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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Éramos..., somos...

Éramos palavras, frases soltas./
Éramos vontades sem as roupas./
Éramos um tempo sem distância/
Éramos a ausência na constância.

Somos no presente os sonhos feitos;/
o amor, o querer, quadro sem defeitos./
Somos a verdade que em nós se impôs/
a eternidade plena sem que haja um depois.

domingo, 11 de novembro de 2012

TONS CINZAS

Olho as coisas que se põem para serem vistas. Elas não sou eu; elas se fazem em mim parte de quem sou noematicamente.


Olho a vida passando como se não fosse minha. Sou um observador atônito de quem sou. Parvo. Não a domino qual montaria bravia a querer derrubar-me.

Olho quem sou e me espanto: há tantas idades em mim. Sou a criança da minha aldeia, correndo pelas ruas que me pareciam imensas. Sou o jovem angustiado que não via sentido algum nas ruas que andava. Sou o adulto perplexo e cheio de sonhos juvenis. Sou o velho que me fiz ao longo da trajetória.


Olho as minhas mãos. Espantam-me os primeiros sinais do tempo que vejo nelas. O tempo escorre por entre os dedos. São os minutos água escorrendo sem que possa dominá-los. E temo olhar para o espelho e já não me reconhecer.


Olho... Paro diante de mim mesmo. Brota em mim um sorriso no canto da boca. Há uma expressão triste, mas um quê de esperança. E sigo, porque o tempo me consome e a vida que há em mim pede mais vida, pede mais de si mesma. Não quero mais os tons cinzas. Abro a janela. O sol entra. Sinto vontade de andar e seguir. Porque há tantas razões para que o caminho se faça caminhada. E vou.

sábado, 10 de novembro de 2012

DEIXA

Deixa que meus braços alcancem o teu corpo sem que haja resistência. Qual exército dominado, deixa que as tuas defesas estejam submissas, porque doce é o sabor da entrega.

Deixa que os meus olhos penetrem os teus e dominem a tua alma, porque nesse momento não haverá nada entre mim e ti, senão a transparência do momento intemporalizado.

Deixa que meus lábios digam indecências, sejam impudicos e que as palavras ganhem novo sentido ao invadirem as tuas entranhas, molhando as tuas reentrâncias e fazendo o teu sangue pulsar.
Deixa que nossos corpos se confundam e se façam misturados, em movimentos improváveis que a anatomia não ousa explicar. Fazendo-nos um, que sejamos nós mesmos, sem confusão de almas mas misturados em desejos e gemidos sem pejo algum.

Deixa, afinal, que possamos nos amar sem medo, sem mistérios, sem recalques e, sobretudo, sem nos perder de nós mesmos diante dos desafios da vida. Que o amor se faça amor, que a entrega seja entrega, que o ciúme seja apenas o sinete de uma vida que se quer vivida na reciprocidade dos sentimentos.

E, deixando-se assim, que sejamos fortes. Fortes no caminhar, fortes no desbaste do orgulho, fortes na certeza de que somos melhores quando estamos um.  

terça-feira, 1 de maio de 2012

Palavras...

Palavras para alma são carinhos, são espinhos
São palavras
Entram pelo ouvido ou perfuram nossos olhos
alarido, gemido, ais,
São palavras
Ditas, escritas ou proscritas
nos invadem e consomem
São palavras.
Bem ditas, malditas, ciciadas
Nos dominam ou crepitam
São palavras.
Que delas cuidem os que as usam,
lambuzam a blusa ou ajudam o despir
Porque são palavras que fazem o agir...

Amar amar a mulher amada



Não existe relacionamento amoroso perfeito, sem choques ou sem dor. Se perfeito ele for, se não houver momentos de desentendimentos ou cobranças, é porque ambos se acostumaram com o que têm, não sonham mais, não se olham mais, já estão empanturrados do vazio da relação.


Uma relação se desgasta mais pelo adormecimento do que pelos conflitos. Quando há o comodismo, o dar de ombros, o "tanto faz", é porque o outro já não importa tanto; o convívio passou a ser natural, como natural é a porta de madeira na entrada da casa. Está ali, sem que nem sempre nos demos conta dela... O "estar ali" é o costume morto, como a aceitação da camisa poida, o andar com a meia levemente furada, o comer o cuscuz já frio. Nada importa porque simplesmente já não chama a atenção.



Melhor os desentendimentos. Claro, no limite do respeito, decorrendo da vontade de que o outro possa refletir sobre algo. O conflito é, muitas vezes, produtivo para o casal, desde que haja amor e a vontade sincera de construir as pontes para o outro. Brigar por brigar é tão vazio como o estar por estar; é a morte inquieta da relação, a última convulsão.



O fundamental em uma relação a dois é que haja amor inquieto. O amor dormente, o amor acomodado, o amor saciado, o amor silencioso, o amor sem tesão, o amor satisfeito... são expressões do amor moribundo. A inquietude significa o importar-se, o sair de si, o ter medo de perder, o enciumar-se, o cuidar, o nutrir, o buscar, o estar vigilante... É o amor em estado de ebulição!



Sim, cuidado! A mulher é um bicho estranho. Ela nunca esquece o que lhe é dito; ela guarda todas as suas mágoas em um pote, dentro de um cofre com segredo criptografado. E leva consigo aquelas mágoas até onde o tempo lhe dê algum tino para, na primeira oportunidade, cobrar com juros e correção monetária aquela ofensa sentida. A mulher ama com a mesma intensidade com que cobra e guarda...



Se lá para as tantas você diz "eu te amo" e, antes, fez alguma observação ou brincadeira que lhe desagradou, ela apenas dará atenção ao desagrado; o "eu te amo" cai no abismo das suas cobranças, dos seus reclamos e, no mais da vez, da sua vitimização. Ah, essa é uma poderosa arma para a mulher, porque nos põe frágeis, pequenos, se ela se mostra atingida por algo dito ou feito por nós, gerando em nós a mais profunda compunção.



Desisti de tentar compreender a mulher amada. Quanto mais amada, quanto mais nos damos, mais ela nos cobra e exige, mais ela nos nega ter recebido o amor e a atenção que damos, mais ela nos ataca e exige, fazendo-se de vítima da secura de um amor viçoso e cheio de vida, que ela finge não ver...



É por essas e outras que amo amar a mulher amada. Porque só ela pode ser assim tão contraditória, tão cheia de misteriosos caminhos, tão complexa em nos dar abrigo sem nos tirar do relento, tão rica, sendo dadivosa, e tão pobre, sendo fria quando quer ser, a nos fazer mendigos dos beijos, carinhos e cuidados...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Era para ser...

Era para ser como o encontro do rio com o mar. A convulsão do encontro antes da calmaria profunda, que é a vocação dos amantes.

Era para ser como um sorriso aberto, largo, pleno, do que se deixou encantar pela entrada dos olhos, pelo que se viu esperado e achado entre as esquinas da vida.


Era para ser como a estrela primeira a brilhar, quando a tarde começa a dormir e a noite lhe toma o lugar e ilumina o céu com o descortinar das estrelas.


Era para ser como um sonho bom, que deleita o sono profundo e faz com que o acordar seja pesaroso e triste.

Era para ser como a alegria de um momento que se eterniza em nós, para além do tempo e das vicissitudes da vida.

Era para ser... E ao não ser, tanto se perdeu, tanto ficou por ser vivido e feito. E restou o sorriso que não veio, o olhar que não brilhou, a estrela que ficou submissa às nuvens, a alegria que não se viveu.

E a vida seguiu assim, como uma nau sem velas, levada pelo fluxo das marés, sem ter sonhos para sonhar e terras novas a descobrir.

E veio o tempo... E ao olhar para trás, tudo era apenas a ausência do que não foi. E o viver - esse dom maravilhoso - ficou como um projeto não realizado, um passar de dias sem sentido e sem fé. E tudo era nada, e tudo era desilusão, e tudo era a certeza dos erros das dúvidas e dos medos.

sábado, 19 de novembro de 2011

Vida

A vida tem esquinas, tem caminhos largos, tem atalhos...

Há vida! Na palavra que malfere o coração,

no olhar que perdeu o brilho e se fechou,

no sorriso que empalideceu e murchou.

As esquinas iniciam possibilidades;

os caminhos largos, a segurança do já pronto;

os atalhos, os riscos das facilidades triviais.

Quem se perde de si perde o olhar, o sorriso e o coração.

Há vida! Há sempre a chance de recomeçar...