Eu creio em ti, Senhor!
Só me compreendo, com meus pecados, com meus erros, com a minha fragilidade, se meus olhos te alcançam pequeno e frágil na manjedoura. Despojado de tudo, até mesmo da dignidade de um local adequado para o teu nascimento.
Só me entendo na minha miséria através do teu amor. Meus medos, minhas angústias, minhas dúvidas apenas se dissipam se olho para a tua coragem diante de Pilatos, diante dos que te acusavam e te cuspiam.
Só me vejo grande, inteiro, feliz se se vejo a tua firmeza diante do mundo, o teu olhar doce e misericordioso, a tua infinita paciência em nos ensinar, acolher e mostrar o caminho.
Só consigo ser eu mesmo se te olho na cruz, sangrando, destruído, derrotado da forma mais amarga e abjeta. É na tua entrega por mim que me aceito e sinto que posso ir adiante sem medo da vida, porque tu, Meu Deus, venceste a morte.
Enfim, eu creio em ti! Creio que o teu amor é tão profundo que a ressurreição me abriu as portas para alcançar os teus braços e ser acolhido em minha vida pequena, insignificante e tola. Tu me fazes grande, tu me me fazes forte, tu, meu Senhor e meu Deus, és o "sim" que eu não pude dar, o gesto que quis mas não pude fazer, a coragem que tantas vezes me falta.
Eu creio em ti, Senhor! Tu és meu Deus!
sábado, 24 de dezembro de 2011
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Paralelas
Linhas paralelas se tocam em algum ponto do tempo ou espaço? Na geometria euclidiana essa operação é impossível; destruiria o próprio conceito. Matematicamente, as paralelas vão ao infinito. Não há possibilidade do toque, da perda de rumo, como fossem linhas de trem, construídas exatamente para serem uma para a outra companheiras do desencontro.
Mas na geometria da vida as linhas, mesmo quando paralelas, terminam tendo um ponto de confluência: às vezes, o acaso; por vezes, um olhar; vezes bastas, uma palavra; outras tantas, um gesto qualquer. E o que era para ser um infinito desencontro transforma-se em uma inversão na lógica euclidiana: as linhas se tocam, se invadem nos espaços e no correr do adiante.
Almas que se encontram são como linhas paralelas que desafiam o destino, a história, o "script", a receita de bolo pronta e acabada. Desafiam, sim, porque negam-se a ler páginas escritas previamente, roteiros traçados por se-sabe-lá-quem, que com com régua e esquadro desenha o caminho ou, lápis à mão, bosqueja uma crônica antecipada do que devemos ser.
O amor é o elemento que destrói a geometria perfeita da vida predisposta e, em um giro sobre si mesmo, redesenha linhas em descompasso e reconstrói novas realidades. É ele essa revolução que esmiuça e desqualifica todos os postulados, rompendo os vincos precisos dos paradigmas, mostrando que a nossa racionalidade simplesmente se rende àquilo que está além mesmo da própria linguagem, do plano da expressão: amar é dizer - de si mesmo e do outro - sem a posse das palavras e para além dos próprios pensamentos! É sentir o sentimento; é assumir o outro antes mesmo do cogito, do "eu penso".
O amor invade a cidadela da razão. Toma-lhe as terras, derruba as fronteiras, se apodera dos seus despojos e faz escravo, como diria o poeta, o vencedor! Amar é ganhar para perder-se, consoante Camões proclamara ainda nos tempos das caravelas. E não sem razão. Não sem olhar para o Sr. El Rey, o amor, e lançar, sem medidas, as velas ao mar da vida.
Há revolução no amor. Quem não sentiu a vida mudar ao ser tomado por ele, quem não sentiu o coração espicaçado em mil pedaços, quem não sentiu a perda do senhorio sobre os próprios sentimentos, não viveu a experiência do amor. Pode ter gostado, pode ter nutrido um sentimento bom por alguém, pode até ter se enamorado, mas não viveu a experiência daquilo que os poetas proclamaram desde sempre, quando o homem começou a se entender e brincar com as palavras. E se você - sim, você que me lê! - não viveu nada disso, a vida lhe roubou a maior das experiências, deixando-o longe do abismo, é certo, mas sem a emoção que ele proporciona.
Porém, que viveu essa densa tempestade, não adianta fugir dela. Ele, o amor, não abandona quem o descobriu comendo-lhe as entranhas da alma. A fuga é o salto no vazio da autonegação. Se o amor não é correspondido com a mesma intensidade e força, o único modo de sobreviver a ele não é negá-lo, é simplesmente deixá-lo vivente, lá em quarto escuro do coração, privado de água e pão, até que, moribundo, não tenha forças para ferir a alma, embora subsista vivo, ali onde não pode gritar para ser ouvido. Mas, nesse caso, nunca deixe que os olhos vejam a pessoa amada: a masmorra em que o amor foi aprisionado poderá não existir à experiência e viver dias de Bastilha.
O amor, finalmente, é a mais bruta força da natureza. Morre-se por amor, agiganta-se por amor, faz-se guerras por amor. Reinos caíram em razão dele, reis abdicaram, plebeus viraram príncipes, obras de arte foram compostas, monumentos erguidos. Em seu nome, a história da humanidade foi escrita e reescrita. Tudo pelo amor humano, amor de homem e mulher. Por ele, as paralelas se curvam e se perdem no enlace do infinito!
Mas na geometria da vida as linhas, mesmo quando paralelas, terminam tendo um ponto de confluência: às vezes, o acaso; por vezes, um olhar; vezes bastas, uma palavra; outras tantas, um gesto qualquer. E o que era para ser um infinito desencontro transforma-se em uma inversão na lógica euclidiana: as linhas se tocam, se invadem nos espaços e no correr do adiante.
Almas que se encontram são como linhas paralelas que desafiam o destino, a história, o "script", a receita de bolo pronta e acabada. Desafiam, sim, porque negam-se a ler páginas escritas previamente, roteiros traçados por se-sabe-lá-quem, que com com régua e esquadro desenha o caminho ou, lápis à mão, bosqueja uma crônica antecipada do que devemos ser.
O amor é o elemento que destrói a geometria perfeita da vida predisposta e, em um giro sobre si mesmo, redesenha linhas em descompasso e reconstrói novas realidades. É ele essa revolução que esmiuça e desqualifica todos os postulados, rompendo os vincos precisos dos paradigmas, mostrando que a nossa racionalidade simplesmente se rende àquilo que está além mesmo da própria linguagem, do plano da expressão: amar é dizer - de si mesmo e do outro - sem a posse das palavras e para além dos próprios pensamentos! É sentir o sentimento; é assumir o outro antes mesmo do cogito, do "eu penso".
O amor invade a cidadela da razão. Toma-lhe as terras, derruba as fronteiras, se apodera dos seus despojos e faz escravo, como diria o poeta, o vencedor! Amar é ganhar para perder-se, consoante Camões proclamara ainda nos tempos das caravelas. E não sem razão. Não sem olhar para o Sr. El Rey, o amor, e lançar, sem medidas, as velas ao mar da vida.
Há revolução no amor. Quem não sentiu a vida mudar ao ser tomado por ele, quem não sentiu o coração espicaçado em mil pedaços, quem não sentiu a perda do senhorio sobre os próprios sentimentos, não viveu a experiência do amor. Pode ter gostado, pode ter nutrido um sentimento bom por alguém, pode até ter se enamorado, mas não viveu a experiência daquilo que os poetas proclamaram desde sempre, quando o homem começou a se entender e brincar com as palavras. E se você - sim, você que me lê! - não viveu nada disso, a vida lhe roubou a maior das experiências, deixando-o longe do abismo, é certo, mas sem a emoção que ele proporciona.
Porém, que viveu essa densa tempestade, não adianta fugir dela. Ele, o amor, não abandona quem o descobriu comendo-lhe as entranhas da alma. A fuga é o salto no vazio da autonegação. Se o amor não é correspondido com a mesma intensidade e força, o único modo de sobreviver a ele não é negá-lo, é simplesmente deixá-lo vivente, lá em quarto escuro do coração, privado de água e pão, até que, moribundo, não tenha forças para ferir a alma, embora subsista vivo, ali onde não pode gritar para ser ouvido. Mas, nesse caso, nunca deixe que os olhos vejam a pessoa amada: a masmorra em que o amor foi aprisionado poderá não existir à experiência e viver dias de Bastilha.
O amor, finalmente, é a mais bruta força da natureza. Morre-se por amor, agiganta-se por amor, faz-se guerras por amor. Reinos caíram em razão dele, reis abdicaram, plebeus viraram príncipes, obras de arte foram compostas, monumentos erguidos. Em seu nome, a história da humanidade foi escrita e reescrita. Tudo pelo amor humano, amor de homem e mulher. Por ele, as paralelas se curvam e se perdem no enlace do infinito!
domingo, 11 de dezembro de 2011
Sonhos e realidade: "sim, eu posso!".
Somos muitas vezes limitados em nossos sonhos. Muitos dizem para nós: "vocë não pode!", "isso é impossível!", "você não consegue!". E isso, mais da vez, é dito por pessoas que amamos, que têm receio e apenas passam para nós os seus próprios limites, os seus próprios medos diante da vida.
São como a mãe de Marisa Ventura (J.Lo) no filme "Encontro de Amor". Diante do primeiro problema, diante de sonhos que parecem difíceis, não apenas a negativa do incentivo, mas a realidade crua jogada na cara, como uma âncora a impedir que se navegue para águas mais profundas:
- "Quer continuar a ter sonhos que nunca vão se realizar ou botar comida na mesa?", pergunta ela à filha mostrando-lhe contas a serem pagas.
Diante de uma pergunta assim, qual a resposta possível? Deixar que o medo tome conta, deixar os sonhos de lado para simplesmente "lavar o chão", como seria o destino de Marisa?
E ela dá a resposta possível, corajosa, definitiva:
- "Eu vou pegar essa chance sem medo nenhum, sem a sua voz na cabeça dizendo que eu não posso!".
Sim, como é imperativo, em nossas vidas, dar os saltos necessários, com os riscos todos, para que possamos transformar aqueles sonhos em uma nova realidade. Nem sempre é fácil, nem sempre dá certo, mas ao menos podemos olhar para a vida e dizer: "eu tentei!; eu lutei".
Afinal, vencer é apenas uma possibilidade; lutar, porém, é sempre a única saída digna e definitiva.
Aí podemos ver, quem sabe!?, as pessoas que antes toldavam os nossos sonhos, dizerem como a mãe de Marisa, ao final do filme, muito orgulhosa:
- "Aquela é a minha filha!", apontando para a televisão.
A frase do filme, dita pelo Mordomo do Hotel:
"O que fazemos, não define o que somos. O que nos define é o quão rápido nos levantamos depois de cair."
Maid in Manhattan - Um encontro de amor.
(Uma breve reflexão sobre o filme água com açúcar "Encontro de Amor", 2002).
São como a mãe de Marisa Ventura (J.Lo) no filme "Encontro de Amor". Diante do primeiro problema, diante de sonhos que parecem difíceis, não apenas a negativa do incentivo, mas a realidade crua jogada na cara, como uma âncora a impedir que se navegue para águas mais profundas:
- "Quer continuar a ter sonhos que nunca vão se realizar ou botar comida na mesa?", pergunta ela à filha mostrando-lhe contas a serem pagas.
Diante de uma pergunta assim, qual a resposta possível? Deixar que o medo tome conta, deixar os sonhos de lado para simplesmente "lavar o chão", como seria o destino de Marisa?
E ela dá a resposta possível, corajosa, definitiva:
- "Eu vou pegar essa chance sem medo nenhum, sem a sua voz na cabeça dizendo que eu não posso!".
Sim, como é imperativo, em nossas vidas, dar os saltos necessários, com os riscos todos, para que possamos transformar aqueles sonhos em uma nova realidade. Nem sempre é fácil, nem sempre dá certo, mas ao menos podemos olhar para a vida e dizer: "eu tentei!; eu lutei".
Afinal, vencer é apenas uma possibilidade; lutar, porém, é sempre a única saída digna e definitiva.
Aí podemos ver, quem sabe!?, as pessoas que antes toldavam os nossos sonhos, dizerem como a mãe de Marisa, ao final do filme, muito orgulhosa:
- "Aquela é a minha filha!", apontando para a televisão.
A frase do filme, dita pelo Mordomo do Hotel:
"O que fazemos, não define o que somos. O que nos define é o quão rápido nos levantamos depois de cair."
Maid in Manhattan - Um encontro de amor.
(Uma breve reflexão sobre o filme água com açúcar "Encontro de Amor", 2002).
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Escolhas
Lá estava a vida com as suas escolhas. Cá estamos nós, com as nossas possibilidades. E entre um e outro, entre a vida e quem somos, há os passos a serem dados, as opções a serem assumidas, o destino a nos bater a porta. Todos nós, indefectivelmente, vivemos isso. Todos nós, indefectivelmente, caminhamos em um universo de escolhas e possibilidades.
O que é a felicidade? O encontro certeiro com a nossa vocação, o transformar as possibilidades em realidade, o fazer as nossas escolhas segundo o nosso coração. A felicidade é um estado de refazer-se constante! É o resultado dos passos dados, dos caminhos percorridos, do suor despendido na lida sem fim.
Não pode ser feliz quem se trai; não pode ser feliz quem se nega a si mesmo no processo da vida. Porque faz de si uma farsante, um reflexo falso dos seus próprios sentimentos e sonhos.
Eu simplesmente admiro - sim, admiração! - quem se permite questionar. Quem põe em xeque as suas certezas e se deixa indagar sobre os seus próprios fundamentos. Perguntar-se é em si mesmo uma atitude corajosa. Quem sou?, que é para mim a vida?, como Deus se apresenta para mim?, quais as tradições que quero ou não seguir por razões tais ou quais?, quais caminhos devo percorrer?... O exercício sincero das perguntas que buscam respostas é a mais profunda experiência de si mesmo. Revela a grandeza maiúscula de quem se põe diante da vida com um vivente autêntico.
E o perguntar-se sinceramente permite sonhar quem tem a coragem linda, encantadora, de se refazer todos os dias à procura de si mesmo. Só quem se busca cresce; só que se olha a si mesmo com verdade se agiganta diante das escolhas e possibilidades. Só quem, afinal, tem a profundidade para se perguntar "quem sou nesse mundo que me cerca?" pode estar sempre à procura das constantes respostas que nos fazem crescer, buscar, amar, sonhar e... dar os passos para a construção de quem somos de fato.
Amor líquido
Três coisas que dilaceram o amor maduro: o ciúme sem medida, a desconfiança injustificada e as atitudes intempestivas.
O amor de hoje é líquido, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, porque amar é cuidar. O bom jardineiro cuida do seu jardim, conhece as vicissitudes das suas plantas. Para isso, deixa-se estar com elas. Esse "perder tempo" é fundamental no amor, também. Amar é enamorar-se. É ganhar tempo ao perder-se nele, criando raízes, olhando nos olhos, invadindo todas as reentrâncias da alma... e não apenas dela!
"É um cuidar que se ganha em se perder", já dizia Camões, com a sua pena precisa de poeta. O perder-se em momentos de conversas, de cumplicidade, de uma dança doce de mundos que se querem amalgamados numa história construída passo a passo.
Quem não sabe perder tempo com quem se ama não sabe amar. Quem se perde em ciúme tolo, em desconfiança excessiva ou em atitudes intempestivas, perde justamente uma das coisas mais doces do amor: a cumplicidade.
O amor nem sempre é investimento; é perda para um ganho humano, Perda do orgulho, perda dos medos, perda do EU para iniciar o NÓS que não se funde e se complementa, perda do tempo dos negócios em favor do tempo de um telefonema de carinho... Perder nem sempre é subtração, afinal!
O bom amor líquido é líquido pelo que se provoca na mulher amada; e nada mais!
O amor de hoje é líquido, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, porque amar é cuidar. O bom jardineiro cuida do seu jardim, conhece as vicissitudes das suas plantas. Para isso, deixa-se estar com elas. Esse "perder tempo" é fundamental no amor, também. Amar é enamorar-se. É ganhar tempo ao perder-se nele, criando raízes, olhando nos olhos, invadindo todas as reentrâncias da alma... e não apenas dela!
"É um cuidar que se ganha em se perder", já dizia Camões, com a sua pena precisa de poeta. O perder-se em momentos de conversas, de cumplicidade, de uma dança doce de mundos que se querem amalgamados numa história construída passo a passo.
Quem não sabe perder tempo com quem se ama não sabe amar. Quem se perde em ciúme tolo, em desconfiança excessiva ou em atitudes intempestivas, perde justamente uma das coisas mais doces do amor: a cumplicidade.
O amor nem sempre é investimento; é perda para um ganho humano, Perda do orgulho, perda dos medos, perda do EU para iniciar o NÓS que não se funde e se complementa, perda do tempo dos negócios em favor do tempo de um telefonema de carinho... Perder nem sempre é subtração, afinal!
O bom amor líquido é líquido pelo que se provoca na mulher amada; e nada mais!
Ter medo
Ter MEDO do amanhã é uma necessidade de sobrevivência. Quem não tem medo não tem como saber valorar o que vale a pena nos levar aos riscos. O medo são os nossos sentidos avisando que há razões para cautela, para que o passo dado seja melhor medido e pesado. Mas o medo não pode nos paralisar, não pode ser a desculpa para abrir mão do que acreditamos e do que realmente somos.
Não é ruim ter medo. Mas é terrível ser dominado por ele, permitir que ele dê a última palavra, abrindo mão dos sonhos, das razões que nos fazem sorrir, gozar a vida, dar passos firmes rumo ao desconhecido horizonte que de quando em quando se nos apresenta. Por vezes, horizontes que se nos apresentam uma única vez na vida...
"Não tenha medo!", "Non abbiate paura!". João Paulo II nos disse as palavras de Jesus para que sempre nos lembremos que o medo faz parte da vida e da história humana, mas que a coragem é a nossa verdadeira vocação para a felicidade.
A aventura de viver
Viver é sempre uma impressionante aventura. Cada dia aprendo mais isso. Cada dia acho que vale mais a pena as lutas diárias, as defesas das convicções, as buscas constantes… Cada dia acredito mais que, aconteça o que acontecer, é preciso sonhar, ter caminhos a seguir, ter a força para pegar a vida com as unhas, sem medo do amanhã que, poxa!, ninguém sabe como será. Podemos construi-lo, é certo, mas sempre a partir do HOJE. O HOJE é o passo dado, é a decisão tomada, é o querer feito ação…
Quem se prende demais ao amanhã, logo se vê!, não dá conta que o amanhã será sempre o amanhã, que não há pontes outras para ele, senão o indefectível HOJE gritando, pulsando, mostrando que a vida é dom de Deus. Quem olha demais para o horizonte esquece o caminho que leva a ele…
Às vezes o caminho é pedregoso, às vezes tem espinhos e armadilhas, às vezes esfola os pés e dá medo… Mas está ali, nos desafiando, porque depois dele há já o que nos espera e buscamos… Não se constrói nada sem luta, sem riscos, sem medos… E é por isso que o resultado de tudo isso se chama “conquista”!
Medo e coragem
Quem não tem medo não sabe o que é ter coragem. O medo é justamente a autopreservação gritando. Mas a coragem é a ponte que o ultrapassa. O medo de sofrer o já sofrido, de viver o já vivido, é a renúncia da vida mesma, porque não há vida sem chagas, sem marcas fortes vincando a alma e dizendo para ela mesma: “Vivi!”. Sim, viver é amadurecer, envelhecer, ter experiências boas e más, criando um couro curtido para novas batalhas…
Os desafios existem porque há algo para além de nós que nos chama. Algo que vale a pena. É isso que nos move como pessoas e nos faz crescer. E há sempre o medo de falhar, de não conseguir, de estar aquém da vitória! Mas se não houver o medo da derrota, como alguém pode se preparar para a vitória, afinal? É o medo de perder na dosagem certa que nos faz estar prontos para vencer…
Não podemos ter as respostas para tudo. Não podemos ter a vida como uma receita de bolo. Não podemos imaginar que tudo de antemão dará certo. Mas podemos ao menos nos compromissar em que tudo dê certo, fazendo a nossa parte e vivendo intensamente a convicção de que, sim!, é possível!
Cheiro e essência
A mulher amada tem um cheiro próprio, único, que invade não apenas as narinas, mas se apodera dos sentidos todos, com a delicadeza de um vulcão em chamas. E faz maciço os sentimentos, como se ganhassem uma vida própria, autônoma.
A pele, os poros, cada pedaço do corpo da mulher amada exala o seu perfume, que não existe em perfumaria outra alguma, que alquimista algum teria capacidade de isolar. É cheiro da natureza, cru, que se adelgaça com o suor da dança apaixonada, com os movimentos imperativos que se impõem e ganham vida própria.
O cheiro da mulher amada é único! Não se sente apenas; se bebe, se consome, se mastiga! Ele tem uma densidade própria, que desafia todos os sentidos, mostrando que somos tão complexos que só há unidade ali, onde os sentidos se perdem e se deixam perder…
Ah, esse, aliás, um dos mais poderosos sinetes do amor: o cheiro da mulher amada! O querer tanto sentir que dói, porque alimenta a alma, faz explosivo o coração e mostra, afinal, que quando amamos queremos levar em nós a essência do outro… Afinal, a essência é o cheiro!
Amar, amar somente, é um beco sem saída
Amar, amar somente, é um beco sem saída, já dizia Pe. João Mohana. Amar pede mais; pede entrega, abertura, cumplicidade, cuidado com quem se ama, respeito. Pede que o outro seja parte da vida, seja íntimo por necessidade. Amar não cria fronteiras, abarca; não cria muros, aproxima; não cria barreiras, acaricia. Amar pede o outro para si, de um modo tal que o outro continue outro, mas se faça o mais próximo, o mais querido, o mais necessário.
Enquanto não sentir isso por alguém, não saberá o que é o amor de verdade. Há de existir um momento, quando os olhares se tocam pela vez primeira, em que haja um tanto de perda de foco, de eclipse da razão. O amor que rnunca soube o que é rasgar o peito, vassalar a alma, fazer sonhar, não pode ser digno desse nome. O amor que nunca fez tremer corpo e alma, que nunca tomou minutos ou horas de pensamentos vastos e suspiros fundos, que não tomou de si o apetite e as razões mais miúdas para agir, haverá de ser tudo, menos amor.
O amor acalma com o tempo, mas não perde aquela fagulha inicial, não deixa que os olhos se acostumem com a nudez da mulher amada. Há ali sempre um desejo que floresce, um olhar que se renova, um querer que exaspera. Acalmar, porém, não é adormecer nem estiolar-se; é simplesmente passar dos raios e trovões à primavera.
O amor, enfim, tem tempero variado em uma mesa farta. Vai da iguaria mais apimentada à sobremas mais suave…
Sim, aqui e ali pode haver algo fora do tom, porque o amor não quer a perfeição; o fundamental para ele é a possibilidade constante do diálogo que se quer constante, das pontes que não se fecham, da necessidade do eterno recomeço. O amor perfeito é o que se enamora da imperfeição: as rugas virão, a pele perderá aos poucos o viço, mas ele, o amor, vai se renovando como criança que apenas quer brincar, seja com que brinquedo for… Para a criança não importa a perfeição do brinquedo, mas a qualidade da diversão. Assim é para o amor!
Amar, amar somente, é um beco sem saída, simplesmente porque amar pede atos, gestos, sinais. Amar, enfim, nos tira de nós para olharmos a vida sem esquecer do ponto de vista de quem se ama. É a porfia lúdica e impensável entre o EU e o TU, que não se dissolve no NÓS, mas num EU-TU rico e profundo. Somos, no amor, dois que se buscam sem se dissolver na unidade, na identidade, na perda da referência de si mesmo. Na polaridade e tensão de duas vidas que se querem, que cedem aqui e ali para que se permitam ser e estar, consiste o amor.
Assinar:
Postagens (Atom)