sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Bolsa Piquete

O sindicalismo está se profissionalizando. Para fortalecer as suas reinvindicações, croiou um novo tipo de militância: a remunerada. À falta de mobilização e ideologia, um "bolsa piquete", com pagamento para participações em manifestações sindicais. No Consultor Jurídico (aqui):

Sindicatos compram manifestantes em Brasília

Diskgent - motoboy - maior - SpaccaSindicalistas de Brasília inventaram um método prático, econômico e seguro de fazer protestos e promover manifestações sem precisar deslocar manifestantes do resto do país ou de convencer ninguém sobre a causa a ser defendida. Para isso, criaram o manifestante profissional. Com R$ 40 por cabeça, é possível reunir até duas mil pessoas na Esplanada dos Ministérios, para defender ou atacar qualquer coisa, tomar partido contra ou favor de qualquer um.

Uma das maiores especialistas no novo método de manifestação sob encomenda é a Nova Central Sindical. Por R$ 80 mil, a nova entidade conseguiu, em duas oportunidades, mobilizar pessoas por algumas horas em defesa de “suas causas”. Tudo pago com notas de R$ 20. Encomendas de manifestantes podem ser feitas com tranquilidade e sem qualquer relutância pelo telefone, por qualquer pessoa. Além dos manifestantes, a organização fornece todo o know-how da manifestação.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Senado e a sua irrelevância democrática

A decomposição política e moral no Senado é visível e grave. Os ataques pessoais entre senadores começa a gerar um clima de guerra perigoso para a instituição, que deveria ser a câmara alta, porém nunca esteve tão agachada. Às acusações de ilicitudes administrativas, outras são feitas, apenas com o sinal trocado, de modo a vincar bem que todos são iguais: ali não há virgens nem querubins.

Renan Calheiros chamou Tasso Jereissatti de "coronel", que retrucou chamando-o de "cangaceiro". Os senadores do nordeste revivem assim as diatribes entre uns e outros, trazendo para a Nação a epopeia tipicamente sertaneja. Porém, as armas da peleja passaram a ser ofensas pessoais e denúncias de corrupção. Uns assacando contra os outros, nauseando a plateia atônita e embasbacada.

Sarney poderá, diante do teatro belicoso em que se transformou o plenário do Senado, permanecer na presidência daquela casa legislativa. Com o controle sobre o Conselho de Ética, além da maioria no plenário - o apoio incondicional de Lula mantém musculatura política para o octagenário senador porfiar -, José Sarney não será ejetado da cadeira azul de elevado espaldar. Sairá se desejar fazê-lo, nos termos e condições que vier a impor. Até lá, porém, o Senado vai se decompondo, perdendo o que lhe resta de legitimidade, com os senadores se agredindo mutuamente, numa luta sinistra em que não há vencedores: todos perdem, sobretudo a democracia.

Renan Calheiros mudou o perfil como político. Reconhecidamente hábil, exímio articulador, sempre buscou atuar em busca de consensos, evitando confrontos públicos. Desde que foi conduzido ao inferno astral, quando presidente do Senado, enfrentando uma campanha virulenta contra ele, que terminou por levá-lo à renúncia, Renan mudou: passou a ser enfático, agressivo, combativo, duro nas falas, enfrentando de peito aberto os seus detratores. Faz por Sarney o que ninguém fez por ele, indo para o ataque sem pejo, de modo intimorato. E assim passou a ser temido, respeitado e odiado.

Renan joga um jogo pesado, duro, sem meias medidas. Não se utiliza mais de ardis para engalanar manobras regimentais: elas estão à mostra, claramente, para serem vistas. A maioria se impõe, e pronto. Assim, o Conselho de Ética teve os seus membros indicados pelo PMDB com o critério da fidelidade canina à liderança. Não se indicaram nomes aceitos pela opinião pública, simbolicamente respeitados. Não. Nos tempos atuais, o Senado expurgou a opinião pública e passou a conviver com o jogo bruto, antes circunscrito aos bastidores, sob os holofotes da Tv Senado, invadindo as casas das pessoas. Os símbolos de probidade passaram a ser devastados publicamente, como ocorreu com Pedro Simon, que passou a guardar o silêncio no dia de hoje, após o severo embate com Renan e Collor.

Calheiros dá as cartas e joga uma partida de riscos elevados, mas calculados. Joga com lances de mestre, sabendo que tem o jogo em suas mãos, porque haverá de contar com o apoio contrito e irrestrito de um PT agachado diante da CPI da Petrobras, cuja direção está nas mãos do PMDB. As pedras do xadrez foram bem movimentadas e o presidente Lula percebeu que está preso aos desdobramentos da crise no Senado: se jogar Sarney às feras, verá aberta a caixa de pandora dos gastos heterodoxos da Petrobras.

Não é à toa que a blogosfera petista ou chapa branca ataca Pedro Simon, defendendo José Sarney, ainda que timidamente, como Luis Nassif, cujo blog mostrou-se decididamente em defesa de Sarney, ainda quando parecia criticá-lo.

Renan Calheiros conseguiu, com a sua liderança, deixar desnorteada a oposição a Sarney. E o Senado vive o seu pior impasse, constrangedoramente. Até onde essa crise vai, ninguém sabe. Mas já se sabe o seu resultado imediato: a irrelevância do Senado em nossa democracia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ataque ao crucifixo

Reproduzo aqui o blog do Reinaldo Azevedo (aqui). Há alguns que, em nome do Estado laico, querem simplemente apagar as raízes históricas do Brasil com o cristianismo católico, desde a sua descoberta. Ao tentarem retirar símbolos religiosos de prédios públicos, como o crucifixo, querem mesmo é arrancar um pedaço da nossa cultura, cuja expressão está até mesmo na invocação de Deus no preâmbulo da nossa Constituição. Laico que é, como pode o Estado mencionar Deus em sua principal norma jurídica, que funda juridicamente o país?

Depois, como vagar, trato do assunto:

QUEREM CASSAR E CAÇAR ESTE SÍMBOLO DAS REPARTIÇÕES. EM NOME DA TOLERÂNCIA!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009 | 19:14

crucifixo

Uma coisa é ser agnóstico; outra, distinta, é considerar mera estupidez o que não pode ser explicado pela razão; uma coisa é ser ateu; outra, distinta, é achar que os crentes merecem a fogueira — ainda que seja a da desmoralização. Uma coisa é ser laico e advogar um estado idem; outra, diferente, é perseguir as religiões e os signos religiosos. Uma coisa é defender firmemente que a religião não degenere em fanatismo e sectarismo; outra, distinta, é perseguir fanática e sectariamente os que fazem questão de evidenciar a sua religião.

Por que esse preâmbulo?

Certamente por julgar que todas as outras questões que dizem respeito aos “Direitos do Cidadão” já estão em seu devido Lugar, a Procuradoria Regional dessa área, em São Paulo, decidiu ajuizar uma ação civil pública pedindo à Justiça que obrigue a União a retirar símbolos religiosos, como crucifixo e bíblias, das áreas públicas dos órgãos federais. A argumentação: o Estado é laico.

Parece tudo tão óbvio, não? Parece tudo tão evidente: se é laico, sem símbolos religiosos. Pronto! Não! Pronto nada! De jeito nenhum! Houvesse a obrigatoriedade de se exibir o crucifixo nessas repartições, eu estaria entre aqueles a lutar pela mudança da lei. Mas não é assim.

Dada a forma como se ostentam esses símbolos nos órgãos públicos, estamos diante de uma óbvia e legítima expressão que é também da nossa cultura — não diz respeito apenas à nossa crença. Se um juiz ou promotor decidir pôr em sua sala um quadro com a imagem de uma figura do Candomblé, não ocorreria a ninguém lhe pedir que tirasse o objeto de lá. E ai daquele que o fizesse! Correria o risco de ser processado por racismo ou intolerância religiosa.

O mais surpreendente, e até engraçado, é que a ação da Procuradoria teve origem na representação de um tal grupo chamado Brasil para Todos. Para todos, como se nota, mas menos, então, para os cristãos, que formam, suponho, mais de 90% da população brasileira. Estamos diante da intolerância em nome da tolerância; do desprezo, então, à vontade da maioria em nome da minoria. Aí não é possível. Isso não é democracia, mas autoritarismo sectário.

Como já vimos aqui tantas vezes, a democracia não se esgota com a realização da vontade da maioria. Se os direitos e a voz das minorias não estiverem assegurados, não há regime democrático. A simples exposição de um crucifixo ofende a minoria não-cristã do Brasil? Aliás, dentro dessa minoria, quantos, de fato, estão se sentindo agredidos? Não estamos diante de uma daquelas situações típicas em que não podendo o grupo minoritário impor a todos a sua vontade e as suas escolhas, contenta-se, então, em constranger a vontade majoritária?

Caberá à juíza Maria Lúcia Lencastre, da 3ª Vara Federal, a decisão. O grande guia da meritíssima, a exemplo do que ocorre com todos os juízes, é a Constituição da República Federativa do Brasil, aquela que, como está explícito em seu preâmbulo, foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Ou haverá nesta referência algo de profundamente ofensivo aos ateus e agnósticos? O tal grupo Brasil para Todos dará início a um movimento para tirar Deus da Constituição? Não seria o caso de consultar os brasileiros, então, já que a consulta feita — por meio da eleição dos constituintes — parece sem validade a essa gente?

Preconceito anticristão! Esse é o nome da iniciativa do grupo e, se quiserem saber, da ação da Procuradoria Regional. Aliás, seria mais específico: trata-se de preconceito anticatólico, porque é do catolicismo que deriva a, atenção!, “tradição cultural” de se ornarem repartições públicas com o símbolo maior do cristianismo. Ora, que valores tão exóticos ele encerra? O da convivência entre as diferenças? O do amor ao próximo? O da solidariedade? O da caridade? O do perdão? O da fraternidade em Cristo? A quem isso tudo ofende? A quem isso tudo constrange? A quem isso tudo afronta?

Fui ao site do grupo. Encontro lá os dirigentes. E algumas coisas começaram a ficar mais claras para mim:
- Iyalorisa Sandra M. Epega - Presidente da ONG Respeito Brasil Yorubá;
- Pai Celso de Oxaguián;
- Monja Coen Sensei - Missionária da tradição Soto Shu - Zen Budismo;
- Mahesvara Caitanya Das - sacerdote Vaishnava;
- Pr. Djalma Rosa Torres - Igreja Batista Nazareth;
- Rev. Cristiano Valério - Igreja da Com. Metropolitana de São Paulo;
- Ricardo Mário Gonçalves, PhD, monge budista;
- Monge Genshô, Diretor-Geral do Colegiado Budista Brasileiro;
- Jagannatha Dhama Dasa - sacerdote hinduísta Vaishnava;
- Milton R. Medran Moreira - Presidente da Conf. Espírita Pan-Americana.

Como fica evidente, trata-se da expressão de minorias religiosas. Que têm todo o direito de se manifestar. Aliás, é justamente o regime de tolerância propiciado, felizmente, pelo cristianismo que lhes garante lutar para que se apaguem da vida pública brasileira os sinais do… cristianismo. Essa gente seria realmente corajosa, valente, se decidisse, sei lá, pedir que o Irã eliminasse os sinais do islamismo da vida pública — imagem de Maomé, não, porque não pode…

Sim, senhores! O fato é que o cristianismo moderno tem sido a melhor garantia da tolerância entre as diferenças. A lei é sua forma civil. A tradição cristã é seu caldo cultural.

A ONG também conta com “juristas”, como aparecem identificadass lá as seguintes pessoas:
- Roberto Arriada Lorea, MSc. - Juiz de direito;
- Daniel Sarmento - Procurador da República;
- José Henrique Torres - Juiz de direito;
- Iso Chaitz Scherkerkewitz - Procurador do Estado de SP;
- Aldir Soriano - Vice-presidente da Ass. Bras. de Liberdade Religiosa e Cidadania, membro da Comiss. de Dir. e Liberdade Religiosa da OAB-SP;
- Elza Galdino - Advogada

Que esses doutores reflitam se não estão tentando, a exemplo dos racialistas, trazer para o Brasil um conflito que não existe, importando tensões que não estão presentes entre nós ou que têm sido equacionadas no espaço da convivência democrática. Rituais de natureza religiosa, segundo a tradição de cada país, estão presentes em quase todo o mundo. Em boa parte do planeta, a testemunha jura dizer a verdade com a mão sobre a Bíblia.

O cristianismo, felizmente, não se impõe mais a ninguém. No Brasil e no mundo. No que respeita à Igreja Católica, poucas religiões têm buscado, com tanta dedicação, a convivência com as diferenças — em alguns casos, a ponto de se descaracterizar. Querer cassar e caçar o crucifixo, impondo uma proibição, corresponde a violentar a história brasileira e a incentivar a intolerância.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

O poder do olhar

Essa imagem foi objeto de diversos jornais hoje. Um olhar... (clique duas vezes na imagem).

Greve: A Arte da Guerra do Sindicalismo à Manguaba

A greve geral da educação vem aí. Na matéria postada por Célio Gomes, fotos da reunião do novo secretário estadual da Educação com os velhos dirigentes sindicais (aqui). Se fôssemos fazer um fotogaleria das greves dos últimos dez anos da educação, veríamos diversos secretários negociando com os mesmos sindicalistas. Algo de impressionante.

Com a experiência de ter participado de diversas mesas de negociação, proponho aqui A" Arte da Guerra do Sindicalismo à Manguaba - em 10 Proposições," com apontamentos sobre o eterno modus operandi do nosso movimento sindical.

Proposição 1: O líder sindical deve insuflar a sua base, convencendo-as de necessidades que ela não possui ou possui de modo mitigado. Com isso ele mostra a sua importância e evita que terceiros se apropriem do seu papel.

Proposição 2: Estimular a realização de paralisações ou greves. Sem elas, o sindicalista passa a ser uma figura sem importância e sem causa. As greves são essenciais para manter o líder em evidência.

Proposição 3: O líder sindical deve esmagar a oposição dentro do sindicato. Se aparecer líderes radicais, o líder no poder deve ser mais radical e incendiário, minando o discurso do oponente. Ao mesmo tempo, deve o líder sindical distribuir favores aos seus pares estratégicos, evitando perder o poder.

Proposição 4: Estabelecida a greve, deve o líder sindical constituir uma comissão do sindicato para negociar. Apenas devem participar as pessoas do seu grupo político, evitando o aparecimento de novas lideranças.

Proposição 5: Aberta a negociação com o governo, o líder sindical deve logo observar até onde vai o poder decisório e a vontade política do negociador. Se o negociador tiver vontade política, mas não tiver poder, deve o líder sindical preservá-lo no processo negocial, encontrando imediatamente um bode expiatório responsável pela ausência de avanços na negociação. A isso, denomino "Jogo do Anjo X Demônio". Identificar o entrave é fundamental para sobre ele jogar a culpa pessoal pelo insucesso nos resultados. Quem quer ceder é "bonzinho"; quem quer negociar racionalmente com os números e as possibilidades é "o lúcifer". Esse procedimento é fundamental para dividir o inimigo, fragilizando a posição dos setores menos flexíveis ao atendimento dos pleitos da categoria.

(Esse jogo é frequente e no governo sempre tem quem ainda caia nessa roubada. Na greve dos médicos, por exemplo, virei eu o demônio, enquanto outros se apresentaram como anjos, fragilizando a posição do Governo em mesas paralelas de negociação. Por vezes, o próprio Governador é enredado nesse jogo, porque não faltam amigos que aparecem com as mais variadas sugestões, soluções e milagres. Quando isso ocorre, o sindicato consegue fragilizar o negociador e obter sucesso. Na greve da educação, o demônio era o Maurício Toledo, secretário adjunto da Fazenda. Esse jogo é velho e inteligente, mas ainda há pessoas que caem nele).

Proposição 6: Esticar a corda até o limite, flexionando apenas quando sentir que as suas bases estão começando a claudicar. O líder sindical apenas deve recuar quando correr o risco de ficar sozinho na luta, pondo a sua liderança em risco. Ao primeiro sinal de cansaço da base, o líder sindical começa a flexionar, mas sempre deixando a decisão para ser tomada coletivamente.

Proposição 7: As mesas de negociação devem ser longas, criando a impressão na base que as conversas são produtivas e que há chances de sucesso na greve. A tática usada pelos sindicatos é levar muita gente para as reuniões, cada um pedindo a palavra para dizer muitas vezes a mesma coisa. Com isso, uma reunião que poderia durar 10 ou 15 minutos dura longas 2 ou 3 horas. A base fica aguardando do lado de fora, imaginando discussões técnicas, avanços, caminhos. Muitas vezes, as reuniões são vazias, com idas e vindas, circunlóquios cansativos, inutilidades.

(Na foto da matéria do Blog do Célio Gomes, vemos o secretário cercado de ao menos cinco dirigentes sindicais. Todos ali pedem a palavra sucessivamente, de modo que a reunião se alonga interminavelmente, dando esperança à base que espera na frente da secretaria. Todavia, os que estão na mesa sabem onde a reunião vai dar: em nada!).

Proposição 8: Nas reuniões maiores com os negociadores do governo (sobretudo se for com o Governador), deve ser levado um técnico que fale sobre os números, um servidor que faça um discurso emocionado e - se possível - chore ou faça chorar, e alguns parlamentares ligados ao sindicato, que tirarão proveito político se houver avanços.

Proposição 9: Quando houver impasse grave nas negociações, devem os líderes sindicais procurar interlocutores alternativos por diversionismo e para produzir notícias, evitando que a greve caia no esquecimento e as bases se enfraqueçam. É o que chamo de "Momento do Passeio".

(Em Alagoas, é comum que os líderes sindicais procurem o chefe do Ministério Público, a presidência do Poder Legislativo, a presidência do Poder Judiciário e qualquer um que tope recebê-los e que possa gerar notícias).

Proposição 10: Durante a greve, o líder sindical deve criar eventos para esquentar o clima e animar a base do sindicato. Se necessário, usando os sem-terras, os índios e o outros sindicatos. Uns ajudam os outros, uns engrossam o movimento dos outros, e assim todos podem sair ganhando.

***
O meio de se combater esse método dos sindicatos é simples, mas requer disciplina. Proponho aqui alguns encaminhamentos:

  1. Liderança: o líder deve saber o que quer e determinar aos seus comandados qual caminho tomar.
  2. Unidade: a equipe de governo deve estar unida e observar a voz de comando, evitando a formação de divisões internas.
  3. Respeito ao negociador: apenas quem negocia é o negociador. Não podem existir canais paralelos de negociação, de modo que o sindicato não encontre meios de dividir a equipe de governo. Para isso, porém, é fundamental o papel da liderança, que não permitirá tratar da greve sem ser através do negociador.
  4. Credibilidade: o negociador deve ter uma postura séria, sem escamotear as suas intenções.
  5. O que pode, pode; o que não pode, não pode: o negociador deve conduzir habilmente o processo negocial, flexibilizando o que puder e sendo inflexível no que for essencial. Se precisar esticar a corda, deve fazê-lo implacavelmente, chegando ao limite extremo de demissões exemplares. Negociar indefinidamente pode ser combustível para a greve e para as lideranças sindicais.
Penso esteja aí um mapa de como funciona uma greve e de como deve agir o governo. É uma anatomia crua de como as coisas ocorrem. Eu as vivi.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Senado virou um ringue

Um debate interessante no Senado. Renan enfrenta Pedro Simon, que o ataca usando Collor, que reage chamando-o de "parlapatão" (embusteiro, vaidoso, impostor). Um ringue de ataques pessoais impressionates. Collor ofegava de raiva. Um vídeo para ser visto e pensando:



Collor estava com a respiração arfante, demonstrando ingente incômodo com a referência ao seu nome feita por Pedro Simon. Os seus olhos saltavam da órbita, conjugando-se com as feições embaraçadas, tesas, emulando o seu opositor. A fala carregada, revelando incontida emoção, trouxeram de volta ao ringue o "velho" Fernando Collor. Foi o primeiro embate seu no Senado, em quase 3 anos de mandato completos. O leve embate com Ideli Salvati, em que tripudiou indiretamente chamando-a de galinha, foi nada diante do arregaço com o senador gaúcho, até mesmo pelo contexto do conflito e pelo valor simbólico que Simon passou a ter em um Congresso Nacional malvisto pela sociedade brasileira.

Renan cumpriu melhor o seu papel, indo para o embate em defesa de Sarney, porém com a poderação que os anos de Senado lhe ensinaram. Quase conseguiu desestabilizar o experiente senador gaúcho, que terminou sendo defendido por seu pares nos petardos desferidos por Collor.

Vamos ver os desdobramentos da crise. Uma coisa é certa: há dois cenários diferentes em questão: o interno, em que os defensores de Sarney têm maioria, são apoiados por Lula e poderão nadar de braçadas; e o externo, em que a opinião pública terá papel decisivo, sobretudo com a aproximação das eleições. A oposição sabe que pode perder no curto prazo, mas terá grandes dividendos no longo prazo. A questão é: Lula topará pagar essa conta até quando? A resposta bem pode estar na CPI da Petrobras.

domingo, 2 de agosto de 2009

Crônica da semana: Um Olhar

UM OLHAR

As pessoas passavam ao meu lado, cumprimentavam-me. Falava com alguém sobre algo chato e sem relevo, quando senti - sim, senti - olhos que me olhavam absortos, profundamente, vendo sem ver. Era um olhar para além do ambiente, para além de mim mesmo. Era como se me absorvesse, abstraindo-me daquele contexto. Tão profundo que o senti, como se uma energia se desprendesse e me alcançasse ali, apanhando a minha visão periférica. Voltei-me e os meus olhos alcançaram aquele olhar, que continuou assim, como se não visse o meu movimento, como se o tempo estivesse suspenso, com uma cortina de pensamentos encobrindo o instante.

Os olhos se encontraram. Encontraram-se com força. A expressão densa, o rosto meio inclinado, os cabelos longos com fios delicados sobre um dos olhos... Os lábios levemente entreabertos, depois fechados de modo austero. Ela estava ali, olhando-me com os braços delicadamente pousados, um deles dobrado transversalmente sobre o tronco para alcançar o outro e segurá-lo. Fui tragado pelo olhar, que em instantes eternos perdurou para, em seguida, sumir em um movimento de corpo, dando-me as espaldas e andando adiante. Os cabelos longos dançaram com aquele movimento abrupto e candidamente suave, banhando as costas como línguas d'água.

Aquele olhar profundo, invasivo, penetrante, nunca me abandonou. Eram olhos lânguidos, com uma ponta de tristeza. Tomava-me, porém sem tomar para si. A melancolia estava ali, mergulhando naquela profundidade de pensamentos e sentimentos não revelados, escondidos em camandas profundas e íntimas.

E fiquei ali, perturbado por aquele olhar. Os olhos espessos, a fisionomia marcada, o rosto lindo e sofrido, a boca vermelha entreaberta... Um quadro pintado pela vida, pelo instante. Um quadro... Um olhar...

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sábado, 1 de agosto de 2009

Música do fim de semana

Uma daquelas que é boa para dançar, namorar... Michael Bolton já cantou, mas Laura Braningan é show. Antiga e boa, como um bom vinho...