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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Homem sem humanidade

Ele entrou na sala de audiências com algemas, acompanhado de dois policiais militares. Sentou-se na cadeira dos réus. A acusação era de que havia praticado latrocínio sem dar a vítima, um vigia noturno, chances de se defender. Matara para roubar um revólver e praticar crimes naquela região de Penedo. Promotor e defensor público em seus lugares, iniciei o interrogatório com a qualificação do acusado e as perguntas de praxe do Código de Processo Penal.

Naquela quadra, eu tinha 27 anos e era juiz de Direito em Penedo. O Fórum estava em reforma e estávamos em um casarão antigo, em condições precárias de trabalho. No chão, sem que nos desse conta dos riscos que corríamos, uma caixa de papelão cheia de armas (facas, foices, estiletes, revólveres enferrujados) de outros processos, custodiadas como provas.

Olhei para aquele homem em minha frente. Rosto moreno, com algumas marcas nas maçâs do rosto de pano branco, cabelos bem crespos aparados, relativamente magro, porém forte, com um perfil um pouco atlético. Vestido de camisa de algodão branca e bermuda até os joelhos, devia ele ter entre 20 a 25 anos.

À medida que fazia as perguntas protocolares, ele respondia de cabeça baixa. Se sabia sobre os fatos que lhe eram imputados, se era verdadeira a acusação que pesava sobre si, etc. Quando iniciei a detalhar os acontecimentos da noite do crime, que ele negava ter praticado - mesmo com todas as provas consistentemente demonstrando o contrário -, ele mudou o comportamento. Já não respondia de cabeça baixa. Levantou o rosto e, pela vez primeira, vi os seus olhos.

Era um olhar metálico, frio, sem alma. Não parecia haver vida humana ali, diante de mim, mas um animal enjaulado, sem culpas ou remorsos, sem sentimentos que lhe dessem qualquer traço de humanidade. Impressionou-me sobremodo aquele olhar. E ele cuidava em responder me olhando firmemente nos olhos, nitidamente buscando me intimidar para que as minhas perguntas terminassem logo ou para que eu não fosse detalhista.

Ordenei, de inopino, que ele respeitasse o juízo e baixasse a cabeça. Ele obedeceu. Continuei o interrogatório. Novamente, com olhar ainda mais frio, impenetrável, ele me encarou de modo ainda mais ameaçador. Mandei novamente que baixasse a cabeça. Ele obedeceu. Mas, uma terceira vez, fez o mesmo procedimento. Dessa vez, não determinei mais nada. Continuei a indagá-lo, fitando os seus olhos com firmeza, em um nítido jogo mental que ele estava entabulando: o jogo do amedontramento.

A audiência foi toda ela tensa. Sentia no ar um clima tenso, também do membro do Ministério Público e da Defensoria Pública. Os policiais, em pé, um de cada lado, conservavam a fera passiva, sentada, porém sempre com olhar metálico, amoral.

Terminada a oitiva das testemunhas de defesa e acusação, alegações finais orais, prolatei a sentença de procedência (latrocínio é crime afeto à competência do juiz togado e não do Tribunal do Júri). Apliquei-lhe a maior pena base possível, cumulada com todas as agravantes imagináveis e sem nenhuma atenuante. Pena máxima, sem progressão de regime. Quem quisesse que recorresse daquela sanção justa e exacerbada.

Não sei o que é feito desse bandido. Mas nunca esqueci o olhar daquele rapaz. Dei-me conta, ali, que o mal existe, sim, em estado puro, sem meia medida. Aquele homem não tinha humanidade; era um demônio em forma de gente, um psicopata sem emoção, alguém cujos sentimentos nobres da civilização não fazia morada.

Terminado o julgamento, foi ele levado ao presídio. Só então dei-me conta do risco que corrêramos e o porquê dele olhar, de quando em vez, para um ponto fixo atrás de mim: a caixa cheia de armas. Talvez calculasse ele o sucesso que poderia ter em alcançá-la, levando em conta a presença dos dois policiais armados e das algemas que não foram retiradas durante a audiência, dada a sua periculosidade.

Suei frio. Estávamos todos diante de um perigo real sem que nos déssemos conta da sua gravidade.

Nunca mais soube notícias desse bandido. Mas ele, por certo, é uma das lembranças que trago dos meus 3 anos de magistratura. Com ele, repito, aprendi que o mal existe como força bruta e que há homens sem haja neles marcas ou lembranças de humanidade.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Amar, amar somente, é um beco sem saída


Amar, amar somente, é um beco sem saída, já dizia Pe. João Mohana. Amar pede mais; pede entrega, abertura, cumplicidade, cuidado com quem se ama, respeito. Pede que o outro seja parte da vida, seja íntimo por necessidade. Amar não cria fronteiras, abarca; não cria muros, aproxima; não cria barreiras, acaricia. Amar pede o outro para si, de um modo tal que o outro continue outro, mas se faça o mais próximo, o mais querido, o mais necessário.

Enquanto não sentir isso por alguém, não saberá o que é o amor de verdade. Há de existir um momento, quando os olhares se tocam pela vez primeira, em que haja um tanto de perda de foco, de eclipse da razão. O amor que rnunca soube o que é rasgar o peito, vassalar a alma, fazer sonhar, não pode ser digno desse nome. O amor que nunca fez tremer corpo e alma, que nunca tomou minutos ou horas de pensamentos vastos e suspiros fundos, que não tomou de si o apetite e as razões mais miúdas para agir, haverá de ser tudo, menos amor.

O amor acalma com o tempo, mas não perde aquela fagulha inicial, não deixa que os olhos se acostumem com a nudez da mulher amada. Há ali sempre um desejo que floresce, um olhar que se renova, um querer que exaspera. Acalmar, porém, não é adormecer nem estiolar-se; é simplesmente passar dos raios e trovões à primavera.

O amor, enfim, tem tempero variado em uma mesa farta. Vai da iguaria mais apimentada à sobremas mais suave…

Sim, aqui e ali pode haver algo fora do tom, porque o amor não quer a perfeição; o fundamental para ele é a possibilidade constante do diálogo que se quer constante, das pontes que não se fecham, da necessidade do eterno recomeço. O amor perfeito é o que se enamora da imperfeição: as rugas virão, a pele perderá aos poucos o viço, mas ele, o amor, vai se renovando como criança que apenas quer brincar, seja com que brinquedo for… Para a criança não importa a perfeição do brinquedo, mas a qualidade da diversão. Assim é para o amor!

Amar, amar somente, é um beco sem saída, simplesmente porque amar pede atos, gestos, sinais. Amar, enfim, nos tira de nós para olharmos a vida sem esquecer do ponto de vista de quem se ama. É a porfia lúdica e impensável entre o EU e o TU, que não se dissolve no NÓS, mas num EU-TU rico e profundo. Somos, no amor, dois que se buscam sem se dissolver na unidade, na identidade, na perda da referência de si mesmo. Na polaridade e tensão de duas vidas que se querem, que cedem aqui e ali para que se permitam ser e estar, consiste o amor.

sábado, 19 de novembro de 2011

Sobre orgulho, amor e vertigem: uma leitura de Dostoiévski

Há dois textos meus sobre o sequestro e morte de Eloá, em Santo André, por um jovem atormentado pelo amor (por ela) e a rejeição (dela para ele). Lindemberg chocou o país com o sequestro da sua ex-namorada e, depois, com o tiro que lhe roubou a vida. O amor do outro que esmigalhou o amor por si mesmo, ao ponto limite de expor publicamente as suas víceras, naquilo que Milan Kundera (em "A Insustentável Leveza do Ser") tão bem definira como sendo "vertigem". O texto integral pode ser lido nesse link (http://migre.me/6c5kv).

Há uma passagem que reproduzo aqui:

O amor de si não exclue o amor pelo outro; o pressupõe. A admiração pelo talento alheio necessita, para ser sadio, da convicção sobre os próprios talentos, porque senão o reconhecimento vira ressentimento e inveja. Com essa afirmação, podemos entender a loucura de Lindemberg, o seqüestrador de Santo André: ele aprisionou Eloá e depois a matou porque não se amava o suficiente, ao ponto da admiração e da necessidade do amor dela por ele esmagá-lo. O sentimento de rejeição decorre de ressentimento: será que ela encontrou alguém melhor do que eu? Será que eu sou insuficiente para ela? Ora, como lhe falta orgulho por carecer de amor próprio, restou-lhe a vertigem, no sentido empregado por Kundera. De fato, em "A insustentável leveza do ser", Milan Kundera descreve de um modo único o sentimento de vertigem. Diz ele, em seu primoroso romance:

"O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrae e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados."

Noutra passagem, ainda mais rica, fala-nos de modo mais genuíno e profundo:

"Era a vertigem. Um atordoamento, um insuportável desejo de cair. Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela nossa própria fraqueza. Temos consciência dessa fraqueza mas não queremos resistir a ela e nos abandonar. Embriagamo-nos com ela, queremos ser mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua, à vista de todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão."

O amor frustrado, ferido, muitas vezes nos leva a essa necessidade do abismo; é o orgulho extremado fazendo-se escravo de feridas fundas.

Talvez Friedrich Nietszche tenha traduzido muito bem aquele conceito de VERTIGEM de Kundera em uma das suas frases lapidares: "Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você” (in Para Além do Bem e do Mal).

Faço essas reflexões sob o impacto da leitura que RENÉ GIRARD fez das obras, da vida e do pensamento de Fiódor Dostoiévski. Trata-se do livro DOSTOIÉVSKI: DO DUPLO À UNIDADE, da editora É Realizações. Indico essa obra. E faço aqui as suas anotações sobre o orgulho, que bem poderia ser aplicado a Lindemberg como aos que sofreram a frustação no amor e reagiram de um modo "vertiginoso". Cada dia me encanto mais com Dostoiévski.

Quem se fere no amor e tem uma autoestima mal-resolvida, como Lindemberg, termina escravo do seu orgulho ferido e, pior, passa a viver um processo masoquista. O orgulho excessivo do amante frustrado leva ao masoquismo, afinal: "O masoquista não pode encontrar sua própria estima senão por uma vitória escandalosa sobre o ser que o ofendeu; mas esse ser adquire, a seus olhos, dimensões tão fabulosas que lhe parece igualmente o único capaz de obter essa vitória. Há, no masoquismo, uma espécie de miopia existencial que limita a visão do ofendido à pessoa do ofensor. É este quem define não apenas o objetivo do ofendido mas também os instrumentos de sua ação... O ofendido é condenado a errar indefinidamente em torno do ofensor, a reproduzir as condições da ofensa e a fazer-se novamente ofender"(p.41).

E por que o orgulhoso que teve a frustração no amor se deixa cair assim nessa situação masoquista humilhante, vivendo publicamente a sua vertigem? Renè Girard responde com a análise da obra "O Eterno Marido" de Dostoiévski: "Por que ele se precipita assim na humilhação? Porque é imensamente vaidoso e orgulhoso. A resposta é paradoxal apenas na aparência. Quando Trussótzki descobreque sua mulher prefere outro, o choque que sofre é terrível, pois ele se impusera a tarefa de ser o centro e o umbigo do universo... é incapaz de considerar um meio-termo entre dois extremos; o menor fracasso condena-o portanto à servidão... Depois de se ter concebido como um ser de que irradiavam naturalmente a força e o sucesso, ele se vê como um dejeto e daí seguem-se inevitavelmente a impotência e o ridículo". (p.42-43 da obra de Girard).

A vertigem, desenhada por Kundera, revela-se em Dostoiévski de um modo ainda mais vincada: é o orgulho ferido que passa a ser masoquista e humilhado, em um ciclo vicioso e doentio. Tão cioso de si, não soube suportar a desilusão, perdendo-se de si mesmo por perder a autoconfiança e a própria autoestima.

É engraçado - para não dizer trágico! - que pessoas que passam por esse processo, como Lindemberg (aqui, nesse caso, no limite extremo da perda de sentido e na necessidade de destruir o objeto do seu amor), mostram-se orgulhosos, imaginam estar atacando o seu ofensor quando, na verdade, apenas se subjugam mais, mostram-se escravizados pelo orgulho ferido e pela dor. Humilham-se achando estar humilhando; cedem a sua liberdade, proclamando estar livre. Ou seja, passam a viver a patologia de um sentimento frustrado e masoquista.

Todo esse misto de orgulho e humilhação é exposto em uma passagem clássica do livro de Dostoiévski "O Duplo", que sequer está entre as suas obras geniais. O personagem Goliádkin leva esse orgulho ferido ao extremo, àquela vertigem kunderiana, ao abismo nietszcheano, ao dizer: "Quanto a mim, o que tenho feito em minha vida é levar até o fim aquilo que vocês não ousam levar nem até à metade, sempre denominando sua covardia de sabedoria, consolando-se assim com mentiras. Se bem que eu talvez esteja bem mais vivo que vocês".

Para Renè Girard (p.55), essa coisa que Goliádkin LEVA ATÉ O FIM é o orgulho. É essa catarse pública que é a vertigem, levada ao extremo. E o orgulho ferido, digo eu, termina suscitando sempre a autopiedade, essa execração pública de si mesmo, expondo as dores para além do limite do pudor suscitado pelo amor próprio.

Dostoiévski - essa a sua genialidade - nos leva para esses labirintos da psique humana, essas perdas de referências claras causadas pelas frustrações, pelo orgulho inflado e imaturo que não se aceita ferido. E nada há de mais doloroso do que autopiedade do orgulho frustrado, que há de se expor no vazio de si mesmo,na sua falta de capacidade de lidar com o insucesso, com as perdas, com as feridas da vida.

O amor pressupõe o amor próprio íntegro, maduro, equilibrado. A desordem do amor próprio leva ao masoquismo e à humilhação (pior, a humilhação que sequer se reconhece e sabe se vê como tal!). O amor autêntico e maduro é orgulhoso apenas na medida em que preserva o EU para, inteiro, aventurar-se na aventura do OUTRO. O orgulho, afinal, que conta é o orgulho suave que faz sadia a relação EU-TU, sem se perca nunca os termos da relação e a importância dessa polaridade.

domingo, 21 de agosto de 2011

Crônica da semana: A camisa vermelha e os livros

Estava angustiado. Sentei-me no batente do prédio João de Deus, onde funcionava o curso de Direito. Era formado por duas estruturas cumpridas de salas de aula, uma frente a outra, separadas por um espaço de barro, sem jardim. Calça jeans desbotada, camisa vermelha puída, com um pequeno furo no ombro, feito por uma traça atrevida. Lembro bem daquela camisa, que usava em casa e vesti para ir à faculdade sem atenção. Era o jeito desleixado como frequentávamos as aulas, comum em quase todos nós estudantes naquele tempo.

Estava com alguns livros à mão. Livros que não estava lendo, porque estava fazendo o curso sem apetite, sem gostar muito das disciplinas. Aliás, assistir as aulas era um exercício sofrido, porque as únicas disciplinas que me interessavam eram estranhas ao Direito, como as ótimas aulas de Sociologia Geral, que me instigavam muito. Fora disso, sentia-me estimulado apenas pelas aulas de Teoria Geral do Direito, ensinadas pelo Prof. Marcos Bernardes de Mello, mas que eu havia perdido boa parte das iniciais, em razão de faltas minhas. Passou a ser difícil acompanhá-lo depois disso, porque não lia em casa e não entendia patavinas do que ele estava ensinando. Não estava sendo um bom aluno e passei nas matérias com alguma dificuldade.

Naquela manhã, bateu-me uma angústia profunda. Não sei por que me vinham aquelas questões sofridas: o que farei quando sair daqui formado?, será que sairei com alguma condição de advogar?, como será a minha vida profissional? Eram perguntas dolorosas, que me açoitavam a alma e sufocavam o peito. Sentia o peso da responsabilidade nos ombros, a incerteza do futuro e me afundava nas minhas dúvidas sobre a própria vocação.

Sim, eu nem sabia para que prestaria o vestibular quando fazia o científico (ensino médio) no Marista. No terceiro ano, angustiava-me a alma quando via os colegas falando que fariam medicina, engenharia, informática, ou sei-lá-o-quê e eu não tinha a mínima ideia do que faria. Quando me perguntavam, à falta de uma resposta, dizia que faria economia ou jornalismo. Foi vivendo essa dúvida que, sentado na calçada da minha casa, olhando as estrelas, cheio de ansiedade, a Dona Idelva Pinto, nossa vizinha, perguntou-me sobre o vestibular e me sugeriu prestar para Direito. Direito? "Sim, você gosta de ler, gosta de falar muito, é um curso que possibilita muitas carreiras...". E, naquela noite, ouvindo uma procuradora do Estado, decidi fazer aquele curso, que nem sabia ao certo para o que servia.

Agora, estava ali, no alpendre do João de Deus, na Ufal, com renovadas angústias, perdido, com medo do futuro, incerto da minha vocação, perdido na minha apatia. Olhava para o barro molhado em que acomodava os pés, o céu cinza da chuva da madrugada, os alunos passando, rindo, conversando... E eu ali, sofrendo os meus medos e todas as minhas dúvidas.

E, de repente, deu-me um "insight". Uma lanterna alumiou a minha alma. Uma vontade de vencer, de sair daquela letargia que consumia os meus sonhos todos, uma necessidade existencial de sair correndo dali, recuperando o tempo perdido, os livros não lidos, as aulas cabuladas. Uma sede de viver que não compreendia, mas que me tomava ali, naquele momento, com aquela camisa vermelha surrada pelo uso, esgarçada na gola circular... Nunca a esqueci e me arrependo de não tê-la guardado como memorial desse dia, desse momento único.

Levantei-me, meu coração batia forte, havia uma fome imensa em mim; queria sair dali, queria estudar, queria ler tudo o que havia desprezado. E foi assim que comecei a me dedicar à leitura da "Teoria do Fato Jurídico", de Marcos Bernardes de Mello, introdutório à obra que me marcou toda formação profissional e o meus estudos: o "Tratado de Direito Privado" de Pontes de Miranda. Foi a obra de Pontes de Miranda que me deu a vocação para o Direito e me salvou da angústia de não ter referências. Foi o desafio de compreender o pensamento pontesiano, de estudar sozinho a sua obra monumental "Tratado das Ações", que me fez ter sempre uma motivação diária de estudar, de me dedicar, de me realizar intelectualmente.

Aquele dia, na solidão da minha angústia, brotou uma fome intelectual que me persegue todos os dias, que me motiva, que encanta. Sem os livros, sem as leituras, sinto-me sem bússola. A leitura passou a ser um prazer, uma busca, uma ponte para os horizontes distantes. Sim, os livros salvaram a minha vida da perda de objetivos, do medo do futuro, da passividade mórbida. Eles, os livros, me ensinam o valor da reflexão, do esforço constante, da dedicação, da profundidade. Nada vem de graça, não existe quem já nasça sabendo tudo: somos, afinal, produtos do nosso esforço, das horas gastas com o que nos aprimora.

Hoje, acordei com uma chuva suave. Olhando para o céu cinza, lembrei-me daquela camisa vermelha. Escrevo aqui, cercado de livros, sentindo-me bem entre eles, que sempre foram companheiros de caminhada.

sábado, 11 de junho de 2011

Crônica do amor e sofrimento

A tristeza comeu-lhe o coração em pedaços, com uma fome infinita. Apossou-se do seu corpo, entrando por cada poro, sem deixar margem para negociações. E quando deu por si, lá já estava a tristeza desabrigando a sua alma, deixando-a ao relento. Hóspede ingrata, a tristeza não se faz inquilina; não há paga que queira compensar os cômodos que ocupa. Simplesmente se assenhora e faz suas as entranhas tomadas e submetidas aos seus caprichos.

E, assim, maltratada por aquela tristeza bravia, perguntou-se, afinal, "por que amar é sofrer?". Sendo o amor o sentimento mais bonito que poderia alguém ter, por que haveria de viver ele, o amor, amasiado com a dor, a solidão ou a saudade? Sim, a tristeza do amor é aquela malagueta, com as suas arduras e quebrantos, que maltrata a alma e espanca o corpo, deixando o peito estufado de quereres indomáveis, tragando o juízo com a ideia fixa, que não se deixa esquecer ou afastar.

E de tanto se perguntar, ela resolveu, com a convicção enraizada em granito maciço, que o melhor seria esquecer, afastar-se, tirar de si o sentimento que já lhe tomara as vontades e desejos, e arremessar para longe, como o escritor que amassa e joga fora o pedaço de papel com linhas mal escritas. E trabalhou, minutos a fio, nesse intento colossal, quando se deu conta de que o esmagamento do amor não lhe abrandava a dor e a saudade, porém apenas lhe tirava a razão pela qual o sol fazia o azul do céu mais bonito, de um anil sem nuvens a lhe toldar a beleza da manhã.

E ela, entre um e outro soluço, sorriu de si mesma e da sua dor, convencida que a solidão que pensava sentir não era solidão, mas excesso da presença do amor em seu corpo, em sua alma, em seu coração. O amor dói, pensou ela com o sorriso lavado em lágrimas persistentes, porque é abarcante, fazendo do outro o que parecia seu. E deu-se conta, então, que não há amor sem sofrer, porque simplesmente ele é tão caro, tão importante, tão presente, que a dor é o medo da perda e a solidão, o medo da ausência.

Ah, aquela angústia tinha então sentido. O medo de perder, o ciúme, as dúvidas, tudo isso faz parte do amor, é o próprio amor vivo, gritando o nome que lhe faz ser o que é. E ela, então, finalmente pode sorrir e dizer para si mesma: vale a pena sofrer cada sofrimento, porque é a prova de que se está viva e amando quem vale a pena ser amado.

sábado, 28 de maio de 2011

O menino, o velho e o caminho escuro

A casa tinha um quintal grande. No fim dele, dando para a rua que passava por trás dela, havia a garagem e um quarto, que servia para guardar as coisas velhas, de pouco uso. À noite dormia lá um velho já falecido, que tinha uma vasta barba branca, portava chapéu e bengala torta, além de carregar consigo um saco sujo, cheio de "sabe-se lá o quê". Ao menos era essa a informação que o meu irmão Ricardo me passava, fazendo-me medo da alma penada que andava pelas bandas do Junqueiro da minha infância.

Certa noite, faltou energia elétrica. A noite havia fustigado as estrelas, que tímidas deixaram a escuridão expropriar até a luz da lua. Não dava para ver um palmo além do nariz. As velas crepitavam as suas chamas, que mantinham-se vivas a muito custo, protegidas pela palma da mão, que impedia o vento de arrebatá-las.

Mamãe nos chamou: Cadinho (Ricardo), Serginho e eu. Estávamos brincando na sala, quando veio o apagão. Cadinho e nosso amigo Serginho tinham praticamente a mesma idade e adoravam botar medo em mim, que era muito valente para os seis anos mal completados. Fomos e recebemos o pedido para irmos ao quartinho lá de trás pegar um candeeiro para a mamãe. Os três nos entreolhamos e pensamos no tal velho da barba branca. Nos borramos de medo.

A mamãe nos estimulou a ir pegar o candeeiro, dizendo que não existia velho algum, que aquilo era uma bobagem, coisa da nossa imaginação. Fôssemos sem medo que Papai do Céu nos protegeria com os seus anjos. Diante do pedido dela, aceitei a empreitada. Porém, nem o Cado nem o Serginho encararam a aventura. Pior: desafiaram-me a ir sozinho. Cheio de medo, mas premido pelo pedido da mamãe, fiquei na dúvida, até que o Cado fez uma aposta, prometendo-me um Cr$ 1,00 (um cruzeiro) para ir ao quartinho. Topei.

A mamãe acendeu uma vela e me entregou. Iniciei os primeiros passos pelo quintal. Tudo escuro. O fogo sendo mantido com muito custo acesso, com as palmas da mão no entorno da vela, quase queimando para evitar que o vento a apagasse. Fui avançando, vencendo o quintal, até que uma rajada de vento silenciou o fogo. E o véu da noite me engoliu por completo. Estava a meio caminho. Olhei para trás, trêmulo. Não via nada, só a voz do Cadinho dizendo que o velho ia me pegar, mesmo com o reproche da mamãe, mandando-o parar de me amedrontar.

Meu corpo parecia ter ganhado autonomia. A tremedeira autonomizou-se. Resoluto, continuei andando, sem enchergar nada. Procurei ir em linha reta, supondo que mantinha-me alinhado com o traçado inicial. Aos poucos, alcancei o alpendre do quartinho. Estava entrando em território perigoso. Balbuciei algumas palavras sem nexo, buscando alguma diatribe do velho, algum sinal de o estar incomodando. Nada.

Dei mais um passo. Um passo a mais. É sempre o passo que faz o caminho. E tropecei em alguma coisa, que me fez cair. Seria o pé do velho?, pensei. Não ouvi reclamação, contudo. Ouvi a mamãe perguntar se estava bem. Respondi que sim, quase com as calças sujas, tal o medo que me assomava. Levantei-me. Segui tateando o lugar, sem nada mais ver. Tateei, tateei e sai encontrando coisas no chão do quartinho, torcendo para não trombar com o velho.

Fiquei falando alto, para a mamãe me ouvir e orientar, ao mesmo tempo que poderia estar intimidando qualquer destempero do velho contra mim. Ela ficou me orientando sobre onde poderia estar o candeeiro e terminei o encontrando. Peguei-o como a um troféu.

Iniciei o caminho de volta, buscando a saída do quartinho. Meu coração batia descompassado. Sabia que aqueles momentos eram decisivos. Ao encontrar a porta, sai na banguela, desatando uma carreira sem igual. O peito explodia. Já não sentia as pernas na corrida, como se voasse. E cheguei na casa, atravessando o quintal em uma velocidade que nunca mais repetiria. Fui saudado pelo meu irmão e pelo Serginho. Recebi o beijo da mamãe e entreguei-lhe o candeeiro.

Fui grato ao velho. Poderia ele ser o papafigo, levando-me lá de casa para sempre. Mas julguei que ele teve medo da minha iniciativa. Sei lá. Só sei que ele me deixou entrar no quartinho e pegar o candeeiro. Eu sei que você pode estar pensando que não havia coisa nenhuma de alma penada de velho no quartinho. É possível. Mas de uma coisa eu sei: no dia seguinte eu estive lá, com a luz do dia, e tive a sensação de que alguém havia dormido ali... Afinal, a mente infantil nos permite ver outras realidades!

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Na vida, é sempre um passo que falta. Por medo, muitas vezes deixamos de trilhar o caminho, pensando em toda a sua extensão. Se dermos um passo de cada vez, será esse gesto que nos impulsionará e poderá nos fazer ir bem mais longe do que pensaríamos ser capazes. Por isso, a sabedoria popular diz que o caminhante faz o caminho. Afinal, como diria Exupèry, em seu livro Voo Noturno, "é só um passo que falta, mas um passo...".

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Crônica da Semana: As raízes da mangueira

Venho de um lugar em que não há nada. Uma mangueira frondosa é o que resta de onde nasceu o meu pai. E vejo aquele lugar-nenhum como a minha origem, o ponto de partida do que sou como pessoa. As minhas raízes são as mesmas daquela mangueira; minha alma tem os pés plantados naquele chão.

Pau Amarelo. Ali, naquele lugar perdido no tempo, fazendo hoje parte de uma cidade chamada Taquarana, nasceu o meu pai. Na minha infância, em Junqueiro, ou na minha adolescência, já em Maceió, quantas vezes ouvia o meu pai falar sobre aquele lugar, dizendo de onde vinha para que nós, os filhos, pudéssemos ir além.

Meu pai perdeu cedo a mãe. Tinha cinco anos apenas. Foi criado pelos tios, já que o meu avô, João Baptista, não fincava raízes, viajando para lá e para cá, sem dar aos filhos a segurança de um lar. Meu pai foi marcado por essa realidade: não ter a sua própria casa, o convívio com os irmãos, tendo que acomodar-se de favor na casa de tios, enquanto o meu avô fazia das suas viagens tantas.

Em 2007, convidei o meu pai e o meu irmão Ricardo e, juntos, fomos para Pau Amarelo, fazer o que chamei de "viagem da saudade". Queria muito conhecer aquele pedaço de lugar-nenhum, onde a história da nossa família começou.

Foi emocionante encontrar aquele chão parado no tempo. A pobreza dos seus moradores, a simplicidade honesta daqueles homens e mulheres marcados pelo sol, com as mãos calejadas pelo cabo da enxada, pelo lavado constante de roupas, pelo plantio e colheita do feijão. E, lá para as tantas, vejo o meu pai apontando para uma mangueira: ali ele nasceu, em uma casa de taipa que não mais existe. Ali, naquele rancho insignificante de terra, deu o primeiro choro, teve os primeiros dos raros carinhos da sua falecida mãe, sentiu o sopro quente do vento daquela região.

Fiquei olhando para aquele lugar. Senti o encontro com o que sou, com a minha natureza: sou filho de um sobrevivente, de um homem que veio da pobreza e se fez pelo estudo. A fé o salvou; os estudos o fizeram homem! (Mas essa é uma outra história).

Encontramos primos do meu pai, que ainda estão morando lá. Entramos em suas casas, partilhamos dos cheiros, das cores, dos traços daqueles ambientes que têm as marcas daquele passado. E me senti em casa, vendo-me ali, partilhando aquela realidade com o meu coração: eis o que és, Adriano, e de onde vieste!

Depois fomos para Barro Vermelho, povoado de Junqueiro. Ali, fui batizado. Ali, meu avô está enterrado. Ali, meus pais tiveram os seus momentos de descoberta.

E terminamos em Junqueiro, que já não mais é o Junqueiro da minha infância, que habita no meu coração intacto. Visitamos o Hélio e o Sérgio, nossos amigos de infância, que foram mais que amigos: quase irmãos.

Bem, divido com vocês a história do meu pai, que é a minha história. Não posso pensar o mundo sem pensar a partir das minhas raízes, das minhas origens e do chão perdido no tempo onde tudo começou. Por isso creio na força da fé católica, que fez o meu ser quem é e vencer na vida; por isso creio na força do estudo, da leitura constante, do esforço e do trabalho.

As fotos de 2007 podem ser vistas aqui.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A menina sem nome e a dominação

Ela olhou para mim. Senti os seus olhos pousarem levemente, com delicadeza, sem chamarem a atenção. Mas não me era possível não perceber aquela moça bonita, no peitoral do primeiro andar do colégio, me olhando sem pressa, insistentemente. Eu, sentado em uma mureta de cimento, que contornava uma das árvores em frente às salas de aula, permanecia conversando com colegas, como se não percebesse nada.

Foi assim naquele intervalo. Outros se sucederam de igual modo. E eu fingia não notá-la simplesmente porque ela era muito bonita. Sentia-me intimidado. Como era comum nos intervalos, ficávamos sempre ali, conversando, enquanto esperávamos a chamada para as aulas. Até o dia em que o Henrique, hoje médico, disse: "Adriano, rapaz, essa menina não tira o olho, cara!". Senti-me na obrigação moral de olhar para ela. E aí os nossos olhos se encontraram. Ela, contra as minhas expectativas, não se fez de rogada e fitou-me ainda mais firmemente. Os olhos dela pesaram sobre os meus, que cairam timidamente.

Passamos mais alguns intervalos de aula naquela troca de olhares. Até o dia em que criei coragem e a chamei. Ela desceu. Fiquei meio perdido diante daquela postura sempre convicta, direta, sem meias medidas. Sentamos em um dos degraus da arquibancada do campo gramado, em frente às salas de aula. O Marista nos proporcionava um vasto espaço para o lazer nos intervalos.

Conversamos meio tropegamente, diante da minha ansiedade. Ela, ainda mais bonita de perto, provocava-me com um sorriso dengoso, que constratava com a sua segurança. Dois beijinhos, conversa vem e conversa vai, estávamos tendo o nosso primeiro encontro. Fosse mais corajoso, sem a timidez que tinha, poderia ter aprofundado, digamos assim, aquele momento. Mas estava bem para mim, ao menos naquele instante.

Ela se despediu com um beijo em meu rosto, sorriso farto e uma piscadela de olho. Foi, deixando comigo o meu coração aos pulos.

Nos dias seguintes, a mesma coisa, sempre. E como o tempo passasse em continuados encontros, a timidez foi cedendo assento à vontade do passo adiante, e parecia que chegara, enfim, a hora do beijo. Por encantamento, a minha boca buscou aninhar-se na dela, quando o seu rosto, suavemente, virou para o lado. Bejei-lhe a face.

E ficamos assim, ela me provocando e dando sempre um passo para trás, como fazem as dançarinas na roda de coco. E eu, atordoado, ia viajando como um Ulisses desprovido de cordas a prender-me em segura aventura. Até o dia em que, dominado e cansado, perguntei: "Por que não?".

Porque o meu pai não quer que eu namore, porque a minha mãe é dominadora, porque nunca namorei antes, porque tenho medo, porque, porque, porque...

Estava com a corda no pescoço, colocada por mim mesmo, e entreguei a ponta nas mãos daquela moça. E ela, com aquela orgulhosa maldade de quem subjugou o outro, não podia puxar a corda e por fim à brincadeira. Haveria de conservar-me preso, divertindo-se com os meus sentimentos.

Até o dia em que acordei. E já não vi mais a menina bonita, faceira, interessante. Vi apenas os gestos, as palavras não ditas, a tentativa de dominação pelo encantamento feiticeiro. E acordei do estado letárgico, da submissão imposta pelo querer. Foi assim que, para a supresa dela, não mais a olhei, não mais deixei me perder.

Não lembro o nome dela; não sei sequer direito quem ela era. Mas aprendi muito com o seu sinuoso modo de aprisionar, com o seu jogo de sedução. Bem, se nem sempre nos damos bem, ao menos lições devemos tirar, não é mesmo?!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O demônio do meu quarto "ou "Se avexe, não, Menino!".

Papai e mamãe trabalhavam muito. Ele, fiscal de renda concursado, muitas vezes tinha que dar plantão no posto fiscal na estrada. Quando o expediente era normal em Junqueiro, além das atividades como fiscal, assumira ele a direção do Ginásio Nossa Senhora Divina Pastora, onde atuava pensando em dar às famílias mais humildes acesso à educação. Tempos difíceis, de dedicação gratuita, apenas por pensar em contribuir com aquela comunidade. Ela, a mamãe, diretora concursada do Grupo Escolar Padre Aurélio Góes, do ensino fundamental, além de assumir as suas responsabilidades normais, ainda lecionava à noite no Ginásio, também com a finalidade de contribuir com a formação dos mais humildades e de toda uma geração de junqueirenses.

Tinha eu uns sete anos de idade. Meus irmãos estudavam já no Ginásio, à noite, enquanto eu estudava sozinho pela manhã, no início do ensino fundamental. Com isso, as minhas noites eram, normalmente, de brincar com amigos até umas 7h00, tomar banho e ser conduzido à cama por minha babá, a Irene. Lembro-me da Irene com viva saudade. Quantas tardes corria eu pelo quintal, nu, e ela atrás de mim, tentando levar-me para o banho, que vez por outra eu procurava fugir. "Vou dizer ao seu pai mais tarde!", saia gritando para me convencer, porque não havia maior certeza do que a nossa obediência cega às ordens paternas, garantidas pelo respeito e, diante do atrevimento eventual, de uma boa sova de cinturão.

Pois bem. A Irene me colocava na cama para dormir e, independentemente do meu sono ou não, ia namorar com o seu noivo, o Luís. Namoro de porta, bem comportado. Eu ficava na cama, olhando para o telhado, as vigas de madeira, o barulho das lagartixas, o passar eventual de um ou outro rato, o voo de algum morcego brincalhão... Nada me assombrava, já fazendo parte do meu cotidiano.

Havia, porém, um desenho feito na porta do quarto. Não sei quem o fez. Era o desenho infantil de um rosto, com orelhas pontiagudas, que à noite parecia a figura de um demônio. Ficava em frente à minha cama. Não dava para não vê-lo. E muitas vezes, morria de medo, ali, sozinho, acompanhado apenas por aquela figura a causar arrepios.

Ainda me lembro do desenho. Em detalhes. Aquela imagem que me causava enorme medo, que me acompanhava em minhas noites, até conseguir dormir pelo cansaço. Tão forte o seu efeito em mim que nunca falei sobre ele com os meus pais. Era um pacto de silêncio não negociado.

Não raro, ainda que estivesse com calor, cobria-me integralmente com o lençol, como se o pano pudesse me proteger, guardando-me das maldades do demônio do meu quarto. E o gesto me dava segurança, como se tivesse ele dotes mágicos, a me esconder do bicho maldoso.

O demônio do meu quarto vive em mim. Sempre viveu. Sempre esteve presente em minha vida. E foi enganado, até hoje, pelo lençol que teimo em usar, para me esconder dos seus desatinos. Às vezes, é certo, tira-me um pouco o sono, maltrata, desperta aquela criança que ainda habita em mim.

Domar os demônios que carregamos é sempre um imenso desafio. É a aventura de uma vida inteira, por vezes.

Lembrei-me dessa história hoje, na virada do ano, para dizer ao menino que ainda sou que não se angustie, que haverá sempre lençóis para nos proteger, e que a vida é sempre uma linda aventura, em que os demônios são criaturas a serem vencidas. "Menino, não se avexe, não! O dia vai raiar de novo, o sol vai brilhar, os seus olhos verão a vida palpitando em sua frente e você notará que, sim!, a noite se foi!".

Feliz ano novo! Que o brilho da luz do dia 1º de janeiro ilumine o nosso coração, cuide da nossa alma, e mostre a cada um de nós um horizonte de fé, paz, saúde e felicidade.

Que Deus nos abençoe a todos nós, amém!


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Competência (esforço, dedicação, estudo) e responsabilidade

Contava, então, com 23 anos. Havia assumido o cargo de procurador geral do município de Maceió naquele dia, pela manhã.

Fui convidado, antes, para ser subprocurador administrativo. Indicação do desembargador Fernando Tourinho, de quem havia sido assessor no Tribunal de Justiça. Assumi o cargo e fui trabalhar com Fernando Costa, procurador geral. Fernando exercia antes a advocacia privada, não sendo muito afeito ao direito público, razão pela qual saiu me delegando atribuições relevantes. Houve uma reunião de secretários municipais e ele me convidou para acompanhá-lo. Surgiu a discussão sobre a tentativa do Estado de criar a região metropolitana de Maceió e uma secretaria de assuntos metropolitanos, que era uma artimanha política do governador Geraldo Bulhões para tutelar a prefeitura de Maceió. Ronaldo Lessa, o prefeito, queria insurgir-se contra essa iniciativa. O tema foi o clímax das discussões naquela reunião e Ronaldo Lessa pediu uma posição da Procuradoria Geral. Fernando passou-me a palavra e eu defendi a inconstitucionalidade da lei estadual.

A partir daquela reunião, meu nome começou a ser conhecido na equipe. Fernando passou a delegar mais atribuições e eu passei a exercer atribuições afetas ao cargo de Procurador Geral. Passei a ter reuniões constantes com o secretário de Finanças, meu saudoso Arnon Chagas, um ás da contabilidade. E muitos problemas me eram trazidos pelos demais secretários. Fernando, com uma advocacia forte e reconhecida, logo desistiu de continuar no cargo de Procurador Geral, pedindo exoneração e indicando o meu nome para sucedê-lo.

Eu não conhecia o prefeito Ronaldo Lessa. O meu único contato pessoal com ele havia sido naquela reunião de secretários municipais. As minhas chances de assumir o cargo eram mirradas. E eu sequer pleiteava o cargo, inclusive pela minha pouca idade e inexperiência. Porém, para a minha surpresa, houve uma articulação de alguns secretários, que passaram a defender o meu nome. À frente, Arnon Chagas, Kátia Born e o velho Controlador Geral do Município, Geraldo Mota, além do Chefe de Gabinete do Prefeito, Olavo Wanderley.

Fui convocado para uma reunião com o Prefeito Ronaldo Lessa. Estávamos ele, Olavo Wanderley e eu. Lessa falou sobre a importância do cargo de procurador geral, discorreu sobre outros nomes que poderiam ocupar aquele cargo, mencionou o apelo de alguns importantes secretários para a minha escolha e, finalmente, destacou a minha pouca idade. Depois, perguntou-me: "Adriano, você, se fosse o Prefeito, lhe nomearia para esse cargo?". "Não!", respondi prontamente. "Por quê?", indagou-me. "Por uma razão simples, Prefeito: se o sr. me nomear e eu me sair bem, o sr. não fez mais do que a sua obrigação. Agora, seu eu for um fracasso, toda a responsabilidade será sua, e recairá no sr. o infortúnio de ter nomeado uma pessoa desconhecida e muito jovem".

Lessa olhou para o Olavo Wanderley. Olavo sorriu e disse algo que eu não esperava: "Ronaldo, esse menino é novo, mas é talentoso. Para a procuradoria precisamos de um Pelé. Esse aí é um Pelezinho, tem futuro e ganhou a confiança do secretariado." Ronaldo Lessa disse-me: "Comecei muito jovem na construção da Ponte Rio-Niterói. Juventude não é doença; se fosse, tem cura. Vou nomear você e vamos ver o que acontece".

Saí do gabinete do Prefeito e fui para casa. Reuni a minha família. Estava assustado. A ficha começava a cair. Uma coisa era ser subprocurador, mesmo com atribuições maiores, mas tendo o apoio e a retaguarda de um procurador geral experiente; outra coisa, muito diferente, era responder pessoalmente pela pasta, ser a última instância jurídica da capital. Coloquei as dificuldades de assumir o cargo para o qual seria nomeado no dia seguinte. Expus os meus medos. Papai, que ouvia tudo calado, após perguntar-me se me sentia preparado para o desafio e, diante da afirmativa, disse-me: "Filho, assuma o cargo. Sua mãe e eu estamos aqui para lhe apoiar. Não tenha medo. Deus proverá!".

Contava, então, com 23 anos. Havia assumido o cargo de procurador geral do município de Maceió naquele dia, pela manhã. A secretária Olinda anunciou servidores graduados da secretaria de Finanças, que iriam me fazer uma consulta jurídica sobre questões orçamentárias. Recebi cinco servidores, assessores de Arnon Chagas. Tinham eles uma consulta complexa sobre questões de direito financeiro e estavam divididos entre duas soluções possíveis. Caberia a mim a resolução sobre quem estava certo. Ouvi tudo atentamente. Embora aparentasse serenidade, estava angustiado, porque simplesmente eu não sabia o que dizer. A matéria era muito nova para mim e muito complexa.

Fiz cara de quem estava refletindo sobre aquelas questões que sequer eu entendia e, com serenidade, disse que daria uma resposta no dia seguinte. Tinha de refletir um pouco. Todos foram embora e eu fiquei com o abacaxi na mão.

Eu não sabia patavinas de direito financeiro. Tinha duas opções: ou ia consultar alguém ou ia buscar meios de construir uma resposta. Procurar quem?, pensei eu. Iria debutar no meu cargo caindo no ridículo. Optei por estudar e assumir a minha responsabilidade. Tinha por hábito - que ainda hoje cultivo - comprar livros jurídicos de qualidade sobre tudo, para um caso de necessidade. Sabia que tinha bons livros, ainda virgens, de direito financeiro. Saí da procuradoria e fui para casa, angustiado.

Comecei a estudar naquele dia direito financeiro. Virei a noite lendo aspectos teóricos, sorvendo os institutos. Não dormi. E passei o dia seguinte lendo, tomando café para não dormir. Faltei ao meu segundo dia como procurador geral. No terceiro dia, havia redigido o meu parecer, que não adotava nenhuma das duas soluções apontadas pelos técnicos, apontando uma terceira, que achei a mais adequada. Reuni-me na tarde do terceiro dia com eles, explanei o meu ponto de vista, fui sabatinado e convenci a todos da minha posição.

Havia vencido o meu primeiro desafio. Senti-me seguro a partir dali a exercer o cargo. Ganhei o respeito dos técnicos e cresci como pessoa e como profissional.

Desde então tenho para mim que o bom profissional deve ter na vida duas condições: a oportunidade e a competência. Se ganho uma oportunidade e não tenho competência, a oportunidade se esvai; se tenho competência, mas me faltam oportunidades, sou como um farol aceso em um mar sem navegação.

Sem trabalho, sem dedicação, sem seriedade, sem esforço, não temos como chegar honesta e profissionalmente a lugar algum.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O resgate de cada dia

Texto originariamente publicado aqui, em 27/02/2009 (Quaresma).

Assisti hoje o final do filme O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. Sim, peguei o filme já terminando no Telecine da Globosat. Justamente na cena em que o capitão interpretado por Tom Hanks, cuja missão era liderar um grupo de soldados para resgatar o último sobrevivente de três irmãos mandados para a guerra, interpretado pelo excelente Mat Damon. Apesar do esforço daqueles homens, deslocados da missão de combater os nazistas para resgatar um soldado americano como outro qualquer, Ryan (Mat Damon) não se mostra grato nem vê no sacrifício dos seus pares mérito algum.

Na cena final, já tendo encontrado Ryan e voltando para um lugar seguro, o grupo é cercado por alemães e fica em situação difícil. Diante da bravura do capitão vivido por Tom Hanks, um simples professor antes de ingressar no exército, eles resistem e conseguem se salvar. Nem todos, porém. Hanks é mortalmente ferido. Sentado no palco da batalha, sangrando muito, vê um perplexo Ryan aproximar-se dele. Hanks puxa-o pelo casaco e diz em seu ouvido aquelas que seriam as suas últimas palavras: - "Faça por merecer! Mereça!". Era um pedido para que o seu gesto capital não fosse em vão, uma vez que o grupo não via em Ryan razões para aquele sacrifício, que levou alguns a perder a vida na tentativa de resgatá-lo.

Ryan fica em pé olhando para a personagem de Hanks, prostrado morto. E a cena corta para o começo do filme, um homem velho diante de uma lápide militar. Era Ryan no ocaso da vida, tendo atrás de si a família que fora com ele visitar o túmulo do homem que liderou o seu resgate e possibilitou a continuidade da família. A cena postada abaixo é justamente esta. Ryan vai prestar contas da sua vida àquele que perdeu a sua para salvá-lo. Angustiado, afirma ter procurado ser um homem de bem e honrar a memória do capitão. Ante a aproximação da sua esposa, pergunta a ela, diante do túmulo e para que o capitão ouça, se ela o julga um homem de bem.

A angústia de Ryan é esta: diante do homem que morreu por ele, a sua vida valeu a pena?

A angústia de Ryan é a nossa angústia: diante do Homem que se imolou por nós, fazemos a nossa vida bendizê-lo?

Chorei no filme, naquela pequena cena. A minha vida passou por mim, como estava passando por Ryan. Estaria valendo o sofrimento de Cristo? Essas perguntas e as tantas respostas devem ser buscadas sempre, particularmente na quaresma.

domingo, 10 de outubro de 2010

Encontros de domingos

O papai nos reunia aos domingos. Conversávamos sobre as coisas de casa, sobre os fatos da semana e rezávamos. Ricardo e eu, os mais novos, passamos, com o tempo, a ser objeto de atenção especial. Desde os 8 anos essas conversas eram semanais. Quem eram os nossos coleguinhas, o que conversávamos, quais os palavrões que aprendíamos... E o papai nos ensinava o significado e o porquê de não chamarmos aquelas palavras.

"A Vida Sexual dos Solteiros e Casados", do padre João Mohana, era uma leitura constante. O papai lia e, passo a passo, comentava o que ouvíamos fascinados. "Prepare os seus filhos para o futuro", também de João Mohana, era lido e comentado, mostrando-nos as razões pelas quais éramos admoestados, eventualmente apanhávamos, sempre com o sentido de limites e de responsabilidade.

Lembro-me que o papai usava uma expressão que para mim soava misteriosa, quando tinha 9 ou 10 anos: "Olhe, lá para os 13, 14 anos vocês passarão a sentir o grito do sexo", para o qual desde já ele nos preparava, buscando uma vida equilibrada e ordenada na adolescência. Temas como masturbação, relações sexuais, namoro, amor, eram tratados de uma forma bonita, amena, dentro de uma moral católica.

O papai nos apresentava sempre o binômio amor e sexo. E desde sempre aprendemos que a dissociação entre um e outro, entre homem e mulher, é um desequilíbrio na relação: amor sem sexo é amor de irmãos, de amigos, mas não é o amor de casal; sexo sem amor é o prazer pelo prazer, que só se compreende no vazio dele mesmo.

Lembro-me do papai lendo o livro de Dom Valfredo Tepe, "O sentido da vida", e repetindo a frase que tantas cito como se fosse minha, porque já apropriada em minhas reflexões: "Amor é força unitiva na diferença". O amor como essa relação constante entre um eu e um tu, cuja polaridade não se perde, não se dissolve, em uma relação reflexiva e esvaziada.

Devo àqueles domingos muito do que sou: o gosto pela leitura, pela reflexão sobre ela, o interesse por filosofia e teologia, o estímulo ao diálogo e ao debate, o prazer de uma boa conversa... Meu pai sempre foi um exemplo para mim. Mesmo no que não comungo com ele, mesmo no que não temos identidade, mesmo no que pensamos diferentes. Em tudo, tenho um imenso carinho e respeito, porque "amor é força unitiva na diferença".


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Teotônio e Alagoas

Entrei na sala para discutir o processo eleitoral das urnas eletrônicas, cuja ação estava tramitando no Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas. O candidato João Lyra questionava o resultado das eleições no Estado, promovendo com competência uma marola de notícias na imprensa nacional.

Teotônio Vilela estava sentado à mesa com um assessor de comunicação. Discutiam a greve da educação, que consumia politicamente os três primeiros meses de governo, após a edição de um decreto que visava colocar em ordem as contas públicas. Os primeiros meses era de movimento grevista dos servidores públicos, com ênfase dos profissionais da educação.

Sentei-me, aguardando o término da reunião. Téo me olhou e perguntou o que estava achando daquele movimento, dos desgastes sofridos pelas primeiras medidas de ajustes do Estado. Sem muitas medidas, fiz uma análise honesta do que estava vendo: era um governo bem-intencionado tomando medidas duras, porém errando na comunicação. A situação dramática das finanças do Estado exigiam medidas severas, porém deveriam ter elas vindas em doses menores e com um aparato de comunicação, que permitisse à sociedade compreender as razões daquelas ações administrativas. Téo, como é do seu feitio, ouviu atentamente, fez algumas perguntas e, lá para as tantas, depois de muito conversa, disse-me em tom meio maroto: - "Rapaz, bem que você podia assumir a Secretaria de Administração...". Sorri, tomando a fala na brincadeira. O assessor de comunicação olhou para o Téo e disse: "Governador, boa ideia. Seria interessante!".

Fiquei surpreso quando o Téo me olhou e fez o convite, agora em tom mais sério: "Adriano, rapaz, você é uma advogado bem sucedido. Poxa, poderia dar uma contribuição ao seu Estado. Seria muito bom você no governo, porque o André Varjas pediu exoneração e estou pensando em nomes para substitui-lo". O meu sorriso sumiu. Vi que a conversa estava tomando um rumo inesperado, ganhando um contorno que não me agradava.

Fui Secretário de Administração no primeiro governo de Ronaldo Lessa. Foi um período difícil, de muitos enfrentamentos. Sofri um desgaste enorme ao defender sozinho medidas polêmicas, como a execução orçamentária do orçamento do ano anterior (1998), já que a Assembleia Legislativa havia derrubado a proposta orçamentária do governo anterior e não deixado nada em seu lugar. Os secretários defendiam uma rendição, dependendo para tudo de créditos especiais solicitados ao Parlamento; eu, com uma visão política do processo, entendia que a execução orçamentária do ano anterior preservava o princípio da legalidade da despesa pública, ao tempo em que dava ao Poder Executivo autonomia frente ao Legislativo, que queria submetê-lo. Evidentemente que passei a ser atacado por isso, muitas vezes de forma covarde, pelos que desejavam o governo servil.

Saí do governo no ano seguinte com o compromisso de mais nunca exercer cargos públicos. O ônus fora muito grande para a minha família. E agora, quase dez anos depois, estava com o convite para exercer o mesmo cargo, em circunstâncias bem mais graves, quando a minha vida já estava estabilizada. Refuguei. Agradeci imensamente o convite, mas disse não ao Téo.

Téo é uma pessoa do bem. Afável, boa-praça, com um jeito meio zen. Aliás, gosta dessas coisas orientais. Diante do meu não, do meu desinteresse pelo cargo, provocou-me de uma forma diferente: "Adriano, você está vendo esse início complicado de governo, a gente querendo acertar, tendo que tomar medidas amargas para corrigir o rumo das coisas, cortando na própria carne. Precisamos da sua participação nisso. Faça uma coisa: venha sofrer comigo!".

Disse isso pegando em meu braço, em uma apelo fraterno, mas sério. E aquilo me desconcertou. O tal "venha sofrer comigo" foi o convite mais estranho que profissionalmente eu havia recebido. E mostrava a grandeza do encargo, de um lado, mas o nível de confiança que ele depositava em mim. Olhei para o Téo, sem jeito para conservar a firmeza da minha negativa, e pedi um prazo para pensar. O assessor de comunicação pegou a deixa: "Ok, amanhã então a gente anuncia!". Epa! Não, precisava realmente de um prazo para consultas. E me foram dados cinco dias.

Saí da sala de reunião e liguei imediatamente para a minha esposa, sabidamente contrária ao meu retorno para o serviço público. "Não, Adriano! Pelo amor de Deus, não!". Disse-lhe que pensássemos juntos, com calma. Liguei para um jornalista, amigo meu, e falei sobre o convite, obviamente pedindo que não publicasse. Gostaria apenas de ouvir a sua visão do governo, da situação política, uma vez que eu não estava acompanhando nada disso. Ficamos de conversar no dia seguinte e o fizemos longamente por telefone. Um bom papo, com ponderações responsáveis e uma conclusão pouco animadora: "Olhe, pelo Estado, seria bom assumir; por você, caia fora!".

Era o início da noite do dia seguinte ao convite. Reuni-me com os meus pais, meu irmão Henrique e a minha esposa. Ana Paula e a mamãe, contrárias; meu pai e o meu irmão, favoráveis. Meu pai foi decisivo para a minha aceitação: "Adriano, ajude o seu Estado. Dê a sua contribuição. Se o Governador lhe chamou nestes termos, é seu dever aceitar". O meu pai é um homem que pensa muito em servir aos outros. Aí estava a chave da sua fala: sacrifique-se por uma causa justa. Assim também o meu irmão.

Diante da altitude moral do meu pai e do meu irmão, as mulheres quedaram-se vencidas. Eu, ainda sem uma resposta, passei a olhar as coisas de uma outra forma. Gastei, porém, os tais cinco dias e fui ao encontro do Téo. Aceitei o convite e o encargo, com uma única condição: apenas me reportaria a ele e teria liberdade para atuar na reformulação da secretaria de administração, mexendo em previdência, alterando os procedimentos das compras públicas, auditando e reformulando a folha de pagamento, desenvolvendo políticas de desenvolvimento de pessoas. Incentivar o servidor público, defendendo o bom serviço público.

Relembro isso, agora, quando se aproxima essa nova eleição, para dizer que foi uma experiência fantástica trabalhar no governo do Téo. Mudamos o Estado, sim. E eu pude contribuir com isso; mais ainda: pude ter a alegria de participar disso. E torço que ele possa liderar esse resgate do Estado por mais quatro anos. Alagoas precisa da continuidade de políticas públicas saudáveis, responsáveis, comprometidas com a inclusão social e a geração de emprego. Por isso, neste espaço pessoal, para além de ser advogado do candidato Teotônio Vilela, ponho-me aqui como eleitor, manifestando publicamente o meu voto.

E vejam, advogar para um candidato não pressupõe ser eleitor dele. Advocacia não se confunde com militância política. Não votaria em alguns dos meus clientes, porque ideologicamente não me afino com eles. Essa a razão pela qual faço questão de manifestar o meu voto, como gesto de consciência.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Envelhecer e morrer

"- Papai, você vai ficar velho?". Olhei para Maria Eduarda surpreso com a pergunta. Ela me fitou e, antes que pudesse responder, pespegou-me outra: "- Papai, você vai morrer?". Os olhinhos miúdos esperavam uma resposta negativa, como se a eterna juventude pudesse ser adquirida nalguma esquina. Sorri-lhe um sorriso acolhedor, condescendente. "- Sim, filha, o papai vai ficar velhinho e, um dia, vai morrer. Todos nós passaremos por isso, inclusive você. Mas, olhe, vai demorar muiiito", assim mesmo, com ênfase no "i", para dar a sensação de demora sem fim.

A consciência da morte começa precocemente em nós, abrindo-nos para a sede do infinito, esse sentimento que nos diferencia de tudo: os animais, ainda que tenham consciência, ainda que tenham capacidade intelectiva, vivem apenas o presente, o hoje da existência. O ser humano, não, ele olha para o futuro, tentando enxergá-lo.

A pergunta da minha filha não é simples. Há profundidade nela. Velhice e morte são símbolos da corrupção da vida. A diferença entre nós e as crianças é justamente esta: elas se permitem perguntar sobre o que parece óbvio, sem adormecer o que as incomoda. Nós, os adultos, deixamos essas questões em stand by, passando por elas como não existissem, como se morte, por exemplo, não estivesse nos acompanhando dia a dia.

Certa feita, Ana Paula começou a cantar para Maria Eduarda músicas religiosas. Lá para as tantas, cantarolou "Mãezinha do céu, eu não sei rezar / só sei dizer / eu quero te amar / azul é o teu manto / branco é o teu véu / Mãezinha eu quero te ver...". Uma abrupta parada. Olhou para mim com enormes olhos, uma angústia de mãe: "- Não, não agora. Essa parte do ver lá no céu deve ser mudada...". Sim, Ana Paula quer ver Nossa Senhora no céu, em um futuro beeem distante. Também quer que a Maria Eduarda a veja, mas não tão cedo; quem sabe depois dos 80 anos...

Sim, temos uma imensa sede do infinito. Temos uma sede difusa do que tem nome, tem presença, tem constância em nossa história: Deus! É Nele que o envelhecer se transforma em juventude da alma, que a morte é vencida, que a ressurreição é mais que promessa: é fato! É Nele que o homem caído, estiolado pelo pecado, divinizou-se no homem glorificado em Cristo.

Mãezinha do céu, nós não sabemos rezar e queremos, sim, vê-la lá no céu. Reze por nós, media por nossas faltas, sê advogada nossa. E protege nossa filhinha com o seu imenso amor de mãe.

sábado, 24 de abril de 2010

O Rato Branco e a finta de corpo

Era para ser um dia especial. A quadra de cimento carrasquento estava cercada de gente para assistir o jogo, a grande final do campeonato de futebol de salão do grupo escolar Pe. Aurélio Góes, em Junqueiro.

O meu time era muito bom. Chegamos àquela final com sobras, vencendo as outras turmas da 3ª série do primário (hoje, chama-se ensino fundamental). Jogava armando as jogadas, tinha agilidade e um bom domínio da bola, lá com os meus 8 anos de idade. E o time era ajustado, tendo no gol o Rato Branco (não recordo o nome dele, mas era um menino longilíneo e um tanto albino) e na linha o Cláudio, que jogava muita bola e morava perto de mim. Não recordo dos outros meninos, mas tenho muito presente a fisionomia desses dois. O Rato Branco estava com o rosto sempre vermelho, pelo calor advindo do forte sol daquela tarde; o Cláudio, com o seu cabelo espetado, me ajudava na construção das jogadas, sempre correndo muito.

Bem, entramos em quadra ansiosos. Havia a torcida dos pais, dos professores e dos colegas. Uma torcedora em particular me interessava: uma moreninha linda de cabelos encaracolados, minha colega de turma, a quem paquerava: Jossilene, se não me engano. Logo antes de entrar na quadra dei de cara com ela. Meu coração bateu forte. Fui para o jogo querendo vencer, jogar bem, chamar a atenção dela.

A partida começou elétrica, disputada, sem favoritos. Jogo duro, zero a zero o tempo todo. A torcida cercava a quadra de cimento, que não possuía arquibancada. Ouvíamos o alarido, a azáfama sôfrega naquela escola embelezada com bandeirolas coloridas, que lhe ornavam com um tom festivo. Adrenalina elevada, ansiedade, corre-corre, jogadas inconclusas, bolas perdidas...

No final da partida, o lance capital. Recebo a bola em condições precárias, pressionado por adversários que me fustigavam. Cercado, driblo um deles e retorno ao meu campo. Olho para o Rato Branco e dou um passe para ele, atrasando a bola. O Rato Branco estava posicionado para recebê-la quando o Cláudio, visando ludibriar um adversário, corre e salta a bola, fazendo uma finta de corpo. Muito bem executada, aliás. Tão bem executada, que enganou até o nosso goleiro. A bola passou lentamente pelo Rato Branco e gol! Tornei-me involuntariamente o artilheiro do dia.

Perdemos o jogo; eu, a honra. Cabisbaixo ao final da partida, restaram-me as gozações. Não vi a Jossilene. Aliás, não vi ninguém. Na garupa de uma bicicleta amiga, sai sob aplausos irônicos de alguns, fulo da vida com o Cláudio.

Lembro-me da bicicleta monark vermelha, da minha cara de pau acenando com uma das mãos para os anarquistas enquanto me segurava no assento com a outra. Bem, perdi o jogo, a tarde e o orgulho. Restou-me a recordação daquele dia, que no fundo no fundo foi engraçado. Eita, como a vida é boa e como é imprevisível.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Si isti et istae, cur non ego?"

Dedico este texto aos que sonham, aos que têm a capacidade de admirar e, com isso, buscar humildemente modelos. Dedico ao meu pai. Ele sabe o porquê.
Uma pessoa olhou para mim e disse: "Poxa, vou estudar muito para um dia ser preparado, mas nunca conseguirei ser como você". Vi nos olhos dela uma humildade sincera, uma admiração pelos meus estudos. E por isso respondi com uma frase tantas vezes ditas e reditas pelo meu pai (um grande educador....), seja nas conversas com os seus filhos, seja nas salas de aula (quando lecionava de modo desprendido para distribuir o saber para toda uma geração de crianças junqueirenses), ou ainda em tantas oportunidades em que quis estimular as pessoas que pediam os seus conselhos: - "Se eles puderam, elas puderam, porque eu não posso?" ("Si isti et istae, cur non ego?").

Estímulos. Educar é estimular para o bem, para os bons valores, para a autoconfiança, tudo isso demarcando limites. Tudo o que somos é produto da educação e dos nossos esforços.

Quando eu era estudante de Dierito, o papai me apontou, certa feita, um grande advogado, reconhecido em Alagoas como um homem culto. E aí ele dizia: " Filho, fulano é um bichão!!!". Duas expressões serviam para o papai definir positivamente um homem: trabalhador e bichão. "Bichão", no discurso do papai, queria dizer grande, competente, temido, capaz, admirável. Tudo isso junto, resumido em uma única palavra. Olhei para o advogado indicado pelo meu pai e pensei: - "Quero ser igual a ele; quero ser tão bom quanto ele!". Olhei com admiração, não com inveja; olhei como quem olha um modelo a ser seguido. A inveja é a perversão da admiração, nascida da impotência e do orgulho ferido. Quantos ficaram pelo caminho porque não souberam admirar, alimentando em si não a virtude do exemplo mas o veneno do ciúme e da baixa autoestima?

Em 1990 fui presenteado pelos meus pais com uma viagem para Minas Gerais, para participar de uma conferência nacional da OAB. Estava no segundo ano do curso de Direito. Viajei com muito interesse. Na entrada do Minascentro, onde ocorria o evento, ficavam estandes de livrarias. Parei diante da Sérgio Fabris Editora, que estava editando o livro Teoria Geral das Normas, de Hans Kelsen. Um amigo chegou perto de mim, puxou-me pela manga da camisa e apontou-me um senhor de idade, parado ali pertinho de onde estávamos: "Adriano, olha o Calmon de Passos!". Eu era leitor do processualista baiano. Vindo da província, estar ao lado de autores de obras era como estar uma realidade paralela. Aliás, era como eu me sentia naquele momento, olhando para aquele homem de cabelo branco, terno preto, fisionomia fechada, absorto diante de obras que compulsava como um adolescente. Naquele momento, a única coisa que pensei foi que ele era de carne e osso. Olhei-o bem, com atenção. Calmon de Passos! Ah, que belo livro ele escreveu de comentários ao Código de Processo Civil! A minha cabeça maquinava: mas se ele pode, porque não eu? O que há neste homem de diferente de mim? A resposta veio como sempre vem nessas horas: o tempo dedicado ao estudo, os sacrifícios que fez, as horas gastas meditando!

Nos dias seguintes, pude assistir as palestras de Mauro Capelletti, Canotilho, Eros Grau, Celso Antônio Bandeira de Mello et caterva. Voltei daquela viagem vivamente marcado. Aquelas pessoas cujos pensamentos eram objeto das minhas atenções estiveram ali diante das minhas retinas. E eram gente como a gente, homens que chegaram lá porque se esforçaram, foram dedicados. Voltei para a província com o espírito inquieto, com uma sede abundante de estudo. Pensei comigo que um dia ainda estaria fazendo uma palestra no Minascentro. Voltei diferente do que fui. A frase de Santo Agostinho batendo nos seus ouvidos: "Eles puderam, elas puderam, porque eu não posso?".

Comecei a me dedicar com disciplina. E não foi fácil, por diversas razões. Muitas vezes me angustiava pensando que poderia estar errado, porque doava muito tempo ao estudo de textos densos, profundos, que exigiam muito da minha atenção. Não eram leituras fáceis aquelas que eu fazia, sem ter com quem conversar sobre elas, com quem debater a respeito das minhas inquietações intelectuais; sem ter, enfim, nenhum orientador. Era eu comigo mesmo e os livros.

Jogava bola sempre (normalmente, todos os dias da semana, às 17 horas, em um campinho vizinho da minha casa), namorava, saia com a minha turma (a turma do funil, como chamávamos), mas renunciei a muitas coisas. Os meus fins de semana eram de estudo pela manhã e à tarde. Folga, só à noite. No carnaval, quando fiquei em casa de praia, como a família da minha namorada, depois de todo mundo dormir, eu ia estudar. Estudava das 23 horas até às 04 horas da madrugada. Dormia até às 11 horas, levantava e ia para a praia, passava o dia brincando (sem beber) e à noite, depois de todo mundo dormir, enfrentava nova jornada de estudo. Lembro das longas leituras da obra de Ovídio Baptista da Silva sobre a coisa julgada.

A mesada que o papai me dava era toda investida em livros. Vivia sem dinheiro no bolso. A minha namorada da época muitas vezes pagava a conta da pizza... (Que cara de pau eu fui, não?!) Mas foi assim, investindo tudo o que ganhava em livros, que fiz uma boa biblioteca para pesquisar. Quando a mesada passou a ficar insuficiente para adquir todos os títulos que queria, e o papai já não aguentava pagar tanta conta de livros, passei a ensinar matemática particular. (Eu sempre fui péssimo em matemática, aliás). Alguns estudantes do ensino fundamental da 6ª, 7ª e 8ª séries da época passaram a estudar lá em casa, e eu ocupava as tardes de terça e quinta-feira com essas aulas de reforço. Continuava eu com os bolsos vazios, mas as minhas estantes estavam ficando ricas e sortidas.

Falei da solidão nos estudos. Esse foi o maior desafio: a ausência de um interlocutor. Tive que buscar sozinho os meus caminhos, sem que ninguém me apontasse autores, temas, livros. Fui aprendendo sozinho a separar o que era relevante do irrelevante, normalmente consultando a bibliografia daqueles autores com quem me identificava. Dou um exemplo: na livraria, folheei a 4ª edição do Curso de Direito Tributário de Paulo de Barros Carvalho. A densidade da obra me chamou a atenção, além da linha de sabor pontesiano. Estudando a obra, chamou-me a atenção as inúmeras citações de Lourival Vilanova, sobre lógica jurídica. Comprei As Estruturas Lógicas e o Sistema do Direito Positivo. Comecei a estudá-la também. Esse livro era terrível para não iniciados. Expressões que nunca havia visto, como functor, sincategorema, conectivo, lógica apofântica, lógica deôntica e outras tantas. Usei o método que aprendi estudando os Comentários de processo civil de Pontes de Miranda: ler, mesmo sem entender, um capítulo inteiro ou uma longa passagem, concentrando-se nas expressões que o autor dá importância, tentando entender o seu uso. Depois, ler novamente a mesma passagem ou capítulo, observando agora o que foi compreendido e tentando tirar novas lições. O que não foi entendido, deixar anotado para futura nova leitura. Seguir em frente, lendo novo capítulo ou nova longa passagem. Ler novamente esse segundo texto, agora tentando casar com o lido no primeiro. Nessas idas e vindas constantes, tentar conciliar as expressões, os conceitos, os usos do autor.

É um trabalho duro, cansativo e desgastante. Mas sempre usei, e ainda uso, esse método. Qual a vantagem dele? O estudo invade a intimidade do texto, expõe as suas contradições (quando existem) e deixa à mostra a nervura que lhe dá consistência e o mantém de pé.

Bem, volto ao início dessa longa narrativa. Ninguém pode ser bom em sua profissão sem dedicação e entrega. Podemos não ser o melhor, mas devemos ser o melhor do que podemos. Com esforço, com determinação, porque "Si isti et istae, cur non ego?". Por isso, termino esse post com um texto que gosto muito:

Seja o melhor que puder

Se você não puder ser um pinheiro no topo da colina
Seja um arbusto no vale mas seja o
melhor arbusto à margem do regato.
Seja um ramo, se não puder ser uma árvore.
Se não puder ser um ramo, seja um pouco de relva
e dê alegria a algum caminho.
Se não puder ser almíscar, seja então apenas uma tília,
Mas a tília mais viva do lago! Não podemos ser todos capitães,
temos de ser tripulação.

Há alguma coisa para todos nós aqui. Há grandes obras e outras menores a realizar e é a próxima tarefa que devemos empreender
Se você não puder ser uma estrada, seja apenas uma senda.

Se não puder ser sol, seja uma estrela, não é pelo tamanho que terá êxito ou fracasso, mas seja o melhor, do que quer que você seja!

Douglas Malloch


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Crônica da semana: Mingau de Barro

Era um domingo como outro qualquer. O sol estava a pino, deixando mais azul o céu sem nuvem de Junqueiro. Subimos na carroceria da caminhonete da padaria, usada normalmente para levar pão para ser vendido nos povoados. Estávamos todos felizes com o passeio: meus irmãos, Sérgio, Hélio, algumas outras crianças que a memória embotou nomes e rostos, como uma fotografia antiga. Fomos para o poço, naquele sítio que era chamado pomposamente de Fazenda Dois Irmãos, uma homenagem ao Helinho e ao Serginho. O avô materno preferia denominá-la de Fazenda Três Cachorros, aludindo às constantes brigas entre os netos e, ao mesmo tempo, homenageando a cachorrinha Laika, que alegrava o seu ocaso na senectude.

Poço era como chamávamos a pequena represa da água de um riacho, feita de cimento e tijolo, que formava uma espécie de piscina. Adorávamos esse passeio, acompanhado de uma boa farofada, galinha cozinhada e refresco de laranja. Crianças, pulávamos naquela água limpa que não tardava em ficar escura, com tanta gente removendo a areia do fundo. Pouco importava: escura ou não, brincávamos ali mesmo, num mingau barrento que dava gosto.

E a manhã toda era uma festa, com brincadeiras divertidas, músicas cantadas por todos (Roberto Carlos dominava o repertório, claro!), sem qualquer preocupação com o tempo ou afazeres. Éramos crianças felizes, brincando na realidade que tínhamos e com a qual nos sentíamos alegres, seguros, plenos. Para as crianças, penso eu, o que traz a felicidade é o ambiente sadio, pouco importando se com ótimos brinquedos ou não. Porque a criança brinca com a imaginação, com os sonhos, com as historinhas criadas pela própria fantasia.

O sítio era cercado por pequenas propriedades de agricultores simples, separado delas por uma cerca velha de madeira. Com as suas árvores frondosas, que davam gostosas sombras, ficávamos ali, pós "banho de barro", cantarolando, servindo-nos do almoço levado em marmiteiras, felizes como se estivéssemos em uma grande jornada. Eita, que lembrança boa me invadiu! Quase consigo sentir o cheiro do mato, o gosto da água barrenta que sem querer engolia em cada mergulho, a lama nos pés debaixo d'água, o cimento carrasquento em que nos encostávamos entre um mergulho e outro... Uma saudade da infância, dos dias inocentes, em que não tínhamos o peso das responsabilidades, apenas o infinito da imaginação como fronteira.

E voltávamos cantando ainda mais animados, Seu Zé Cruz e a Dona Hélia à frente, na boleia, conduzindo aquelas crianças todas, cuja felicidade não se podia medir. E logo avistávamos Junqueiro da nossa infância, aquela cidade que existe em minhas lembranças e na imensa saudade que sinto.

Se não nos lembramos de quem fomos, como podemos saber realmente quem somos? Se não amarmos a nossa história, os limites que tínhamos, as dificuldades vividas, como ser realmente felizes, seguros para a lida diária? Quando lembro de onde vim, do pouco que foi feito tanto, da imaginação que superava eventuais faltas, sinto-me tão alegre, podendo voltar os olhos molhados para aquela criança que fui e que vive em mim, sentindo uma profunda gratidão. Aquela criança de Junqueiro soube viver, soube brincar, soube ser criança. E por isso Junqueiro da minha infância, com todos os seus personagens, habita em meu coração.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"É fácil falar de mim; difícil é ser eu".

Tenho observado com enorme constância carros plotados com esses dizeres: "É fácil falar de mim; difícil é ser eu". A par da construção linguística que não esconde a sua fealdade, revela uma visão derrotada da vida. Por que seria difícil a pessoa ser ela mesma? Já não estaria aí um desculpa às críticas ("é fácil falar de mim"), antecedida de uma oceânica baixa autoestima?

No "é difícil ser eu" está embutida a revelação da desconfiança sobre si mesmo, uma desculpa antecipadas para os próprios limites e circunstâncias, uma percepção de estar de antemão aquém dos próprios desafios, por menores que sejam. É a frase, na verdade, um desafio aos interlocutores, porém de sinal trocado: desafio de quem antecipadamente já se pôs em posição de desvantagem. Seria diferente um desafio noutros termos: "Pode falar de mim; eu sigo em frente, porque sei aonde vou, porque busco os meus sonhos". Enquanto me criticam, eu persigo os fins desejados, não me quedo diante da crítica, não me deixo abater e desisto, porque simplesmente é difícil. Se fácil fosse, qual o mérito, afinal?

O derrotismo está presente nessa desculpa prévia: é difícil estar no meu lugar, porque a minha vida traz limitações, porque as minhas circunstâncias me impõem limites. E esse derrotismo é muito presente em nossas vidas: quantas vezes encontramos os que simplesmente desistiram de tentar, os encastelados em suas frustrações que a tudo justifica, os blindados pelo "deixa estar"? Não. É natural que falem, uns por inveja, outros por cupidez, alguns para ajudar... Mas não é isso que nos faz andar ou ficar, que nos move ou imobiliza. É a força que há em nós, o desejo de ir em frente, a ânsia de felicidade. São essas coisas que nos fazem dar um passo a mais, porque "é sempre um passo que falta", como dizia tão bem Antoine de Saint Exupèry em seu "Voo Noturno".

Aliás, nesta obra há algumas afirmações que podem nos fazer pensar, como em um dos diálogos em que o piloto Rivière afirma: "Você percebe, Robineau, na vida não há soluções. Há forças em movimento: é preciso criá-las e as soluções sobrevêm". Noutra passagem desta obra madura de Exupèry, há uma outra interessante afirmação sobre o sentido da vitória: "Após um ano inteiro de luta, Riviére obtivera a vitória. Uns diziam ' graças à sua fé', outros diziam ' graças à sua tenacidade, à sua força bruta de urso em movimento', mas, segundo ele, mais simplesmente, porque se obstinara sempre na direção certa".

É isso, vencemos quando somos obstinados a seguir na direção certa. Direção que não nos é dada, mas construída em nós, em nossos sonhos legítimos, em nossa vontade de crescer como pessoa, em nossa disposição para ser felizes. Felicidade honesta, que não advém da destruição da felicidade de outros. Ora, "é fácil falar de mim", porque é fácil se entreter com a vida alheia enquanto a sua passa sem ser notada, sem um rumo a seguir, sem a felicidade a buscar. Não é difícil, porém, estar em meu lugar, ser eu, porque eu sou uma aventura do amor de Deus, eu sou um sonho em constante realização, eu sou a dor das dúvidas e a expectativa do amanhã. Sim, eu sou as possibilidades em aberto, o sorriso por ser dado, os medos dissipados... mas eu sou eu e a força que me faz ser construtor da minha vida, caminhante de caminhos que quero percorrer sem medo e sem a desculpa eterna da espera que nunca acaba e apenas justifica.

Enfim, quero ser eu mesmo, com meus defeitos, com as minhas limitações, com as contradições que habitam em mim. Porque amando a minha história e o que sou, mesmo quando tudo parece perdido, há sempre a certeza do amanhã em que posso fazer a diferença e mudar os rumos das coisas.

(Quem quiser ler o pequeno livro "Voo Noturno", pode fazê-lo online aqui).

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Decisão em tempos difíceis

Vinha de bem com a vida. Parou o carro ao sinal vermelho. O menininho com roupa esgarçada lhe ofereceu morangos. Resolveu comprar alguns para ajudá-lo. Baixou o vidro da janela com um toque suave no botão. Quanto o morango?, perguntou. O menino lhe disse o pequeno valor. Ela olhou a carteira e viu a nota de R$ 50 reais. Filha única. Só tenho cinquenta, afirmou. Você tem troco? O menino assentiu com um tímido maneio de cabeça, apontando para uma loja ali perto, onde trocaria a nota grande. Recebeu o dinheiro e entregou a caixa com todos os morangos.

A moça ficou no carro esperando o troco. Os minutos se alongaram e não havia mais menino nem nota de R$ 50 reais. A espera longa fez ela perceber que não veria mais o menino. Olhou com raiva para os morangos e entregou a caixa ao primeiro pedinte no sinal mais próximo.

Tomou uma decisão que pretendia observar o resto da sua vida: jamais comeria morangos novamente. Tempos difíceis exigem decisões extremas.

domingo, 11 de outubro de 2009

Salvo, mas...

Senti algumas dores abdominais e fui ao médico. Pensei no pior: poderia ter uma grave doença. Nessas horas pensamos nos que amamos, naquelas pessoas que nos são caras e que não gostaríamos de deixar desamparadas, sem a nossa presença e sem as nossas energias disponíveis para lutarmos por elas. Graças a Deus os exames preliminares mostraram que se tratavam de um stress os meus sintomas, embora deva fazer novos exames, já que sempre fui arredio a médicos e a check-ups.

Depois desse susto, típico dos dias modernos, em que trabalhamos sem parar, num ritmo sempre acelerado, com pouco espaço para férias, divertimentos e descansos, resolvi me cuidar, logo que possa... Mesmo assim, vou fazer todos os exames, alguns muito desagradáveis. Tudo certo.
não é mesmo?!