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terça-feira, 10 de abril de 2012

Pedalar, pedalar, pedalar...



É preciso saber viver, como é preciso saber pelo que morrer. Sim, saber por que se vive e saber até para que se morre. Há um "por que" e um "para que".

Por que vivemos é uma questão que, no mais da vez, fica escondida nas franjas do nosso cotidiano, esfarelando-se ao passar dos dias, depois dos anos, sem que venhamos a nos dar conta, navegando como nau sem rumo. A correnteza leva um dia; noutro, o vento. E vamos indo no desfiar das horas, perdidos de nós mesmos, fugindo dos nossos pensamentos, esgueirando-se enquanto não surja um evento capital que nos faça perguntar, assim, simplesmente: "minha vida tem sentido?".

Viver não é andar de bicicleta! Não basta ficar pedalando, morro acima, ladeira abaixo, desviando-se aqui e ali de pedregulhos do caminho.

Pedala, pedala, pedala... O tempo passa, o tempo corre ligeiro, nós fazemos repetidamente aquele gesto. Pedala, pedala, pedala... Para onde, meu caro? "Não dá para responder, tenho que pedalar....".

Nossos labirintos são caminhos mais vistosos do que qualquer outro que nossos olhos possam enamorar. Nem o sol se pondo, tingindo o céu de vermelho enquanto ainda não se deixou cobrir do negro da madrugada, pode ser um quadro mais excitante do que as esquinas da nossa alma.

Mas os nossos labirintos simplesmente são cheios de interrogações, de questões profundas, de imensos "canyons"... Parar para pensar significa ter de parar de pedalar, fazer uma pausa, olhar para si mesmo e para o seu entorno, buscar o significado das coisas e da nossa própria existência. E o que nos faz humanos não é justamente essa divina capacidade de por significado nas coisas?, de dar nome a elas?, de refletir sobre as reflexões dos outros que vieram antes de nós ou que são nossos contemporâneos?

Pedalar, pedalar, pedalar... Porque parar um pouco pode nos revelar que estamos pedalando para um destino que não é o nosso, por um caminho que nos levará para longe de quem somos, de quem amamos, dos sonhos que acalentamos.

Sim, é preciso aprender a parar um pouco e gritar, à boca cheia, uns tantos impropérios, umas tantas sandices, um FODA-SE! absolutamente desbragado, altissonante, para depois ciciar para a própria alma, acalmar o corpo, deixar-se estar, olhar a vida com olhos desarmados, como quem se deleita diante de uma escultura de um Gian Lorenzo BERNINI ou de um nu feminino, de fartas carnes, de um Jean-Pierre RENOIR. Sim, humano que somos, também, e não menos importante - por certo bem mais até! - dar-se ao prazer de uma oração, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, uma prece de conforto e, ainda mais humanos, um pedido por saúde, paz e alguma sorte... porque ninguém é de ferro.

Vivemos para ser felizes!

Não vivemos para pedalar!

Vivemos sem um mapa, mas com a busca constante da felicidade, da plenitude, da inteireza do nosso ser.

Dinheiro, poder, prestígio, sucesso, respeito, tudo isso é bom e legítimo. Não podem ser demonizados. Todos buscamos um lugar ao sol, o reconhecimento do nosso talento ou do nosso trabalho, a possibilidade de ter recursos para um passeio, um carro, uma vida decente ou, no mínimo, uma vida digna. E lutamos todos os dias para construir nosso campo de pouso no mundo. Mas se só lutamos por isso, estamos apenas pedalando, pedalando, pedalando... E por mais que tenhamos, e por mais que acumulemos, por mais que possamos, não haverá nem tampouco trará felicidade.

Sim, haverá momentos de alegria; sim, haverá um átimo de realização. Mas aí, após a conquista, o que nos resta? Mais buscas, mais necessidades, mais correria, de modo que a bicicleta continue em um movimento constante, nem sempre linear, pedalando, pedalando, pedalando...

E aí vem a segunda questão: "para quê"? Se vivo porque vivo, para que eu morro? A pergunta parece desarrazoada, pois se nem sei por que vivo, para que buscarei entender a razão da morte?

Poucos, na filosofia contemporânea, foram tão marcados por essa questão como Heidegger. Para ele, o homem possui como característica existenciária o "Dasein" (ser-aí), ou seja, o ser-no-mundo, o estar em situação. Como ser-no-mundo, a essência do homem seria a sua "existência", que é essa característica do homem ser fora de si e para si mesmo, com as suas potencialidades, os seus planos, os ideiais que lhe fazem agir. E o homem existe como ser-no-mundo na temporalidade. A existência do homem se dá no tempo; o seu ser é sempre e já o ser-aí.

Como diz Aline Mayte Terhorst ("O Existencialista Martin Heidegger"), forte nas lições de Ernildo Stein:


"O homem é um existente porque está essencialmente ligado ao tempo. Isso faz com que ele se encontre sempre além de si mesmo, nas possibilidades futuras. Neste sentido o homem é futuro. Mas para pôr em ato essa possibilidade, ele parte sempre de uma situação, na qual ele já se encontra, neste sentido ele é passado. Finalmente, enquanto ele faz uso das coisas que o cercam, ele é presente". E conclui ela, adiante: "Com a morte o homem conquista a totalidade de sua vida. Enquanto ela chega ela não chega, falta a ele alguma coisa que ainda não pode ser e que será. O homem adquire consciência da sua submissão à morte através da angústia, outra disposição fundamental do ser. 
Heidegger chama a morte de 'principio de individuação', o princípio formal da vida humana: a vida humana se torna um todo somente mediante a morte, que a limita. Só a morte permite ao homem ser completo".


A temporalidade é o eixo da vida; a morte, a sua totalidade. Ela é o ponto de chegada, a completude da existência, onde já não há mais futuro.

Para quem não tem fé, para quem não acredita que tenhamos uma vida após a morte, para quem joga tudo no viver sem "porquês", sem "paraquês", a morte é uma questão sem-sentido. Não raro, porém, é justamente a escapadela que muitos, já fartos de tanto poder, dinheiro, fausto, buscam, porque viver já não tem mais sentido; estão empanturrados de tudo.

Vou concluir, agora.

Viver é um dom. A busca da realização é a vocação humana. A felicidade é uma aspiração legítima. Só quem tem a coragem de ir contra a corrente, contra os ventos, pode navegar para o seu destino, ainda que seja mais custoso, ainda que exija muito mais esforço. Viver, porém, ocorre na temporalidade. Não temos, como na música do Legião Urbana, "todo o tempo do mundo" (música "Tempo Perdido"), tampouco seremos para sempre "tão jovens!".

Se viver é um dom, morrer é o nosso destino!

Viver é preciso; pedalar é uma necessidade circunstancial. O que nos faz maiores e melhores é o tempo que, qualitativamente, podemos parar para apreciar o caminho, sabendo para onde vamos e por que vamos. Sem pressa de chegar, sem ansiedades desmedidas, mas com a convicção que brota da alma, com a força que vem de um coração que se permitiu amadurecer.

O sentido da vida, meus caros, passa necessariamente pela verdade que buscamos. E só podemos ser felizes, realmente felizes, se lutarmos pela nossa realização pessoal, a descoberta diária de quem somos, ainda que tenhamos, em seguida, que continuar a pedalar, pedalar, pedalar...

Tenhamos um tempo para nós e lutemos, sem tréguas, pelo que realmente vale a pena, pelo que nos trará realização, pelo que amamos e, sobretudo, pela nossa alma.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

DEUS, O SER, O NADA

Abandonar quem somos, fundir-se à substância de onde viemos e para onde voltaremos, sair de si e abandonar-se cada vez mais, até que os nossos sentidos se esvaziem, até que possamos passo a passo ir negando a nossa realidade física, a dor, o prazer, caminhando para fazer parte da verdadeira realidade. Negar-se, esvaziar-se, dessubjetivar-se. A isso, no budismo, chama-se NIRVANA. Com esse estado de liberação, quebra-se a roda do karma, interrompendo o processo de contínuos renascimentos. É dizer, para essa visão de mundo, o caminho da libertação é o caminho da autonegação. O problema do SER reduz-se a um falso problema, a um estado em que o self, o eu, simplesmente deixou-se absorver em uma correnteza vital.

No NIRVANA, portanto, estaríamos libertos da tirania do ego, da ignorância, da ilusão e da dor. Mas esse libertar-se, insista-se, é o negar-se como pessoa, como identidade. Cada indivíduo tem um espírito que retorna à Fonte de Vida ou Fonte do Espírito para tornar-se uno. Não existiriam almas individuais; haveria uma unidade vital em que o ganhar é simplesmente perder-se de si mesmo.

É um traço comum das religiões orientais o PANTEÍSMO, que é a crença de que Deus é tudo e todo mundo e que todo mundo e tudo é Deus. É dizer, haveria um único ser; seríamos todos deuses, cada qual fazendo parte de um único ser. Como tudo é tudo, o próprio panteísmo dissolve o problema do ser pela base; o ser é o todo. Lembro-me, assim, de uma frase precisa: "onde tudo é tudo, nada é nada!".

No PANTEÍSMO, criador e criatura são uma só e mesma coisa. Não há lugar para Deus no panteísmo; Deus é tudo. Sendo tudo, nada é! Como diz o ateu Arthur Schopenhauer ("Algumas palavras sobre o panteísmo"): "Contra o panteísmo, sustento principalmente que ele não diz nada. Chamar Deus ao Mundo não significa explicá-lo, mas apenas enriquecer a língua com um sinônimo supérfluo da palavra Mundo. Se dizeis “o Mundo é Deus” ou “o Mundo é o Mundo”, dá no mesmo. Quando partimos de Deus como se ele fosse o dado e o a-ser-explicado, e dizemos portanto: “Deus é o Mundo”; então numa certa medida existe uma explicação, ao se reconduzir "ignotum a notius": mas trata-se somente de uma explicação de vocabulário. Porém, quando se parte do efetivamente dado, portanto o mundo, e se afirma “o Mundo é Deus”, então se torna claro que com isto não se diz nada, ou ao menos que se explica "ignotum per ignotius" [O desconhecido pelo mais desconhecido]."

O curioso é que muitos, falando em nome do SER, negam justamente o individual, o subjetivo, o self, o que há de fundamental na criação: a criatura! Somos criaturas, somos justamente um projeto pendente de realização, criados com a liberdade de dizer "sim"ou "não". E se esse é o nosso desafio, é também o maior drama. Deus nos concedeu o livre arbítrio até mesmo para negá-lo, para maldizê-lo, para dele fugir.

E tem uns bobalhões que são críticos da fé alheia, que verbaram a FÉ IMPUDICA NA AUSÊNCIA DA FÉ, sendo mais dogmáticos que o mais míope fundamentalista religioso. Negar Deus é apenas a fé no NADA, no sem-sentido, no desespero. É, também isso, creiam-me!, uma forma de fé. E se for sincera, autêntica, é a fé mais dolorosa que pode alguém sentir.

Ah, Nietzsche, com seu niilismo profundo, não tardou em chamar o budismo de "nostalgia do nada", em um texto seu sobre niilismo e cristianismo: "O budismo hindu não tem atrás de si uma evolução completamente moral, esta é a razão por que não há nele, no seu niilismo, senão uma moral não-superada: existência como punição e existência como erro combinadas e, por conseguinte, o erro como punição — apreciação de valor moral."

E daí, justamente dessa dolorosa desilução de Nietszche, que encontra amparo no budismo contra o cristianismo, ele saca a mais desesperadora certeza: nada tem sentido! Diz ele:

"Pensemos este pensamento na sua mais terrível forma: a existência, tal como ela é, privada de sentido e de finalidade, mas se repetindo inelutavelmente, sem acabar no nada: “o eterno retorno”. Esta é a forma mais extrema do niilismo: o nada [a ausência de sentido] eterno! Forma europeia do budismo: a energia do saber e da força impõe esta crença. Esta é a mais científica de todas as hipóteses possíveis. Negamos os últimos fins: se a existência tivesse um, ele deveria ter sido já alcançado."(in: O niilismo europeu Lenzer Heide: 10 de junho de 1887).

Para os que gostam de Nietiszche, talvez haja surpresa na ligação da sua filosofia com o budismo e, mais interessante, no seu caminhar não para a questão do SER, mas, sim, para o problema do NADA, do sem-sentido, do vazio absoluto.

O mais interessante, ao fim e ao cabo, é que todo o pensar de Nietszche seja justamente por negar a possibilidade de um pensar racional e com sentido. É dizer, na frase "nada tem sentido" há uma contradição lógica; a própria frase reivindica um sentido e uma aceitação geral. É que o cético quer que todos tenham CERTEZA DO PRÓPRIO CETICISMO!

Râmana Mahârshi: O Ser e o Pensamento

Por que será que a cultura oriental (leia-se, os mestres do yoga e quejandos) têm tanto medo do conhecimento e do pensamento? Sempre me incomoda quando leio essa forma de espiritualidade oriental a tese de que (a) devemos abdicar do eu (ego, self) em favor de um fluxo existencial (que pode ser o Nirvana ou o Ser), e (b) de que o pensamento ou conhecimento devem ser descartados. Ou seja, a realização estaria numa espécie de autonegação.

Um mestre chegou a afirmar que "O mero aprendizado de livros não é de grande utilidade. Depois da Realização todas as cargas intelectuais viram fardos a serem jogados fora." Essa lógica rejeita algo fundamental: a cultura. Ou seja, tudo o que nós, quando nos interrelacionamos no decorrer da história, criamos como marcas da nossa humanidade simplesmente deveria ser "jogado fora".

Não é à toa que esse mesmo grande mestre indiano afirma que a cultura é um mal: "Os pouco instruídos se libertam mais facilmente do que aqueles cujo ego não se abrandou apesar de toda a sua cultura. Os chamados homens sem cultura estão livres do domínio implacável do demônio da auto-fascinação; eles estão livres da doença da turbulência de pensamentos e palavras; eles estão livres de correr atrás de riqueza. É de mais de um mal que estão livres". É dizer, para a nossa realização deveríamos buscar o SER, que nada mais seria do que a nossa autonegação, a rejeição da cultura na qual estamos inseridos e, mais ainda, fugir dos pensamentos e palavras, que apenas nos destraem.

Evidentemente que poderíamos abrir um debate sobre o valor heurístico de cada proposição desse mestre indiano, que cito como exemplo. Mas logo ele, e com ele os seus discípulos, rejeitariam o debate, ao argumento de que o pensamento e a cultura são um mal. Aliás, tal afirmação é feita por esse mestre que cito, sem rebuços: "Esses tipos de disputa são infindáveis. Não participe delas. Ao invés disso, volte a sua mente para o interior e ponha um fim a tudo isso. Todas as disputas são fúteis". Bem, se toda a discussão cessa desde o início, abdica-se de qualquer racionalidade e, em verdade, resta apenas o irracionalismo puro e simples que se arroga uma clarividência que independe do pensamento, das palavras, da razão ou de qualquer lógica. A isso, muitos adotam como uma suprema sabedoria!
Para esse mestre indiano, cuja obra estou lendo, busca explicar o que seria para ele o SER. Diz ele: "O Brahman ou Eu Real é como uma tela de cinema, e o mundo é como as imagens que aparecem nela. Você só vê a imagem enquanto há uma tela. Mas quando o próprio observador se torna a tela apenas o Eu Real permanece". As palavras, que bem poderiam ser enigmáticas, querem dizer o seguinte: o observador deve se perder na realidade que sustenta aquilo que vemos. O mundo, na verdade, não é o real. Nós não somos real (inegável o platonismo aqui), mas o SER - a tela de cinema - só pode ser alcançado quando o observador deixa de existir e passa a fazer parte da tela. Ou seja, o eu tem que se dissolver para tornar-se o EU REAL, que nada mais é do que uma realidade sem o ego, o eu, sem o que me faz pessoa.

Diz o mestre indiano: " Apenas o Eu existe e é real. O mundo, o indivíduo e Deus são criações imaginárias dentro do Eu". Essa negação do indivíduo, do self, termina nos levando para uma negação da história, da cultura e de tudo o que nos cerca. A matéria seria um mal; meu corpo, a minha casa, a "realidade" que me cerca me prenderia e deveria ser destruída para a minha libertação, inclusive de mim mesmo. Como diz esse mestre indiano, "O indivíduo que identifica a sua própria existência com a existência da vida no corpo físico, e o toma como “eu”, é chamado de ego. O Eu Real, que é pura Consciência, não tem sentimento de ego ligado ao corpo. Nem pode o corpo físico, que é por si só inerte, ter esse sentimento de ego. Entre os dois – ou seja, entre o Eu ou pura Consciência e o corpo físico inerte – surge misteriosamente a sensação de ego, ou noção de ‘eu’, este híbrido que não é nenhum dos dois e que floresce como ser individual. Este ego ou ser individual é a raiz de tudo o que é fútil e desagradável na vida. Por isso ele deve ser destruído por qualquer meio possível; então permanece apenas o brilho d’Aquilo que sempre é. Isso é a Libertação, Iluminação ou Auto-Realização".

Ora, para a nossa realização deveríamos nos negar? A realidade verdadeira estaria além de nós, embotada por nossa mente, por nossos pensamentos, pela reflexão que fazemos sobre o que nos cerca e que chamamos de "realidade"? Ou seja, para descobrirmos o SER deveríamos negar quem somos, abdicar da nossa cultura, deixar de pensar e refletir?

A única resposta para essa forma de espiritualidade é justamente "sim". Afinal, para o mestre indiano, fazendo inclusive uma leitura equivocada da Bíblia, "A essência da mente é apenas atenção ou consciência. Entretanto, quando o ego nubla a mente, esta adota as funções de raciocínio, pensamento e percepção. A mente universal, não sendo limitada pelo ego, não tem nada exterior a si, e portanto ela é apenas consciência. É isso o que a Bíblia quer dizer com “EU SOU O QUE EU SOU”. Ou seja, o pensamento, a percepção, as funções intelectivas da mente, seriam um mal do ego, do EU aprisionado em um corpo, nublado do Eu Real. Não existiria, a rigor, o self, o indivíduo, que seria o embotamento do Eu Real, o Nirvana budista, onde nos perderíamos (ou nos acharíamos) em um fluxo existencial, no verdadeiro SER.

Para chegarmos ao verdadeiro SER devemos abandonar o ser-que-somos, o ser-aí (Dasein), o ser na história, na temporalidade. Voltamos a um ser metafísico e desencarnado, que rejeita a matéria, a vida vivida, o pensamento pensado. Como diz o mestre indiano: "Isso acontece porque essa percepção de “eu” está associada a uma forma, talvez a forma do corpo físico. Mas nada deveria ser associado ao Eu puro. O Eu Real é a Realidade pura em cuja luz brilha o corpo, o ego, e tudo mais. Quando todos os pensamentos são aquietados sobra apenas a pura Consciência".
Estou conversando sobre o livro "Os Ensinamentos de Ramana Maharshi em Suas Próprias Palavras". O livro pode ser lido integralmente nesse link (aqui).

Râmana Mahârshi é considerado um homem santo do sul da Índia, falecido em 1950. Ele não deixou livro escrito, sendo o seu pesamento compilado por discípulos. A sua vida, o seu exemplo, gerou inúmeros seguidores, sendo ainda hoje seguido e respeitado.

Os comentários que tenho feito sobre Krishnamurti e, agora, sobre Râmana Mahârshi, são respeitosas análises do pensamento dessa espiritualidade oriental que ainda hoje fascina a muitos, sobretudo como fonte de profunda sabedoria. É preciso, porém, além da fé que desperta - o que é positivo! - passar pelo crivo da razão essa forma de sabedoria, como se fez com o cristianismo nesses 2 mil anos de história.

E há muito para refletirmos com abertura e busca sincera da verdade em nossas vidas. Que nada aqui seja visto como desrespeito, mas como uma abertura sincera a um importante diálogo
 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fé, linguagem, amor e cultura: do ser ao nada

Um dos grandes movimentos da filosofia ocidental decorreu da descoberta do papel central da linguagem não apenas como instrumento para a comunicação, mas sobretudo como sendo ela a própria realidade. Heidegger cunhou frase lapidar: "Ser que pode ser compreendido é linguagem".

A linguagem, portanto, deixaria de ser o "medium" para ser, ela própria, a realidade. O que vem pela linguagem existe; sobre o que não se pode falar, ou não existe ou é o inefável, como sustentara o primeiro Wittgenstein, já no fecho do "Tratactus logico-philosophicus".

Uma das dimensões fundamentais da linguagem é pragmática. Enquanto a semântica se atém à relação entre o signo e a coisa por ele designado e a sintaxe se prende à relação dos signos consigo mesmo na estrutura expressional, cuida a pragmática da relação dialógica dos atos de fala. A linguagem é uma realidade intersubjetiva, comunitária. Não há linguagem privada; o falar e o pensar ocorre sempre em um processo dialógico, através de uma gramática comum à comunidade do discurso.

Todas as principais experiências humanas reclamam uma expressão em linguagem: o amor, a fé, o desejo, a dor, o sofrimento, a saudade, a alegria... Tudo em nós reclama a expressão, o sair de si mesmo e se fazer compreensível ao outro. Estamos e somos sempre em um profundo e indefectível processo de diálogo: eu-eu, eu-tu, eu-nós.

A fé cristã, por exemplo, desde o seu nascedouro foi comunitária. Após a morte de Cristo, fato histórico que ninguém seriamente duvida - é certo que há sempre uns tolos que ganham dinheiro criando teorias bobas para negar um evento que marcou a história da humanidade -, restavam alguns poucos discípulos seus medrosos e acovardados. Pescadores, homens de pouca cultura e sem prestígio social, foram perseguidos pelos judeus e pelos romanos.

Algo de extraordinário ocorreu. Aqueles homens de nenhum relevo começaram a anunciar um evento sem provas: o Cristo morto havia ressuscitado! A morte fora vencida por ele; a boa nova era justamente um escândalo para os judeus (autoridade religiosa) e uma loucura para os gregos (autoridade intelectual), no dizer preciso de São Paulo. E o anúncio foi marcado pela superação do medo, pelo corajoso enfrentamento e martírio. Pentecostes é esse marco: os homens medrosos saem dos esconderijos e anunciam a ressurreição.

E, desde ali, a fé passou a ser não uma viagem individual, uma experiência pessoal exclusiva. A fé cristã é uma experiência comunitária. NÓS CREMOS, dizem os cristãos desde os primórdios. Crer, ter fé, para os cristãos, por conseguinte, é uma experiência pragmática (no sentido linguístico), em que EU ME INSIRO NUMA VERDADE REVELADA E VIVIDA PELOS QUE CREEM. A fé em Cristo é a fé em uma pessoa encarnada, em uma verdade que se põe para mim de fora para dentro e me invade, me toma, me domina.

A fé não é, portanto, a MINHA FÉ, mas a FÉ DOS CRISTÃOS. A fé não se amolda aos meus pensamentos, não sou nem posso ser seu dono ou proprietário. A fé é uma realidade comunitária, na qual me insiro e me descubro como pessoa e como crente. A fé, então, é uma adesão livre e consciente, apaixonada, mas sempre uma adesão.

Os orientais buscam sempre um outro caminho. A verdade seria sempre uma experiência interna, uma busca em si mesmo. Nós seríamos parte de um todo, do deus que habita em mim e para o qual eu retorno após a morte, me dessubjetivando. Ser feliz seria cada vez mais abrir mão de si mesmo, em um processo de autonegação. E esse processo seria uma viagem interna, uma busca por si mesmo em um processo de abandono do self, do ego.

O pensamento, expressão da linguagem que define o nosso mundo e o nosso ser no mundo, seria um mal a ser deixado de lado. Nosso processo de autonegação implicaria a libertação da mente do próprio ato de pensar. Como disse um guru respeitado nos dias de hoje, com seguidores no Brasil, Jiddu Krishnamurti (+ 1986): "Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio".

Tomo ainda a fala de J. Krishnamurti como expressão dessa lógica de autonegação através de processos que visam, através da meditação, a busca do abandono de si mesmo, porque pelo abondono do self alcançaria o fluxo vital do qual faria parte e no qual devo me perder, como um Nirvana budista: "Eu aprenderei como estar quieto; aprenderei como meditar com o objetivo de ficar quieto. Eu vejo a importância de se ter uma mente que seja livre do tempo, livre do mecanismo do pensamento, eu a controlarei, a subjugarei, expulsarei o pensamento. Mas isto ainda é operação do pensamento. Isso está muito claro. Então o que ela deve fazer? Porque um ser humano vive nessa desarmonia, ele deve questionar isso. E isso é o que estamos fazendo. Como começamos a questionar isso, ou no questionar, chegamos a essa fonte. É ela uma percepção, um insight, e esse insight não tem nada, coisa alguma a ver com o pensamento? É o insight o resultado do pensamento? A conclusão de um insight é pensamento, mas o insight propriamente não é pensamento. Assim, eu obtive uma chave para isso. Então o que é insight? Posso convidá-lo, cultivá-lo? Isso é afeição, isso é amor. Quando você fala à minha consciência desperta, ela é dura, esperta, sutil, aguda. E você a penetra, penetra-a com seu ver, com sua afeição, com todo o sentimento que tem. Isso opera, nada mais."

E, adiante, ensina ele, completando a sua compreensão: "Não pode dividir a si mesma como "minha inteligência" e "sua inteligência". Ela é inteligência, não é divisível. Agora ela brotou de uma fonte de energia que dividiu a si mesma..." E segue: "Pensamento, matéria, o mecânico, é energia. Inteligência também é energia. O pensamento está confuso, poluído, dividindo a si mesmo, fragmentando a si mesmo. Portanto eu diria que o pensamento deve estar completamente quieto para o despertar da inteligência. Não pode haver um movimento de pensamento e ocorrer o despertar da inteligência."

Como se observa, há uma imensa diferença entre a fé cristã e o pensamento oriental "lato senso": os orientais negam a individualidade, negam o valor do eu e do pensamento, apontam para o TODO ASSUBJETIVADO como sendo a paz e o destino nosso; o cristão valoriza a subjetividade, a dimensão pessoal do homem, e aponta para a fé como como uma realidade intersubjetiva, em que aderimos a verdade do Cristo que se revela na história e nos convida para um diálogo de amor eterno.

O cristianismo valoriza a criação como um todo: a matéria e o espírito têm o mesmo valor como criação do amor de Deus. Ambos, fraturados pelo pecado, são restaurados pelo amor de Deus, que se esvazia, se encarna e assume a nossa história.

A nossa realização não vem da autonegação, mas da nossa afirmação pessoal e comunitária no amor de Deus. Meditar não é abandonar o pensamento, mas voltar o pensamento para Deus, em um ato de entrega e fé. Não preciso, para ser pleno, "esquecer ou abdicar" do mundo lá fora; a plenitude vem em um processo nunca acabado em nossa vida terrena, fraturada pelo pecado, que se realiza através da ressurreição individual. Ou seja, no cristianismo não me dissolvo em um Nirvana; me realizo em plenitude, em minha individualidade, na profunda relação de amor com Deus e com os demais, em um diálogo eterno e constante.

Ouvi com muita atenção as lições de J. Krishnamurti. Veja um dos seus vídeos mais abaixo. E ao ouvi-lo, vi um bom homem reflitindo, em voz pausada, sobre a negação do pensamento, do que somos em nossa constituição antropológica mais profunda. Segundo ele, como não há pensamento completo sobre nada, não se pode pensar na completude, nem o imensurável. Desse modo, Deus e as religiões seriam criações do pensamento, ideologias que levariam às guerras e à mentira.

Mesmo os relacionamentos mais fraternos seriam produtos do pensamento e levariam, também eles, ao conflito. O fundamental seria "romper com a cadeia da continuidade do ego. Só então é possível viver com outro sem uma sombra qualquer de conflito" (1:18:53 do vídeo). Só abrindo mão do eu que poderia estar sem conflito com o outro. Só na autonegação poderia me afirmar perante o outro sem conflito...


Sinceramente, é uma leitura da vida que expurga como mal a religião, a tecnologia, as relações humanas... O que restaria seria, então, abdicar da própria humanidade para, dissolvendo-se no nada, nada restar de si mesmo!

Aliás,  J. Krishnamurti firma, noutro vídeo em que dialogo com o Pe. Eugene Scharllet, a seguinte definição de liberdade: "Liberdade é a negação de ser condicionado por qualquer cultura, por qualquer divisão religiosa ou política". Ou seja, liberdade seria estar morto, porque estamos inseridos sempre na cultura; a cultura humana é o eixo em que a vida se dá; a linguagem, aliás, é a maior expressão da cultura. Libertar-se da cultura seria simplesmente deixar de pensar, de respirar. Lamentavelmente o tal Pe. Eugene Scharllet é muito fraquinho e não sabe nada da própria fé e da própria religião. Ora, NEGAR A CULTURA SERIA UM ATO DE ESCOLHA FUNDAMENTADO, OU NÃO, PORÉM - salvo em caso de morte ou coma profundo - A ADOÇÃO DE UMA OUTRA CULTURA, DIVERSA DAQUELA NEGADA.

Para Jiddu Krishnamurti, então, existe uma realidade viva, uma totalidade, que só podemos alcançar se nos transformarmos numa espécie de folha de papel em branco, livres de todo o conhecimento e crença em que vivemos; livres, portanto, da cultura. E só podemos alcançar isso através de uma ação individual. E o que seria essa individual? Chama-se individualidade, para ele, "o estado no qual a ação tem lugar através da compreensão liberta de todos os padrões – sociais, econômicos ou espirituais. É a isto que eu chamo a verdadeira individualidade, porque é ação nascida da plenitude do entendimento, ao passo que o egotismo tem as suas raízes na segurança, na tradição, na crença. Por isso a ação induzida pelo egotismo é sempre incompleta, está sempre ligada à luta incessante com sofrimento e dor" (in: "A Arte de Escutar; Stresa, Itália - 1ª palestra 2 de julho, 1933).

Note-se: o mundo da vida ("Die Lebenswelt"), que é a nossa realidade onde nos inserimos como pessoas, onde a nossa existência se dá, teria que ser dissolvido, simplesmente. Filosoficamente, Krishnamurti desconsidera uma das grandes conquistas da filosofia moderna, sobretudo a partir de E. Husserl, que é o conceito de "mundo da vida. Husserl já dissera que "O mundo nos é dado de antemão, a nós despertos, que somos sempre de algum modo sujeitos com interesse prático…[o mundo] nos é dado como campo universal de toda praxis efetiva e possível, dado de antemão como horizonte". Ora, Krishnamurti trata a nossa realidade como não-realidade, como um obstáculo ao conhecimento, inclusive.

Não por outra razão, o tempo passa a ser um problema para Krishnamurti. Enquanto estivermos presos ao passado, presente ou futuro, teremos obstáculos ao conhecimento. Só podemos alcançar a verdade se a nossa mente se descolar da temporalidade. Diz ele: "Enquanto houver esta marca da memória, tem que existir a divisão do tempo em passado, presente e futuro. Enquanto a mente estiver acorrentada à ideia de que a acção deve ser dividida em passado, presente e futuro, há identificação através do tempo e por isso uma continuidade da qual resulta o medo da morte, o medo da perda do amor. Para compreender a realidade intemporal, a vida intemporal, a acção deve ser completa". E, adiante, é ainda mais claro quanto ao ponto: "Para mim, portanto, a coerência é um sinal de memória, memória esta que resulta da falta de verdadeira compreensão da experiência. E essa memória cria a ideia de tempo; cria a ideia de presente, passado e futuro, sobre os quais se baseiam as nossas ações. Consideramos o que éramos ontem, o que seremos amanhã. Tal ideia sobre o tempo existe enquanto mente e coração estiverem divididos. Enquanto a ação não nascer da plenitude, tem que haver divisão do tempo. O tempo é apenas uma ilusão, é apenas a incompletude da ação" (In: "A Arte de Escutar", Alpino, Itália - 4ª palestra 9 de julho, 1933).

Quanto mais leio J. Krishnamurti, mais me impressiona a vaguidade das suas afirmações, que entram num campo exotérico e caem em um profundo irracionalismo. A liberdade e a verdade, enfim, não seriam possíveis em nossa vida mundana, em que os fatos e o transcurso da nossa história se dão. Temos que fugir para uma realidade atemporal, libertos dos pensamentos, das crenças, do mundo da vida. A liberdade seria a negação do eu, de todas as circunstâncias vitais que me fazem ser quem sou.


Para onde nos levaria essa forma de pensar de J. Krishnamurti? Ele nos dá uma dica: devemos abrir mão de toda e qualquer segurança, inclusive daquelas advindas da prática de virtudes. Tudo isso seria obstáculos à liberdade: "Quando o homem estabelece uma segurança – a segurança da opinião pública ou da felicidade que ele obtém das posses ou da prática da virtude, que é uma fuga – ele enfrenta cada incidente da vida, cada uma das inumeráveis experiências da vida, com o pano de fundo dessa segurança: isto é, ele nunca enfrenta a vida como ela realmente é. Chega a ela com um preconceito, com um pano de fundo já desenvolvido pelo medo; aborda a vida com a mente totalmente revestida, sobrecarregada, de ideias" ("A Arte de Escutar", Oslo, Noruega - palestra no auditório da universidade 5 de setembro, 1933).

E só haveria um meio adequado para se chegar a essa libertação que leva à verdade: abrir mão do eu, negar-se. Nessa mesma palestra ele assevera: "Eu afirmo que existe essa realidade de vida eterna, mas não pode ser compreendida enquanto a mente e o coração estiverem sobrecarregados, estropiados pela ideia do “eu”. Enquanto essa auto-consciência, essa limitação, existir, não pode haver qualquer compreensão do todo, da totalidade da vida. Esse “eu” existe enquanto houverem falsos valores – falsos valores que herdamos ou que perseverantemente criamos na nossa busca de segurança, ou que estabelecemos como a nossa autoridade na busca de conforto".

Insisto nesse ponto: a doutrina de J. Krishnamurti advoga o mais absoluto irracionalismo, a negação do eu, a abdicação dos nossos valores e das conquistas da tradição. A cultura, as nossas descobertas científicas, as nossas crenças, tudo seria um obstáculo à verdade e à liberdade. O que nos restaria, então, diante disso? A resposta que ele nos oferta - perdoem-me a sinceridade - é simplesmente risível e tola: "essa dificuldade existirá enquanto as vossas mentes estiverem sobrecarregadas com esta consciência a que chamamos “eu”. Não posso dar-lhes valores correctos, se eu vo-los dissesse, fariam disso um sistema e imitá-lo-iam, estabelecendo desse modo apenas uma outra série de falsos valores. Mas podem descobrir por si próprios os valores correctos, quando se tornarem verdadeiramente indivíduos, quando cessarem de ser uma máquina. E só se podem libertar desta máquina mortífera dos falsos valores quando estiverem muito revoltados".

J. Krishnamurti prega simplesmente o nada, a fuga da realidade, negando o valor da história e da cultura, porém negando-se a colocar qualquer outra coisa em seu lugar. Ora, para mim isso não é muito pouco; é simplesmente o irracionalismo pintado de misticismo exótico.
 

Ora, somos embebidos na cultura; a expressão mais imediata do "tesouro comum da humanidade"(Gottlob Frege) é a linguagem. O ato de pensar é individual, mental, mas se realiza na linguagem; o pensamento, produto do ato de pensar, pode ser transmitido a outros e, não raro, pensamos os mesmos pensamentos pensados por outros.

Tudo o que construimos, tudo o que transformamos, é cultura. O fazer humano é sempre dentro de uma tradição, dentro de uma realidade simbólica intersubjetivamente vivida. A cultura produz e reproduz cultura. A reflexão pessoal, posta dentro de um contexto de diálogo, produz consensos e dissensos. A dialética da argumentação, a tese e antítese, as múltiplas formas da compreensão geram mais cultura.

Essa é a nossa riqueza. A busca do consenso é justamente isso: uma busca interminável! Se o agir comunicativo é livre, sincero, voltado ao consenso, podemos avançar na busca de pontos de encontro cada mais firmes, mas o consenso qual tal é uma quimera; o conflito em si mesmo não é um mal: é fonte de crianção intelectual e novas formas de pensamento.

A crença, seja ela religiosa ou filosófica ou de que natureza for, é algo ínsito à cultura humana. Ter pontos de vista, ter uma concepção de mundo, é próprio à condição humana. Por isso, soa desarrazoado quando se receita o fim das crenças para a obtenção da paz:

"A crença inevitavelmente separa.Quem tem uma crença, ou quando buscam segurança nessa crença, separa-se daqueles que buscam segurança em alguma outra forma de crença" (J. Krishnamurti)

Ora, aqui já se expressa uma crença: a de que a crença separa! Krishnamurti universaliza a sua crença, excluindo qualquer outra. E a sua crença é niilista: melhor não ter crença alguma! É dizer, o único meio de encontrar a liberdade e a paz seria deixar de pensar, deixar de se interrogar sobre nós e sobre o mundo, deixar de exercer a nossa capacidade especulativa. É uma lógica que nos diz o seguinte: sejamos amebas e encontraremos a paz!

Impressionou-me muito os vídeos que assisti de J. Krishnamurti. Um homem de fala pausada, que passa uma paz ao falar, demonstrando, em seu gestual, ter aquela visão de algo hermético, profundo, que nós não conseguimos apreender de imediato. Mas quando vamos decompondo racionalmente o seu discurso, quando vamos analisando as consequências lógicas da sua fala, sobra uma sensação de que restou muito pouco para ser aproveitado. E o pouco que restou é vago demais.

A filosofia ocidental avançou demais, mas esse misticismo hermético dos orientais seduz muito aos que estão com sede de sentido. Evocam sentimentos bons, difusos, de modo que aquela fala meio sem sentido parece contecer verdades profundas que fazem bem. É como aquela bebida enteógena conhecida como "ahyausca", chamada Santo Daime: provoca sensações boas... E só, ao final!


Vou terminar as minhas impressões sobre J. Krishnamurti, analisando o que ele compreende por "amor". Disse eu que essa era uma palavra plurívoca, que não podia ser usada como chave para tudo. Um guru dizer que a solução para a felicidade é o amor, ou que a verdade é o amor, ou que a liberdade é o amor, simplesmente põe as coisas no campo do óbvio e - tanto pior - do que não pode ser debatido. Ninguém discordará sobre a importância do amor, salvo se comecemos a nos entender sobre o que cada um entende por "amor". Aí o pau canta, não é mesmo?!

J. Krishnamurti tratou sobre o amor em seu livro "Liberte-se do passado", na décima parte. Como sempre, para abordar o tema ele nega o valor da cultura, das compreensões existentes. Para ele, afinal, a cultura é um mal: "Assim, para examinarmos a questão do amor - o que é o amor - devemos primeiramente libertar-nos das incrustações dos séculos, lançar fora todos os ideais e ideologias sobre o que ele deve ou não deve ser. Dividir qualquer coisa em o que deveria ser e o que é, é a maneira mais ilusória de enfrentar a vida". Em seguida, exclui o valor das concepções existentes: "Em primeiro lugar, rejeitarei tudo o que a Igreja, a sociedade, meus pais e amigos, todas as pessoas e todos os livros disseram a seu respeito, porque desejo descobrir por mim mesmo o que ele é".

Ele passa, em seguida, a dizer o que não seria o amor. Diz ele: "No estado de pertencer a outro, de ser psicologicamente nutrido por outro, de outro depender - em tudo isso existe sempre, necessariamente, a ansiedade, o medo, o ciúme, a culpa, e enquanto existe medo, não existe amor". Ou seja, rejeita ele como amor a entrega do homem a uma mulher, e vice-versa, em um relacionamento sadio e profundo de entrega e ajuda.

À falta de melhor conceito, e para forjar algo novo, vai para o exotérico ao dizer o que é o amor: "Não sabeis o que significa amar realmente alguém - amar sem ódio, sem ciúme, sem raiva, sem procurar interferir no que o outro faz ou pensa, sem condenar, sem comparar - não sabeis o que isso significa? Quando há amor, há comparação? Quando amais alguém de todo o coração, com toda a vossa mente, todo o vosso corpo, todo o vosso ser, existe comparação? Quando vos abandonais completamente a esse amor, não existe 'o outro'". Ora, pergunto eu: se não existe o outro, o ser amado foi absorvido pelo eu? Onde fica a polaridade do amor na relação eu-tu? O eu mata o tu, absorve-o?

Bem, aí nosso guru se sai com afirmações vazias, fátuas, que me impressionam pela falta de conteúdo. Assere ele: "Mas, se desejais continuar a descobrir, vereis que o medo não é amor, a dependência não é amor, o ciúme não é amor, a posse e o domínio não são amor, responsabilidade e dever não são amor, autocompaixão não é amor, a agonia de não ser amado não é amor, que o amor não é o oposto do ódio, como também a humildade não é o oposto da vaidade. Dessarte, se fordes capaz de eliminar tudo isso, não à força, porém lavando-o assim como a chuva fina lava a poeira de muitos dias depositada numa folha, então, talvez, encontrareis aquela flor peregrina que o homem sempre buscou sequiosamente."

Resta-me perguntar, quase em desespero: que coisa é o amor, afinal, para o senhor, meu caro guru? A resposta dele me deixou maravilhado: um engodo retórico de dizer o raso parecendo dizê-lo de modo profundo. Krishnamurti nos diz algo absolutamente vazio de sentido: "O amor é uma coisa nova, fresca, viva. Não tem ontem nem amanhã. Está além da confusão do pensamento. Só a mente inocente sabe o que é o amor, e a mente inocente pode viver no mundo não inocente. Só é possível encontrá-la, essa coisa maravilhosa que o homem sempre buscou sequiosamente por meio de sacrifícios, de adoração, das relações, do sexo, de toda espécie de prazer e de dor, só é possível encontrá-la quando o pensamento, alcançando a compreensão de si próprio, termina naturalmente. O amor não conhece oposto, não conhece conflito".

Fiquei chocado com essa definição de amor. Com todo o respeito, só faltou dizer: amor é porra nenhuma! Eu prefiro uma definição tão profunda quanto a que ele ofertou e que concebi agora: AMOR é o vazio do vazio do vazio, invertido e desdobrado no encralacrado da vida. Amar é pegar o avesso do sentimento e embuti-lo no reluzimento da alma até que a luz se faça presente no infinito do ser. Traduzindo: porra nenhuma!

Feitas essas reflexões, peço cuidado aos que se encantam com esses gurus. Os caras dizem muito de coisa nenhuma, mas de uma forma inteligente, exotérica e exótica, num misticismo sem compromisso com a lógica. É isso. E me perdoem os que gostam dessas construções.
 

sábado, 9 de abril de 2011

O Massacre de Realengo

Foi essa semana, no Colégio Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, Wellington Menezes de Oliveira, 23, matou crianças inocentes e, baleado, matou-se. Deixou uma carta, na qual não explica o seu gesto capital, apenas manifestando-se virgem e orientando como proceder com a sua sepultura, além da sua última vontade com relação a um bem imóvel.

Especialistas, autoridades, pessoas do povo, todos perplexos, buscam ou dão explicações sobre o que é simplesmente inexplicável. Se ele não disse em vida as razões pelas quais buscou a morte de inocentes crianças indefesas, tampouco deixou motivos para dar cabo da sua jovem vida.

O que de concreto podemos extrair desse massacre? Quais as lições que ele suscita? Honestamente, nenhuma! Estamos diante do impoderável, de uma mente doente, de desrazões, de um trágico acontecimento sem o mínimo sentido ou significação. Não tinha Wellington uma causa, uma bandeira, uma justificativa. Queria morrer. Mas queria ir embora deixando a sua marca, saindo do palco da vida com estardalhaço.

Talvez algum cretino queira atribuir à religião essa loucura. O fundamentalismo, seja qual for, é sempre uma praga, seja religioso, moral, político, ideológico. Mas nem as possíveis (des)razões religiosas foram por ele expostas.

Na verdade, estamos diante daquilo que os ocidentais, desde o iluminismo, detestam: o mistério. Sim, aquela dimensão humana cuja razão não tem como se ocupar e dar respostas sensatas. O mistério do mal, que fratura a nossa humanidade e torna a razão pequena demais para dar conta.

Bem, estamos todos perplexos. Impactados. E certos que, sim, vivemos um dia de cão, de uma fúria humana incontrolável e inexplicável. O mal existe, sim. E nós o encontramos hoje, sem piedade sequer da inocência.

As dores do mundo

Desde que a razão tentou destruir a cidadela da fé, o Mistério foi enviado ao degredo. A razão pode explicar tudo, desvelando o real, abrindo as suas vísceras e nos dando respostas definitivas. A ciência teria esse poder explicativo, essa capacidade de dar respostas a todas as nossas questões mais profundas.

Essa a razão pela qual, diante de uma tragédia como aquela da Escola de Realengo, em que um maluco ceifou vidas a esmo, sem uma razão, sem um motivo, sem uma justificativa, buscamos tantas respostas, um tanto atarantados.

Certo, podemos dizer que o rapaz era um doidivanas, um psicopata, ou que tudo se deveria ao comércio permitido de armas, ou mesmo que a culpa é da segurança pública... São afirmações sem sentido, decorrentes da estupefação. Queremos falar, falar e falar, com a angústia diante do imponderável, da loucura em seu estado mais bruto e destrutivo.

Mas simplesmente não há respostas possíveis. Podemos dar nome à doença do assassino, podemos falar em bullying, em frustrações profundas que o levaram ao ato insano... Mas nada disso explica ou, o que é mais dramático, nada disso justifica. Porque, sim, é disso que se trata: não buscamos explicações, mas justificativas para uma atrocidade dessa magnitude e irracionalidade.

E a razão há de ceder lugar ao Mistério. O homem, em sua nervura, em sua estrutura, tem dimensões insondáveis, que a razão não poderá nunca alcançar. A sua abertura para o infinito, a sua sede eternidade, a sua espiritualidade, enfim, está além das possibilidades de compreensão. Podemos ter até uma visão dessa rica realidade, mas é uma visada imperfeita, limitada, indireta.

Há em nós abismos profundos e píncaros inalcançáveis. Somos a abertura para Deus, para a eternidade, para o infinito, e a vertigem do desespero, da perda de sentido, da loucura destrutiva.

É aí onde faz sentido para a civilização humana a pergunta que nos inquieta tanto: Deus existe? E essa pergunta, por si só, já traz embutida uma resposta: pode até não existir, mas o problema “Deus” existe em nós, inclusive para o ateu mais militante.
Não problematizamos se “duendes”, “vampiros” ou “fadas” existem. São signos sem referência a objetos do mundo, mas ideias desde sempre irreais. Quando pensamos em um “unicórnio”, vemos um ser metade cavalo e metade homem, que sabidamente é fruto de uma criação humana. Nada obstante, ao simplesmente problematizarmos a existência de Deus, já tomamos a sério a questão. Há um referente para o signo; referente que não se confunde com um objeto concreto, mas que ultrapassa uma ideia ou conceito. Para os cristãos, inclusive, Deus é pessoa!

O Mistério é uma dimensão que não pode ser descartada em nossas vidas, como fuga ao irracionalismo ou ao exotérico, mas como percepção de que somos mais, muito mais, do que uma realidade psicofísica. Somos espíritos, temos uma dimensão que ultrapassa a própria linguagem e a experiência sensível, mas que podemos apreender pela nossa estrutura natural.

O massacre de Realengo nos remete para a brutalidade do inexplicável, para o mistério da nossa existência e, sobretudo, para o Mistério do sentido. Sim, porque o que nos faz diferentes dos outros animais, o que torna possível a própria cultura humana, é a nossa incessante busca pelo sentido da vida e pelo sentido da nossa história.

Termino essas palavras mal escritas, essas ideias dispersas, apenas para constatar, mais uma vez, a perplexidade diante do absurdo e afirmar uma certeza: sem Deus, meus caros, a história humana é simplesmente sem nenhum sentido. As dores do mundo, as nossas mais profundas dores, só encontram sentido naquela cena patética: um homem estiolado, destruido no madeiro da cruz. É esse homem que nos chama e nos interpela para uma certeza: a morte há de ser vencida. A boa nova, o Evangelho, é justamente isso: a promessa da ressurreição!

domingo, 3 de abril de 2011

A religião é matéria apenas privada?

Nos grandes temas públicos da atualidade há sempre questões morais envolvidas. Seja no campo da engenharia genética, na medicina, no direito, na economia, estamos sempre em face de relevantes questões de natureza ética e moral, desafiando cada vez mais debates em razão de vivermos em um mundo difuso, policêntrico e sem monopólio da última palavra. É dizer, um mundo desmanchado no ar, como profetizara Marx.

Quando se discute sobre aborto, eutanásia, homossexualidade, utilização de embriões, celulas-tronco, há sempre grandes discussões, mais da vez apaixonadas, em que diferentes grupos de pressão digladiam-se no manejo de argumentos com fundamentação as mais diversas, que vão desde um ceticismos ético extremado até um fundamentalismo religioso, duas pontas extremas que se tocam no mesmo irracionalismo.

Nesses debates, alguns deles submetidos a apreciação do Poder Judiciário, não raro busca-se eliminar, desde o início, qualquer possibilidade de uso de argumentos religiosos, a um duplo fundamento: (a) religião seria matéria privada, de foro íntimo; e (b) as proposições religiosas seriam inverificáveis, partindo de uma verdade revelada insuscetível de ser comprovada. Razão pela qual, tido por irracional, o discurso religioso passa a sofrer uma discriminação preconceituosa, havendo constante tentativa de expurgá-lo do debate público.

Na verdade, a nossa sociedade dispersa e confusa rejeita, de antemão, a racionalidade de qualquer discurso ético e, desse modo, expurga desde já qualquer validade racional do discurso religioso. Isso se percebe em qualquer debate público, quando o interlocutor deseja constranger as razões do outro, saca logo o que seria um forte ataque final: "Ah, mas essa fala sua tem conteúdo religioso...".

Há pouco, travei interessante debate no Twitter sobre o chamado "Kit de Combate à Homofobia", um programa equivocado do Ministério da Educação, que pretende combater a homofobia estimulando nas escolas públicas a cultura da homossexualidade, com filmes de péssimo gosto e moral duvidosa. Filmes que, em última análise, dizem que é o máximo ser gay e questionam - vejam que estupidez - até mesmo a separação de banheiros entre masculino e feminino...

O vídeo abaixo reproduz parte da sessão da Comissão de Legislação Participativa da Câmara, ocorrida no dia 23 de novembro de 2010, em que André Lázaro, então secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, fala sobre o material "didático", enfatizando que a discussão relevante mesmo na sua confecção foi sobre “Até onde entrava a língua” num beijo lésbico.


No dabate no Twitter, acusavam-me - parece o melhor termo - de fazer uma crítica a partir de um discurso religioso, que seria - penso eu - irracional, conservador, ultrapassado e opressor. Sendo a religião assunto privado, não poderíamos, sob pena de invalidar de antemão os argumentos, falar em opções religiosas ou mesmo morais.

E qual o meio próprio para afastar o cognitivismo e racionalidade do discurso moral e religioso? A fuga para o naturalismo, de um lado, e para o relativismo moral, de outro lado. O naturalismo aparece muito forte ao se afirmar que a homossexualidade é legítima porque é natural; o relativismo moral, ao se afirmar que tudo que não prejudique o outro pode ser feito (um argumento muito interessante, sobre o ponto, pode ser resumido assim: "tenho o mesmo direito de debater sobre a homossexualidade que teria em debater sobre a reforma do banheiro do meu vizinho").

O problema do argumento naturalista é posto quando confrontamos outras situações que desafiam a sua absurdidade, como a pedofilia, o incesto, o homicídio... Homens matam, logo é uma conduta natural e não pode ser discutida. Pai adulto pode desejar manter relações sexuais com a sua filha adulta, por ser algo natural, não seria possível de análise moral. Os tabus universais das civilizações ruiriam todos mediante o recurso retórico ao naturalismo.

De outra sorte, mais refinada teoricamente, seria a objeção do não-cognitivismo ético, que diz serem as proposições éticas inverificáveis. Hirlary Putnam, filósofo americano, é crítico contundente dessa forma niilista de pensar, sustentando que os debates éticos "são desacordos racionais que requerem uma decisão que chegue até onde se encontram as melhores razões" ("Valores e normas", in: HABERMAS, Jürgen e PUTNAM, Hilary. Normas e valores, Madri: Trotta, 2008, p.61). Ou seja, podemos sustentar, sim, um debate racional consistente em questões éticas e religiosas, que estão na nervura do mundo da vida e são responsáveis por padrões de comportamento aceitáveis no meio social.

Ser contrário ao incentivo da cultura homossexual não é ser homofóbico, como ser contrário ao sionismo não é ser antissemita. É preciso que o discurso da intolerância não seja incentivado nem contra nem pró determinadas formas de pensar. E o Kit Contra a Homofobia, feito pelo MEC, não apenas não contribui com os fins a que visa, como ainda causa espécie até mesmo a quem, não sendo homossexual, tem simpatia pela causa gay. Ter simpatia pelo tratamento acolhedor não é o mesmo que estimular, em pessoas em formação, a cultura gay.

Neste passo, fico com o discurso religioso e moral, que apela ao diálogo sincero, ao acolhimento, mas sem militância e políticas oficiais de estímulo às crianças e adolescentes, inclusive mostrando, em vídeos, beijos (com ou sem língua) entre casais gays. E, sim, a religião tem todo o direito de se manifestar sobre o tema, porque ela é sim essencial como modeladora da vida social e do debate público.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um problema Universal

Importantes denominações religiosas evangélicas andam com sérios problemas legais nos EUA, como a Igreja Renascer em Cristo e, agora, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A igreja de Edir Macedo, cujo império no setor de comunicação impressiona (Rede Record de Televisão, RecordNews, portal R7 e, comenta-se, a implantação de uma rede de rádios de notícias, a exemplo da CBN e BandNews), está sendo investigada por envio ilegal de dólares aos EUA. Se entrou por lá ilegalmente, saiu daqui também ilegalmente (evasão de divisas).

A Folha de São Paulo revela que doleiros já aceitaram a delação premiada para falar sobre o envio de dólares da IURD para os EUA (aqui). Somada à investigação sobre a celebração de contratos de hipoteca sem a autorização dos fiéis, em que a IURD teria levando elevada soma em dinheiro nos EUA, essa passa a ser mais uma fonte de preocupações dos líderes da Universal, que já respondem a processo promovido pelo Ministério Público de São Paulo, instituição que coopera com o Ministério Público americano.

Dirão, é certo, que a Igreja do Senhor foi perseguida; não, porém, por evasão de divisas...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Envelhecer e morrer

"- Papai, você vai ficar velho?". Olhei para Maria Eduarda surpreso com a pergunta. Ela me fitou e, antes que pudesse responder, pespegou-me outra: "- Papai, você vai morrer?". Os olhinhos miúdos esperavam uma resposta negativa, como se a eterna juventude pudesse ser adquirida nalguma esquina. Sorri-lhe um sorriso acolhedor, condescendente. "- Sim, filha, o papai vai ficar velhinho e, um dia, vai morrer. Todos nós passaremos por isso, inclusive você. Mas, olhe, vai demorar muiiito", assim mesmo, com ênfase no "i", para dar a sensação de demora sem fim.

A consciência da morte começa precocemente em nós, abrindo-nos para a sede do infinito, esse sentimento que nos diferencia de tudo: os animais, ainda que tenham consciência, ainda que tenham capacidade intelectiva, vivem apenas o presente, o hoje da existência. O ser humano, não, ele olha para o futuro, tentando enxergá-lo.

A pergunta da minha filha não é simples. Há profundidade nela. Velhice e morte são símbolos da corrupção da vida. A diferença entre nós e as crianças é justamente esta: elas se permitem perguntar sobre o que parece óbvio, sem adormecer o que as incomoda. Nós, os adultos, deixamos essas questões em stand by, passando por elas como não existissem, como se morte, por exemplo, não estivesse nos acompanhando dia a dia.

Certa feita, Ana Paula começou a cantar para Maria Eduarda músicas religiosas. Lá para as tantas, cantarolou "Mãezinha do céu, eu não sei rezar / só sei dizer / eu quero te amar / azul é o teu manto / branco é o teu véu / Mãezinha eu quero te ver...". Uma abrupta parada. Olhou para mim com enormes olhos, uma angústia de mãe: "- Não, não agora. Essa parte do ver lá no céu deve ser mudada...". Sim, Ana Paula quer ver Nossa Senhora no céu, em um futuro beeem distante. Também quer que a Maria Eduarda a veja, mas não tão cedo; quem sabe depois dos 80 anos...

Sim, temos uma imensa sede do infinito. Temos uma sede difusa do que tem nome, tem presença, tem constância em nossa história: Deus! É Nele que o envelhecer se transforma em juventude da alma, que a morte é vencida, que a ressurreição é mais que promessa: é fato! É Nele que o homem caído, estiolado pelo pecado, divinizou-se no homem glorificado em Cristo.

Mãezinha do céu, nós não sabemos rezar e queremos, sim, vê-la lá no céu. Reze por nós, media por nossas faltas, sê advogada nossa. E protege nossa filhinha com o seu imenso amor de mãe.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Igreja Universal e doleiros

Mais uma da Universal do Reino (de quem?):

Doleiros dizem que Igreja Universal enviou R$ 400 milhões ao exterior

quarta-feira, 28 de abril de 2010 | 5:13

Bruno Tavares e Marcelo Godoy - O Estado de S.Paulo

A Igreja Universal do Reino de Deus é acusada de ter enviado para o exterior cerca de R$ 5 milhões por mês entre 1995 e 2001 em remessas supostamente ilegais feitas por doleiros da casa de câmbio Diskline, o que faria o total chegar a cerca de R$ 400 milhões. A revelação foi feita por Cristina Marini, sócia da Diskline, que depôs ontem ao Ministério Público Estadual e confirmou o que havia dito à Justiça Federal e à Promotoria da cidade de Nova York.

O criminalista Antônio Pitombo, que defende a igreja e seus dirigentes, nega as acusações.

Cristina e seu sócio, Marcelo Birmarcker, aceitaram colaborar com as investigações nos dois países em troca de benefícios em caso de condenação, a chamada delação premiada. Cristina foi ouvida por três promotores paulistas. Ela já havia prestado o mesmo depoimento a 12 promotores de Nova York liderados por Adam Kaufmann, o mesmo que obteve a decretação da prisão do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), nos Estados Unidos - ele alega inocência.

Os doleiros resolveram colaborar depois que a Justiça americana decidiu investigar a atividade deles nos Estados Unidos com base no pedido de cooperação internacional feito em novembro de 2009 por autoridades brasileiras. Em Nova York, eles são investigados por suspeita de fraude e de desvio de recursos da igreja em território americano.

Seus depoimentos foram considerados excelente pelos investigadores. Ela afirmou aos promotores que começou a enviar dinheiro da Igreja Universal para o exterior em 1991. As operações teriam se intensificado entre 1995 e 2001, quando remetia em média R$ 5 milhões por mês, sempre pelo sistema do chamado dólar-cabo - o dono do dinheiro entrega dinheiro vivo em reais, no Brasil, ao doleiro, que faz o depósito em dólares do valor correspondente em uma conta para o cliente no exterior. Cristina disse que recebia pessoalmente o dinheiro.

Subterrâneo. Na maioria das vezes, os valores eram entregues por caminhões e chegavam em malotes. Houve ainda casos, segundo a testemunha, que ela foi apanhar o dinheiro em subterrâneos de templos no Rio.

Cristina afirmou que mantinha contato direto com Alba Maria da Silva Costa, diretora do Banco de Crédito Metropolitano e integrante da cúpula da igreja, e com uma mulher que, segundo Cristina, seria secretária particular do bispo Edir Macedo, fundador e líder da igreja.

De acordo com a testemunha, ela depositou o dinheiro nos EUA e em Portugal. Uma das contas usadas estaria nominada como “Universal Church”. Além dela, os promotores e procuradores ouviram o depoimento de Birmarcker. Ele confirmou a realização de supostas operações irregulares de câmbio para a igreja, mas não soube informar os valores.

Os doleiros Cristina e Birmarcker estão na relação de investigados no Caso Banestado (inquérito federal sobre evasão de divisas). Em 2004, foram alvo da Operação Farol da Colina - maior ofensiva da história da Polícia Federal contra crimes financeiros no País. Cristina e Birmarcker foram presos na ação e hoje respondem a processo na 2.ª Vara Federal Criminal de São Paulo.

No Brasil, Macedo e Alba estão entre os diretores do chamado Grupo Universal processados sob as acusações de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro obtido de fiéis por meio de estelionato. Alba representaria no País as empresas Investholding e Cableinvest, ambas sediadas em paraísos fiscais. A acusação sustenta que elas seriam usadas para a lavagem de dinheiro. Aqui



sábado, 24 de abril de 2010

Mulheres e terremotos

O Aiatolá tem razão. Essas mulheres são capazes de causar vulcões, terremotos...

"Muitas mulheres não se vestem com modéstia, desencaminham os homens, corrompem sua castidade e disseminam o adultério pela sociedade, o que acaba aumentando os terremotos."

Kazem Sedighi, aiatolá iraniano, explicando recentes atividades tectônicas


Só mesmo no Irã podia existir uma figura dessas...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Para a ressurreição

A morte é sempre um sinal de contradição: somos ávidos por vida, temos sede do amanhã, mas há ali o ponto final da história, das aspirações, dos sonhos. É o ponto final de uma enredo inconcluso, de amores pendentes, de problemas não resolvidos, de desejos insatisfeitos, de projetos inconclusos. A morte nos põe diante da nossa finitude, aquela impotência que é o desfecho daquilo que somos.

Heidegger dizia que o homem é o "ser-para-a-morte", sendo o traço fundamental do Dasein (o ser-aí), do homem, a sua finitude. Seríamos irremediavelmente destinados ao fim. Insisto, porém, que o homem é o "ser-para-a-ressurreição"; o que marca a sua existência finita é a sede do infinito, é a sua abertura vertical para além dele, para além do que somos em nossa mundanidade. Sim, em nossa vivência com os outros desde já buscamos nós mesmos para além de nós, fazendo parte de uma tradição que nos antecede e que nos ultrapassará no tempo linear (diacrônica e sincronicamente), já agora com as nossas marcas na história, com o que buscamos imprimir de nós mesmos no mundo que estamos inseridos.

Ansiamos por vida, pela eternidade, pelo gosto de futuro. O nosso hoje pressupõe já sempre o amanhã, os projetos que consomem a nossa energia e as nossas esperanças. E a morte é a ruptura com a nossa natureza, porque não somos destinados ao fim, mas à eternidade que faz morada em nosso coração como um desejo ardente, constitutivo do que somos. Fôssemos para a morte, tudo nos seria permitido! São Paulo já dizia na célebre frase "comamos e bebamos", porque nada há para esperar, nada há para sonhar, nada há que nos chame ao heroísmo das renúncias tantas, do apego a posturas morais, do respeito às virtudes.

A ressurreição é o compromisso com a nossa história. Deus se esvazia, assumindo o Dasein, a finitude, a crueza da vida para nos chamar à vida em abundância. Na ressurreição de Cristo a humanidade encontrou o seu ponto alto: em Cristo, Deus assume para si a humanidade.

Somos seres para a ressurreição, para a esperança, para o futuro intemporal e atemporal. O futuro do Reino!

Sobre o tema, em meu blog: aqui e aqui.

P.S.: Escrito em homenagem a Luís Abílio Neto, ex-governador do Estado de Alagoas, falecido ontem.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Universal: aula para tirar dinheiro dos fiéis em tempos de crise

Uma lição de fé e esperança no Reino de Deus: como roubar o povo de Deus. O autodenominado bispo Romualdo Panceiro dá uma aula para tirar o dinheiro dos pobres que, com fé, procuram a solução dos seus problemas na Universal:

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ainda a pedofilia dos padres de Arapiraca

No blog do Célio Gomes foi publicada a carta de Dom Valério Breda, bispo diocesano de Penedo, sobre o escândalo dos padres de Arapiraca envolvidos em pedofilia. A carta afirma o seu desconhecimento sobre as denúncias de pedofilia antes da veiculação da matéria pelo SBT. Informa as medidas tomadas pela Diocese de Penedo para processar canonicamente os padres acusados, dando-lhes o direito de defesa, porém sem qualquer condescendência para com eles.

No blog, os comentários de alguns leitores foram simplesmente horríveis e cínicos (aqui). Como católico, ingressei com um comentário, que reproduzo abaixo.

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Adriano Soares da Costa:

Os inimigos da Igreja buscam atacá-la, minar a sua credibilidade construída em 2000 de história. Há erro de maus padres que negam a sua vocação e a sua fé, praticando pedofilia? Que sejam punidos, respeitado o direito de defesa. Punidos civil, penal e canonicamente. O pedófilo, seja ele casado ou solteiro, seja ele homossexual ou heterossexual, pratica um crime, mais grave ainda quando usa da sua posição de hierarquia para submeter os inocentes aos seus instintos (como pais, religiosos etc.). Dizer que a pedofilia é uma praga dentro da Igreja é uma rematada mentira: há padres, como há pastores, militares, promotor de Justiça (casado e com filhos), que são pedófilos e merecem ser punidos. Nada tem a ver a pedofilia com o celibato ou com o homossexualismo: a perversão da pedofilia não é um mal restrito a alguma instituição ou opção sexual.

Os que criticam a Igreja ou a todos os padres indistintamente não passam de pistoleiros da honra alheia, buscando satisfazer interesses outros. Não têm legitimidade nem credibilidade. Ou são tolos que atacam a tudo, até o que não entendem, ou são malintecionados.

sábado, 3 de abril de 2010

Bento XVI, batismo e ressurreição

Bento XVI está agora fazendo a homilia na Virgília da Páscoa (a Canção Nova transmite ao vivo).

O que acontece no batismo é o início do processo que dura toda a vida. No batismo mudamos as vestes do homem velho para irmos vestindo as vestes de Cristo. O homem são as suas qualidades melhores. O batismo é o sentido da libertação daquelas vestes velhas que devem ser depostas. E citando Paulo, Bento XVI dá concreção ao sentido das vestes velhas: os pecados que nos escravizam. Caridade, alegria, mansidão, continência, esperança, fé são as vestes novas que Deus nos dá pelo batismo. O batizado entrega a morte junto a Cristo e com Ele passa para a vida nova.

O Papa faz aquela paulina relação entre o batismo e a morte: o batismo é morte e ressurreição! Pelo batismo morremos no pecado para ressuscitarmos com Cristo. É o batismo essa veste nova que nos introduz na festa do Reino.

Uma bela reflexão neste sábado santo!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Semana Santa

Senhor, eu te amo. Sou pequeno, pecador, com profundas limitações. Muitas vezes, deixo de fazer o bem que quero para fazer o mal que não quero. Outras tantas, termino por fazer o mal que quero, porque sou mesquinho, porque não deixei que o teu amor me tomasse por inteiro, ensinando-me o caminho. Orgulhoso também sou, por vezes. Mas tento não ser, Meu Deus.

Pai, por ser limitado, preciso do Salvador. Por ser pequeno, preciso crer que o Senhor me amou tanto, que foi capaz de dar a vida do seu Filho em sacrifício perfeito por nós. Sim, por isso posso ser feliz, mesmo pecando diante do Senhor: porque o seu amor não tem limites, porque o Senhor me conhece inteiro, porque o Senhor, enfim, sabe tudo sobre mim, sabe o que vai no meu coração.

Meu Senhor e meu Deus, eu o amo. E peço que nesta Semana Santa me ensine a rezar, ensine a ouvir, ensine que a cruz é ponto de partida da salvação, mas é na ressurreição que encontramos o amor consumado, a fé em plenitude, a humanidade em pé, glorificada no e pelo Amor.

Amém!

Pessoal, a Semana Santa é uma ótima oportunidade para uma reflexão sobre o sentido da vida. Cristo ilumina tudo. No mistério da cruz, Ele nos ensina a plenitude do amor, o sentido último da entrega, a preocupação com o outro. Mais ainda: na cruz, Cristo nos aponta para o Reino, para o amor do Pai.

Aproveitemos esses dias para refletirmos sobre o que somos e sobre a nossa vida. A oração que inicia esse post é uma oração que pode ser feita por qualquer pessoa: todos somos pequenos diante de Deus, do seu amor e da sua misericórdia.

Paz!

sábado, 27 de março de 2010

Bento XVI: uma declaração de amor

Um belo texto de Dom Henrique Soares, bispo auxiliar de Aracaju, sobre o Papa Bento XVI. É um texto lindo de um homem autêntico, em que o o bispo fala sobre o seu amor pelo Papa. Lendo, podemos conhecer pelos olhos de um católico fiel a figura enorme de Joseph Ratinger:

Meu Bento XVI

Nunca escondi meu profundo amor por Joseph Ratzinger. É antigo: desde 1981. Em novembro daquele ano, seminarista em férias, li um texto seu. Lá havia uma frase do então Cardeal Arcebispo de Munique: “Ninguém é maduro de verdade até que tenha enfrentado sua própria solidão!” Meus olhos marejaram (como marejam agora, neste momento). Pensei: quem afirma isto só pode ser um homem de verdade, só pode ser alguém que tem uma profunda experiência de Cristo! Eis aqui um homem de Igreja que continuou homem, com um coração, com sensibilidade, com retidão!

Um ano depois, dei com uma entrevista do Cardeal, agora nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ele afirmava: “O primeiro dever do Bispo é defender a fé dos pequenos contra a prepotência de alguns teólogos...” Vibrei de alegria! O homem era realmente católico em cada fibra: sabia que a fé supera a razão e que o Mistério não se apreende em profundidade a não ser de joelhos e bebendo a límpida fé da Mãe Igreja, fé que se manifesta sobretudo nos pequenos, nos simples, no Povo de Deus em seu dia-a-dia.

Ratzinger tornou-se para mim uma referência. Doíam-me tanto as calúnias contra ele, as afirmações de muitos adeptos da Teologia da Libertação, que deformavam a imagem e o pensamento do Cardeal de modo vergonhosamente desonesto. Lembro-me das declarações pervertidas de Leonardo Boff e companhia a respeito do Cardeal Prefeito que, generosamente, ajudara ao próprio Boff nos tempos de estudo na Alemanha... Aqui no Brasil, as editoras católicas o censuravam metodicamente... Se algum seu escrito perdido aparecia, era dos menos expressivos e importantes... A imprensa só falava do Cardeal para criticá-lo, insuflada por certos setores da Igreja no nosso País...

A coisa intensificou-se quando da doença de João Paulo II. Agora era preciso queimar de vez o Cardeal da Inquisição, o Desumano, o Ditador... Foi uma pesada campanha dentro e fora da Igreja, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa... As pessoas nunca leram nada de Ratzinger, mas o antipatizavam de todo o coração. Recordo do conhecido jornalista Alexandre Garcia, que confessou ter comprado livros de Ratzinger e lido seus textos. Tomou um susto: o homem que escrevera aquelas coisas não era nada daquele monstro que diziam... Eis: o preconceito, filho da ignorância e irmão da má-fé!

E veio o Conclave. Aquele que no céu tem o seu trono riu-se dos planos dos homens e zombou dos grandes e sabidos deste mundo. Ratzinger tornou-se Bento XVI! Ouvi entrevistas, vi matérias na imprensa nacional e internacional simplesmente vergonhosas, vi entrevistas de teólogos – recordo de um da PUC de São Paulo à TV alemã – simplesmente revoltantes: mentirosas, desonestas, caluniadoras, sem caridade...

E aí está Bento XVI: amado por seu rebanho e por tantas pessoas de boa vontade, pela gente simples, cristã, de DNA católico; homem profundo, mergulhado em Cristo, nele alicerçado; homem doce e ao mesmo tempo tão firme; homem que não tem medo de proclamar a verdade, sem gritar, sem impor, mas sem jamais escondê-la: mostra-a inteira, límpida, serena, cortante, libertadora!

No tocante à vida moral do clero, menos de um mês antes de ser eleito Papa, na via-sacra do Coliseu, afirmou sem meias palavras, desgostando a muita gente: “E que dizer da terceira queda de Jesus sob o peso da cruz? Pode talvez fazer-nos pensar na queda do homem em geral, no afastamento de muitos de Cristo, caminhando à deriva para um secularismo sem Deus. Mas não deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se distorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison – Senhor, salvai-nos (cf. Mt 8, 25)".

Um homem assim não passa despercebido: ou é amado ou profundamente odiado! E há muitos que odeiam este santo e bendito Papa! Foi ele que, logo ao assumir, suspendeu o Padre Marcial Maciel, sacerdote famoso e muito apreciado por João Paulo II (o Papa João Paulo desconfiava muitíssimo de acusações na área de pedofilia, porque os comunistas poloneses utilizavam muitas acusações falsas como modo de desmoralizar o clero polaco. Isto criou em João Paulo II uma tendência a não dar muito crédito às acusações. Sempre que via um padre zeloso ser acusado, a tendência era logo recordar as mentiras dos comunistas poloneses... daí, a lentidão do processo do Pe. Macial. Foi um erro compreensível, mas um erro). Bento XVI não! Suspendeu o Pe. Maciel e determinou que vivesse seu fim de vida de modo recluso e sem contato algum com os fieis, numa vida de oração e penitência. O mesmo com o conhecidíssimo italiano Pe. Luigi (Gino) Burresi. Sua punição foi severíssima. Aos Bispos sempre recomendou tolerância zero com a pedofilia. Em seus pronunciamentos sobre o tema, nunca, Papa algum foi tão direto, claro e radical: na Igreja não há lugar para pedófilos. Os pedófilos devem ser demitidos do estado clerical e os Bispos devem comunicar à justiça comum! Tanto que em seu pontificado os casos de pedofilia desabaram...

Mas, nada disso interessa à imprensa, sobretudo aos jornais anticatólicos como New York Times, La Repubblica, El País, Spiegel... Para estes não interessa a verdade: interessam os fatos distorcidos, as meia verdades que, somadas, dão uma enorme mentira, uma triste difamação, uma calúnia monstruosa... O mesmo fizeram com Pio XII... Qual o objetivo? Desautorizar um Papa incômodo, cuja única preocupação é testemunhar o Cristo com toda a inteireza da fé católica. E nada é tão incômodo e antipático quanto isto! Por isso mesmo, tudo quanto este Papa diga ou faça é distorcido, deformado e, depois, duramente criticado, até ao paroxismo...

Mas, Bento XVI seguirá seu caminho! No meu primeiro encontro com ele como Bispo novo com o Sucessor de Pedro, disse-lhe: “Santo Padre, o Povo de Deus lhe quer bem! Nós rezamos por Vossa Santidade, nós estaremos sempre ao lado de Vossa Santidade!” Ele sorriu aquele sorriso tímido, mas tão humilde e franco e disse: “Obrigado! Muito obrigado! Eu preciso tanto do vosso sustento!” Só quem não o conhece poderia pensar que ele se dobra! Ninguém é tão perigosamente livre, é tão docemente forte quanto o homem que fez de Cristo o seu refúgio, a sua luz, a sua certeza! Bento XVI – santo Bento XVI, bendito Bento XVI! – é assim.

Hoje, 29 anos depois daquele 1981, quando, de coração apertado, imagino a dor e a solidão deste homem de Deus, consolo-me pensando no gigante que ele é e vem-me forte, mansa, decidida, certa, a sua palavra: “Ninguém é maduro de verdade até que tenha enfrentado sua própria solidão!” Bento XVI é maduro, Bento XVI não tem medo da própria solidão, pois ela é toda povoada por Cristo!

Deus o abençoe sempre, Padre Santo! Deus o abençoe e o livre das mãos de seus ferozes e maldosos inimigos!