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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Pertencialidade"

Uma educadora fez hoje uma preleção para os pais novatos. Uma bela explanação. Poderia enfatizar vários aspectos, todos aqui e ali tratados por mim neste blog: cabe aos pais educar, passar os seus valores, dar os limites, estimular o diálogo. A escola tem uma importante função coadjuvante, sobretudo hoje em que as famílias são menores, sem tantos filhos: na escola é que começa o processo de vivência coletiva, a passagem da experiência privada para a pública. As crianças aprendem a competir, a respeitar o espaço alheio e a defender o seu próprio espaço. Começa a aprender regras de convívio e, mais ainda, pô-las em prática.

De toda a rica explanação feita pela diretora da escola, Vera, uma palavra me chamou mais ainda a atenção: o sentimento de pertencialidade, neologismo com o qual ela sublinha a relação da criança com as suas coisas, como os brinquedos, a bolsa, os livros, a roupa.

As crianças cujos pais têm alguma condição financeira estão muitas vezes saturadas de tantos presentes, de tantos brinquedos, que já não valorizam a relação com eles, o sentimento de responsabilidade e cuidado. Ganham um tênis, por exemplo, curtem e perdem, para já no outro dia ganhar novo tênis, sem sequer sentir as consequências da perda. Saturadas de terem tudo, não aprendem o valor das coisas, o zelo por elas, o sentido da conquista. Uma criança que perdeu o relógio em um dia e já chegou no colégio, no dia seguinte, com outro relógio, não pode saber o significado da perda, o sacrifício para a conquista e a alegria por merecê-la. Serão os adolescentes sem limite de amanhã, os adultos problemáticos que não foram estruturados para os desafios da vida.

A relação de pertencialidade não é o estímulo ao individualismo. Ao contrário, é o ensino do valor das coisas, fazendo com que a criança desenvolva o seu espaço, o seu mundo, que não é descartável simplesmente, como o relógio do exemplo dado. Assim, a criança amadurece a sua relação com as coisas, com as pessoas, consigo mesma. Descobre que é preciso cuidar para ter. Como a mãe que deixou a criança ir um dia descalça para a escola, depois que o filho perdeu o tênis, no dia seguinte outro tênis e no outro a sandália. Sabendo as consequências da falta de cuidado, aprendeu a criança a importância das suas coisas, o zelo pelo seu mundo.

Quantas vezes a nossa ética faz descartáveis as pessoas? Usamos para depois rifá-las sem nenhum respeito, nenhuma razão, nenhum cuidado, seja nas relações pessoais, profissionais, ou afetivas. Porque simplesmente falta o desenvolvimento maduro da pertinencialidade desde a infância.

Bem, o valor da educação é imenso e a responsabilidade que repousa sobre os pais, ingente. Se bem soubéssemos, seríamos parceiros da escola, vendo nela uma ferramenta fundamental no desenvolvimento dos filhos, porém sabendo que é nossa, dos pais, a responsabilidade de educar e pôr limites.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Evolução humana?

Uma das teses do espiritismo, fundada na lei do carma, é a evolução dos seres vivos (daqui e doutros planetas). Todos evoluimos e, neste processo, purgamos os nossos erros em sucessivas vidas de aprendizado: o sofrimento de hoje seria produto dos erros de vidas passadas, de modo que pagamos elevado tributo nesse processo de crescimento espiritual (quem quiser ter uma visão sobre o espiritismo, com um enfoque para católicos, leia aqui).

Há espíritas que, fortes nessa visão da lei do carma (cuja origem positivista, com apego e decalque das leis de Newton não podem ser negadas, sequer historicamente), compreendem também que houve uma evolução cósmica do gênero humano, citando como exemplo a evolução tecnológica, as viagens espaciais, o desenvolvimento cultural dos povos, etc. Porém, é inegável que o mesmo homem que é capaz de pesquisar com sucesso o solo de Marte, descobrir água na Lua, criar aparelhos com o iPhone, é também capaz da tentativa de genocídio dos judeus em campos de concentração, de criar armas de destruição em massa, de alienar um povo inteiro e submetê-lo à miséria (como na Coreia do Norte), além de condutas individuais terríveis do ponto de vista da própria cultura em que vivemos situados.

A evolução ética, ao contrário da evolução tecnológica ou científica, é um conceito complexo, cuja própria possibilidade é questionada por pensadores através dos tempos. Quem muito bem resenha a questão e reflete sobre ela é o economista Eduardo Gianetti, na obra "Vícios privados, benefícios públicos?", da editora Companhia das Letras, obra que merece ser lida.

Penso que não existe evolução ética. Evolução pressupõe um movimento para cima, progressivo. O ponto alto da nossa evolução - do ponto de vista cristão e admitida que ela, a evolução, existisse - seria a encarnação do Verbo, quando Deus se faz carne e entra na História. É dizer, o centro da História e o ápice do gênero humano seria a humanização do divino por Cristo.

Escrevo essas linhas porque, com a facilidade de informação em tempo real, a cada dia assistimos coisas surpreendentes, que demonstram como a nossa sociedade, o bicho homem, consegue cair rente à sua natureza animal, decaída, vergada pelo pecado. O vídeo abaixo mostra uma notícia absurda, porém muito comum nos dias de hoje: abusos sexuais de filhas por pais e mães. Parece-me o mais baixo que podemos chegar como pais e mães, como pessoas. Assistam: