, na verdade, queriam ser/ter W. A inveja mutila; o desejo desmedido insatisfeito, igualmente. Ambos desumanizam e destroem; ambos querem se apropriar do objeto invejado/amado ou vê-lo destruído. E W. não soube se defender, flertando com o perigo, expondo-se mais do que seria prudente.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Si isti et istae, cur non ego?"

Dedico este texto aos que sonham, aos que têm a capacidade de admirar e, com isso, buscar humildemente modelos. Dedico ao meu pai. Ele sabe o porquê.
Uma pessoa olhou para mim e disse: "Poxa, vou estudar muito para um dia ser preparado, mas nunca conseguirei ser como você". Vi nos olhos dela uma humildade sincera, uma admiração pelos meus estudos. E por isso respondi com uma frase tantas vezes ditas e reditas pelo meu pai (um grande educador....), seja nas conversas com os seus filhos, seja nas salas de aula (quando lecionava de modo desprendido para distribuir o saber para toda uma geração de crianças junqueirenses), ou ainda em tantas oportunidades em que quis estimular as pessoas que pediam os seus conselhos: - "Se eles puderam, elas puderam, porque eu não posso?" ("Si isti et istae, cur non ego?").

Estímulos. Educar é estimular para o bem, para os bons valores, para a autoconfiança, tudo isso demarcando limites. Tudo o que somos é produto da educação e dos nossos esforços.

Quando eu era estudante de Dierito, o papai me apontou, certa feita, um grande advogado, reconhecido em Alagoas como um homem culto. E aí ele dizia: " Filho, fulano é um bichão!!!". Duas expressões serviam para o papai definir positivamente um homem: trabalhador e bichão. "Bichão", no discurso do papai, queria dizer grande, competente, temido, capaz, admirável. Tudo isso junto, resumido em uma única palavra. Olhei para o advogado indicado pelo meu pai e pensei: - "Quero ser igual a ele; quero ser tão bom quanto ele!". Olhei com admiração, não com inveja; olhei como quem olha um modelo a ser seguido. A inveja é a perversão da admiração, nascida da impotência e do orgulho ferido. Quantos ficaram pelo caminho porque não souberam admirar, alimentando em si não a virtude do exemplo mas o veneno do ciúme e da baixa autoestima?

Em 1990 fui presenteado pelos meus pais com uma viagem para Minas Gerais, para participar de uma conferência nacional da OAB. Estava no segundo ano do curso de Direito. Viajei com muito interesse. Na entrada do Minascentro, onde ocorria o evento, ficavam estandes de livrarias. Parei diante da Sérgio Fabris Editora, que estava editando o livro Teoria Geral das Normas, de Hans Kelsen. Um amigo chegou perto de mim, puxou-me pela manga da camisa e apontou-me um senhor de idade, parado ali pertinho de onde estávamos: "Adriano, olha o Calmon de Passos!". Eu era leitor do processualista baiano. Vindo da província, estar ao lado de autores de obras era como estar uma realidade paralela. Aliás, era como eu me sentia naquele momento, olhando para aquele homem de cabelo branco, terno preto, fisionomia fechada, absorto diante de obras que compulsava como um adolescente. Naquele momento, a única coisa que pensei foi que ele era de carne e osso. Olhei-o bem, com atenção. Calmon de Passos! Ah, que belo livro ele escreveu de comentários ao Código de Processo Civil! A minha cabeça maquinava: mas se ele pode, porque não eu? O que há neste homem de diferente de mim? A resposta veio como sempre vem nessas horas: o tempo dedicado ao estudo, os sacrifícios que fez, as horas gastas meditando!

Nos dias seguintes, pude assistir as palestras de Mauro Capelletti, Canotilho, Eros Grau, Celso Antônio Bandeira de Mello et caterva. Voltei daquela viagem vivamente marcado. Aquelas pessoas cujos pensamentos eram objeto das minhas atenções estiveram ali diante das minhas retinas. E eram gente como a gente, homens que chegaram lá porque se esforçaram, foram dedicados. Voltei para a província com o espírito inquieto, com uma sede abundante de estudo. Pensei comigo que um dia ainda estaria fazendo uma palestra no Minascentro. Voltei diferente do que fui. A frase de Santo Agostinho batendo nos seus ouvidos: "Eles puderam, elas puderam, porque eu não posso?".

Comecei a me dedicar com disciplina. E não foi fácil, por diversas razões. Muitas vezes me angustiava pensando que poderia estar errado, porque doava muito tempo ao estudo de textos densos, profundos, que exigiam muito da minha atenção. Não eram leituras fáceis aquelas que eu fazia, sem ter com quem conversar sobre elas, com quem debater a respeito das minhas inquietações intelectuais; sem ter, enfim, nenhum orientador. Era eu comigo mesmo e os livros.

Jogava bola sempre (normalmente, todos os dias da semana, às 17 horas, em um campinho vizinho da minha casa), namorava, saia com a minha turma (a turma do funil, como chamávamos), mas renunciei a muitas coisas. Os meus fins de semana eram de estudo pela manhã e à tarde. Folga, só à noite. No carnaval, quando fiquei em casa de praia, como a família da minha namorada, depois de todo mundo dormir, eu ia estudar. Estudava das 23 horas até às 04 horas da madrugada. Dormia até às 11 horas, levantava e ia para a praia, passava o dia brincando (sem beber) e à noite, depois de todo mundo dormir, enfrentava nova jornada de estudo. Lembro das longas leituras da obra de Ovídio Baptista da Silva sobre a coisa julgada.

A mesada que o papai me dava era toda investida em livros. Vivia sem dinheiro no bolso. A minha namorada da época muitas vezes pagava a conta da pizza... (Que cara de pau eu fui, não?!) Mas foi assim, investindo tudo o que ganhava em livros, que fiz uma boa biblioteca para pesquisar. Quando a mesada passou a ficar insuficiente para adquir todos os títulos que queria, e o papai já não aguentava pagar tanta conta de livros, passei a ensinar matemática particular. (Eu sempre fui péssimo em matemática, aliás). Alguns estudantes do ensino fundamental da 6ª, 7ª e 8ª séries da época passaram a estudar lá em casa, e eu ocupava as tardes de terça e quinta-feira com essas aulas de reforço. Continuava eu com os bolsos vazios, mas as minhas estantes estavam ficando ricas e sortidas.

Falei da solidão nos estudos. Esse foi o maior desafio: a ausência de um interlocutor. Tive que buscar sozinho os meus caminhos, sem que ninguém me apontasse autores, temas, livros. Fui aprendendo sozinho a separar o que era relevante do irrelevante, normalmente consultando a bibliografia daqueles autores com quem me identificava. Dou um exemplo: na livraria, folheei a 4ª edição do Curso de Direito Tributário de Paulo de Barros Carvalho. A densidade da obra me chamou a atenção, além da linha de sabor pontesiano. Estudando a obra, chamou-me a atenção as inúmeras citações de Lourival Vilanova, sobre lógica jurídica. Comprei As Estruturas Lógicas e o Sistema do Direito Positivo. Comecei a estudá-la também. Esse livro era terrível para não iniciados. Expressões que nunca havia visto, como functor, sincategorema, conectivo, lógica apofântica, lógica deôntica e outras tantas. Usei o método que aprendi estudando os Comentários de processo civil de Pontes de Miranda: ler, mesmo sem entender, um capítulo inteiro ou uma longa passagem, concentrando-se nas expressões que o autor dá importância, tentando entender o seu uso. Depois, ler novamente a mesma passagem ou capítulo, observando agora o que foi compreendido e tentando tirar novas lições. O que não foi entendido, deixar anotado para futura nova leitura. Seguir em frente, lendo novo capítulo ou nova longa passagem. Ler novamente esse segundo texto, agora tentando casar com o lido no primeiro. Nessas idas e vindas constantes, tentar conciliar as expressões, os conceitos, os usos do autor.

É um trabalho duro, cansativo e desgastante. Mas sempre usei, e ainda uso, esse método. Qual a vantagem dele? O estudo invade a intimidade do texto, expõe as suas contradições (quando existem) e deixa à mostra a nervura que lhe dá consistência e o mantém de pé.

Bem, volto ao início dessa longa narrativa. Ninguém pode ser bom em sua profissão sem dedicação e entrega. Podemos não ser o melhor, mas devemos ser o melhor do que podemos. Com esforço, com determinação, porque "Si isti et istae, cur non ego?". Por isso, termino esse post com um texto que gosto muito:

Seja o melhor que puder

Se você não puder ser um pinheiro no topo da colina
Seja um arbusto no vale mas seja o
melhor arbusto à margem do regato.
Seja um ramo, se não puder ser uma árvore.
Se não puder ser um ramo, seja um pouco de relva
e dê alegria a algum caminho.
Se não puder ser almíscar, seja então apenas uma tília,
Mas a tília mais viva do lago! Não podemos ser todos capitães,
temos de ser tripulação.

Há alguma coisa para todos nós aqui. Há grandes obras e outras menores a realizar e é a próxima tarefa que devemos empreender
Se você não puder ser uma estrada, seja apenas uma senda.

Se não puder ser sol, seja uma estrela, não é pelo tamanho que terá êxito ou fracasso, mas seja o melhor, do que quer que você seja!

Douglas Malloch


"Pertencialidade"

Uma educadora fez hoje uma preleção para os pais novatos. Uma bela explanação. Poderia enfatizar vários aspectos, todos aqui e ali tratados por mim neste blog: cabe aos pais educar, passar os seus valores, dar os limites, estimular o diálogo. A escola tem uma importante função coadjuvante, sobretudo hoje em que as famílias são menores, sem tantos filhos: na escola é que começa o processo de vivência coletiva, a passagem da experiência privada para a pública. As crianças aprendem a competir, a respeitar o espaço alheio e a defender o seu próprio espaço. Começa a aprender regras de convívio e, mais ainda, pô-las em prática.

De toda a rica explanação feita pela diretora da escola, Vera, uma palavra me chamou mais ainda a atenção: o sentimento de pertencialidade, neologismo com o qual ela sublinha a relação da criança com as suas coisas, como os brinquedos, a bolsa, os livros, a roupa.

As crianças cujos pais têm alguma condição financeira estão muitas vezes saturadas de tantos presentes, de tantos brinquedos, que já não valorizam a relação com eles, o sentimento de responsabilidade e cuidado. Ganham um tênis, por exemplo, curtem e perdem, para já no outro dia ganhar novo tênis, sem sequer sentir as consequências da perda. Saturadas de terem tudo, não aprendem o valor das coisas, o zelo por elas, o sentido da conquista. Uma criança que perdeu o relógio em um dia e já chegou no colégio, no dia seguinte, com outro relógio, não pode saber o significado da perda, o sacrifício para a conquista e a alegria por merecê-la. Serão os adolescentes sem limite de amanhã, os adultos problemáticos que não foram estruturados para os desafios da vida.

A relação de pertencialidade não é o estímulo ao individualismo. Ao contrário, é o ensino do valor das coisas, fazendo com que a criança desenvolva o seu espaço, o seu mundo, que não é descartável simplesmente, como o relógio do exemplo dado. Assim, a criança amadurece a sua relação com as coisas, com as pessoas, consigo mesma. Descobre que é preciso cuidar para ter. Como a mãe que deixou a criança ir um dia descalça para a escola, depois que o filho perdeu o tênis, no dia seguinte outro tênis e no outro a sandália. Sabendo as consequências da falta de cuidado, aprendeu a criança a importância das suas coisas, o zelo pelo seu mundo.

Quantas vezes a nossa ética faz descartáveis as pessoas? Usamos para depois rifá-las sem nenhum respeito, nenhuma razão, nenhum cuidado, seja nas relações pessoais, profissionais, ou afetivas. Porque simplesmente falta o desenvolvimento maduro da pertinencialidade desde a infância.

Bem, o valor da educação é imenso e a responsabilidade que repousa sobre os pais, ingente. Se bem soubéssemos, seríamos parceiros da escola, vendo nela uma ferramenta fundamental no desenvolvimento dos filhos, porém sabendo que é nossa, dos pais, a responsabilidade de educar e pôr limites.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Fim do ano judiciário

Semanas duras. Semana particurlamente difícil. Justiça entrando em recesso, trabalho demasiado, mas ótimos resultados, ao menos. Parar, agora. Depois de dois anos sem férias, hora de parar. Parar para descansar, para curtir a família, para brincar, ler bons livros, navegar na internet sem preocupações que não deixar a mente desocupada de problemas.

Olho para o ano que está terminando e posso dizer: foi um ano bom! Duro, cheio de batalhas enormes, mas muito positivo. De modo que o descanso será merecido, preparando o corpo e a mente para um ano com novos desafios: 2010. Ano de eleições, ano de lançamento da 9ª edição das minhas Instituições de direito eleitoral, ano de - quem sabe!? - mais um novo livro... Vamos ver, porque as condições de possibilidade são boas.

Até lá, sol, mar, piscina, cervejinha gelada e a família...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Viagem

Viagem. A distância de casa, mesmo para quem está sempre viajando, é a experiência de estar fora do "nosso"mundo, do espaço em que somos, que é uma extensão da nossa própria personalidade. Ontem, por exemplo, estava eu fazendo uma sustentação oral no Tribunal Superior Eleitoral e a minha filha de 03 anos, assistindo-a pela TV Justiça, tentava falar comigo e propunha à mãe entrarem juntas na televisão: - "Está pronta, mamãe? Vamos para dentro da televisão ficar com o papai?".

É em nossa família que melhor vivemos a experiência do amor, da causa para a luta, da motivação para o dia seguinte. E a distância, as viagens, ao menos têm a vantagem de mostrar que há um lugar à nossa espera, que podemos chamar de lar, que abriga não apenas pessoas amadas, mas sonhos vividos, histórias contadas, emoções sentidas. A distância, enfim, faz querer a proximidade.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Roberto Carlos e o fim de ano

Tenho aqui falado de algumas coisas da minha infância. Uma delas é a lembrança de Roberto Carlos em nossos natais do interior, em que o show do Rei era obrigatório. A família reunida, as letras adultas que a nossa infância não compreendia. Boas recordações e uma proposta:

terça-feira, 17 de novembro de 2009

De repente 40!

Amanheço mais velho, como todos os dias. Olho no espelho aquele homem que me transformei e vejo as marcas do tempo. Mas nele habita ainda a criança que corria nas ruas de Junqueiro, jogando bola, brincando livre e sem preocupações. Vejo o coreto da minha infância, ainda ali, chamando-me para brincar, para correr e pular. Hoje, tão diferente - como eu mesmo sou! -, ainda guarda as colunas do passado, o parapeito de ferro, as minhas tantas memórias.



A matriz de Nossa Senhora Divina Pastora, ontem tão grande para aquela criança que fui, onde participei das primeiras missas com o povo de Deus. Nela vi o meu pai fazendo as leituras na missa, vi a minha mãe com o véu branco ou preto que antigamente as mulheres costumavam usar com o terço na mão, vi os meus irmãos aprendendo a rezar e o brotar de vocações, vi, enfim, a criança que fui sendo acólito e ajudando o padre na missa, quebrando a galheta (o pobre do padre teve que acondicionar a água e o vinho em vidros de assugrin).



A criança que fui foi muito feliz naquela cidade, na minha aldeia, onde todos se conheciam e se respeitavam. A criança que fui sorria muito com o céu estrelado nas noites sem luz, com o abacateiro no quintal de casa, com as praças transformadas em campo de futebol. A criança que fui está viva em mim, fazendo-me sempre lembrar de onde vim, das minhas raízes, para que eu saiba sempre aode eu vou, com o prumo certo e os valores intocados.





Tudo o que sou como pessoa passa necessariamente pelos meus pais, Lourival e Tereza, e pelos meus irmãos, Henrique, Clara e Ricardo. São eles que me dizem o que sou no mundo, que dizem com as suas vidas a alegria que é a minha vida. A família que somos sempre foi o ninho que me fez aprender a voar, o lugar seguro para onde podia voltar durante o aprendizado da vida.



E a criança veio para Maceió aos nove anos. Que angústia aquela mudança. Um mundo novo, tão diferente da aldeia. Maceió era tão grande para os costumes e os horizontes de Junqueiro! Mas a criança sobreviveu aos medos e pode aprender com as mudanças, com os novos costumes, com o ambiente do Colégio Marista, competitivo e saudável. A criança virou um adolescente cheio de castelos no ar, paqueras, aulas para as meninas da Vila dos Sargentos, menos estudos e mais brincadeiras. Até ir para a recuperação no 1º ano científico e levar um "aperto" do velho que nunca foi esquecido. Perdi o nome. Agora, era chamado em casa pela nova identidade: "Recuperando"! Eita. Ali fiz a promessa ao meu pai que cumpro até hoje: "Mais nunca o Sr. vai me chamar a atenção por falta de estudos. Um dia o Sr. ainda vai reclamar por me ver estudar tanto!". Esse dia chegou, anos depois.



Veio o vestibular, o curso de Direito, o estágio no Tribunal de Justiça com o Des. Tourinho, o cargo de subprocurador administrativo na Prefeitura de Maceió, o cargo de procurador geral do Município, aos 23 anos de idade. Meu maior desafio. Ali amadureci na marra, aprendendo a malícia da vida para são ser engolido no jogo político, nas artimanhas, nos conflitos de interesse. De repente, os pais dos meus amigos passaram a ser os meus colegas de trabalho. Saltei duas, três gerações. Meus amigos passaram a ser o saudoso e querido Arnon Chagas, o velho Geraldo Motta, Luís Abílio, Olavo Wanderley, Marcos Vieira.... Ronaldo Lessa foi o prefeito que teve a coragem de arriscar me dando aquela oportunidade, por sugestão de Fernando Costa, meu antecessor. Sou grato a todos.

Fui para a magistratura. Três anos de importante experiência. Escrevi livros. Fui secretário de Estado. Advoguei e advogo. Andei por todos o país falando da teoria que criei sobre a inelegibilidade. Aprendi muito nesse caminho.

Amei. E do amor nasceu o fruto que dá sentido a tudo isso, porque demonstra o poder do amor de Deus por nós: a minha filhinha. Tenho uma família linda, onde aprendo todos os dias o sentido do amor, do companheirismo, da fé. Com acertos e erros, com sucessos e insucessos, humanamente, somos tocados todos os dias pelo amor de Deus. No ciclo da vida, de repente 40! 40 anos que faço sem festas, sem celebrar com os tantos amigos e pessoas conhecidas. Celebro aqui, recolhido, pensando no ontem e no que há de vir. E vendo que aquela criança que fui se renova na criança que nasceu do amor.

domingo, 8 de novembro de 2009

O menino, os sonhos e a fé

Lá estavam o meu pai e a minha mãe, Paula e eu. Conversávamos gostosamente sobre os caminhos da vida. A infância difícil dos meus pais, cada qual do seu modo. Meu pai criado sem mãe, pulando de casa em casa de parentes, enquanto o vovô João, seu pai, seguia em suas andanças tantas. Um homem bom ele, porém avesso a responsabilidades, com uma constante inquietude que o fizera ir para lá e para cá, muitas vezes sem rumo certo, em busca de sonhos e realidades fátuas. O papai, que nasceu em casa de taipa, em um lugar ermo chamado Pau Amarelo (hoje situado em Taquarana), andou de déu em déu, às vezes dentro de uma cangalha no lombo de um burro, para ficar mais uma vez em casa de parentes desconhecidos.

Foi salvo pelo encanto de criança, que se impressionou com a prédica de uma padre, com a sua cultura, e quis ser como ele, falar como ele, ser também culto. Os sonhos nos movem, rompem as fronteiras entre a crua realidade e a esperança, podendo nos fazer transcender os limites impostos pelo nosso mundo circundante. E aquele menino criado por familiares, incomodado com a ausência de ninho e de segurança, correu atrás das letras, das palavras diferentes que o padre rescitava em latim. Vejo aquele menino, não sem me emocionar.

O menino esgueirou-se por entre os crentes e ficou com o rosto na porta semi-aberta, olhando para o padre, que rezava a missa em latim. Os pobres viam uma vez por mês o homem trajado com aquelas vestes diferentes, falando uma língua estranha. O menino observava aquilo tudo com os olhos imensos de vivo interesse, porque naquela aldeia era incomum homens letrados, cuja fala revelava sabedoria e preparo. Sim, com os seus sete anos, aquele imagem o marcou para o resto da sua vida: queria ser igual àquele padre alemão, com o seu português carregado de sotaque, sempre seguido pelas beatas quando desfiava o seu latim.

O povoado de Barro Vermelho ficava no município de Juqueiro, em Alagoas. Pequeno, acolhia os sonhos daquele menino que havia perdido a mãe aos cinco anos de idade. O seu pai, sempre afeito a viagens e ao descompromisso, vivia pulando daqui para acolá, por vezes deixando o menino na casa de parentes. E foi assim que um dia o levou na casa de uma parenta, em Penedo, deixando-o por lá para estudar. E mais uma vez viu-se ele encantado com os padres, o seu preparo diferenciado naqueles anos 40 do seculo XX. Assim, foi ao mosteiro que fica ainda hoje na parte histórica de Penedo, conhecendo o padre Libório, a quem disse sem ter nem porque que queria ser padre. “Mas menino, você tem certeza?”. Sim claro que tinha. E lá foi o seu pai ao convento para dizer que não tinha as condições financeiras para comprar o enxoval que o levaria a ingressar no seminário.

Entre a boa vontade do frade e a falta de recursos do pai, deu-se que o menino foi à sede da Diocese e procurou o bispo, a quem falou da sua vocação e da falta de recursos. O bispo, comovido com a coragem e disposição daquele menino de 12 anos, deu-lhe recursos (alguns réis), que foram levados ao frade. Que surpresa! E assim foram comprados tecidos para o enxoval, feito inteiramente pela parenta do menino. E lá foi ele para Campina Grande, com os sonhos na mala, ingressando no seminário para ser um dia como aqueles homens letrados, tão diferentes dos lavradores da sua família e dos seus vizinhos.

O menino estudou no seminário. Aprendeu latim, foi apresentado à língua grega, ganhou intimidade com o português, aprendendo profundamente gramática. Ali, entre os estudos e os rigores dos frades alemães, pode estudar e ganhar contato com as letras, com a cultura, tudo tão estranho à sua gente e à pobreza de onde vinha. Se desde cedo vivera fora de casa, sem o aconchego da mãe que perdera, sem o sentido de família que o pai não lhe dera, ali, no seminário, encontrava-se com Deus, com a fé católica que marcara toda a sua vida, sonhando ser um dia padre.

E assim foi, até que a má alimentação da infância cobrou o seu elevado preço: estafa, cansaço, dificuldade física, tudo começou a lhe pesar, fazendo-o padecer de forma tão intensa que, já sem forças para continuar silenciando os seus tormentos, teve que se abrir com o seus superiores. E foi levado ao médico, sendo dado um triste diagnóstico: não mais podia ficar no seminário; quela vida contribuia para o seu infortúnio. Aos 21 anos viu-se sem rumo, voltando para a casa do seu pai, agora novamente casado com outra mulher e sem espaço para que ele pudesse sentir-se acolhido.

O menino, que fora realizar os seus sonhos, de repente foi abandonado por eles, jogado à própria sorte em razão da sua precária saúde. E lá foi ele novamente andar sem casa, sem o seu lugar, indo ensinar a crianças em uma fazenda próxima, mediante pagamento, chamada “Brejo”. Foi no Brejo que pode se recuperar, porque entre as aulas dadas às crianças da região e aos filhos do dono do local, pode ter contato constante com o verde, o leite de vaca na manhã cedinho, as andanças silenciosas e despreocupadas, podendo ganhar peso e paz, sem os horários e as atribuições que tinha no seminário.

Até que pode juntar uma pequena soma de dinheiro e foi morar em Junqueiro, à convite do Padre Santana, passando a dividir com ele a casa paroquial, justamente para ensinar um número maior de crianças na cidade. Como se fora frade, certo que um dia voltaria ao seminário, continuava andando na cidade com uma túnica amarrada com largo cordão na sua cintura.

Estimulado pelo Padre Santana, passou a estudar para concursos e, com o ritmo intenso, voltaram os sintomas que o fizeram sair do seminário. Ali, para a sua dor, teve a certeza que não mais voltaria para aquela que seria a sua vida e a sua vocação. Ali, naquele momento, poderia ficar revoltado com Deus e com a sua fé. Mas soube ser humilde diante dos desígnios que não lhe eram compreensíveis, buscando seguir em frente, à procura de novos caminhos.

Mas encontrou Tereza e com ela o amor, a família que não tivera até então, o ninho que lhe faltara. Com ela encontrou o aconhego, os cuidados constantes, a realização de homem e de pessoa. Mas sempre rezando, sempre fazendo da sua vida uma oração constante e um profundo esforço para honrar a Deus. Não se pode pensar no papai sem pensar na sua fé, sem pensar na Igreja.

Conversamos muito ontem. E essas histórias me vieram à mente. Como aprendi tanto com elas, quis participar aos meus leitores aquele exemplo que tivemos, os seus filhos.


domingo, 19 de julho de 2009

Cantando em família

O vídeo abaixo foi gravado em fevereiro. Papai e mamãe cantando com o Cado ao piano, na casa dele, com os meninos ao lado: Lucas, João Pedro e Rafinha. Essa música foi muito cantanda em nossas infâncias, sendo impossível não sentir saudades daquele tempo e desses momentos que vivemos tantas vezes em família.



A música cantada é do folclore italiano, com a seguinte letra:

Sul mare luccica (Santa Lucia)

Sul mare luccica
l'astro d'argento.
Placida è l'onda;
prospero è il vento.
Venite all'agile
Barchetta mia!
Santa Lucia, Santa Lucia

Con questo zeffiro
così soave,
oh! com'è bello
star sulla nave!
Su passeggeri
venite via!
Santa Lucia, Santa Lucia.

In' fra le tende
bandir la cena,
in una sera
così serena.
Chi non dimanda,
chi non desia;
Santa Lucia! Santa Lucia!

Mare sì placido,
vento sì caro,
scordar fa i triboli
al marinaro.
E va gridando
con allegria:
Santa Lucia! Santa Lucia!

O dolce Napoli,
O suol beato,
Ove sorridere,
Dove il creato,
Tu sei l'impero
Del armonia,
Santa Lucia, Santa Lucia!

Or che tardate,
bella è la sera.
Spira un auretta
fresca e leggiera.
Venite all'agile
barchetta mia!
Santa Lucia, Santa Lucia.

Essa música folclórica napolitana, de 1849, foi cantada por grandes nomes da música italiana e internacional (Elvis Presley entre eles), tendo também a versão de Mario Lanza, grande tenor italiano, que deixou essa versão rara gravada:

sábado, 4 de julho de 2009

Dom Henrique em Aracaju

O povo de Aracaju recebeu ontem Dom Henrique. Um momento bonito,em que os fiéis alagoanos - e foram muitos - juntaram-se aos fiéis sergipanos para receber o novo bispo auxiliar. Dois governadores de Estado, deputados dos dois Estados e muitos católicos receberam o pequeno homem de Deus, com a certeza de que o novo pastor veio com a humildade de que se faz pequeno diante da grandeza da palavra do Pai.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A posse de D. Henrique

Vou a Aracaju para a posse de Dom Henrique. Ainda que estando um pouco mal de saúde, farei a viagem para participar do início das atividades dele na capital na sergipana. Penso que perdemos, na Igreja de Maceió, mas ganhou a Igreja como um todo, seja em nosso vizinho seja naquilo que ele poderá fazer no exercício do episcopado.