sábado, 29 de agosto de 2009

Ensino religioso: por que tanto medo?

Criou-se uma polêmica sobre o acordo diplomático firmado entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé (Estado do Vaticano), denominado Concordata, pelo qual se definiu o estatuto jurídico da Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil. Trata-se de um documento assinado por Sua Santidade, o Papa Bento XVI, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a finalidade de formalizar as relações entre Estado e Igreja, definindo perante a legislação brasileira a natureza jurídica das atividades desenvolvidas pela Igreja Católica, a disciplina jurídica das relações entre ela e os seus ministros ordenados e fiéis consagrados, o regime tributário a que ela e as pessoas jurídicas por ela criadas com a finalidade filantrópica se submetem, além do ensino religioso nas escolas públicas. Em resumo, a concordata trata dos seguintes temas: organização e personalidade jurídica das instituições eclesiásticas; imunidades, isenções e benefícios fiscais; patrimônio cultural; casamento; regime trabalhista de religiosos.


Em que pese a simplicidade do documento, criou-se uma descabida polêmica, sendo suscitada por alguns a inconstitucionalidade do acordo, em razão de ser o Brasil um estado laico e da separação histórica entre Igreja e Estado. E a razão principal da crítica seria justamente a previsão do ensino religioso em escolas públicas, o que quebraria, sempre segundo essa visão reducionista, a vértebra de um Estado laico. Afora isso, houve algumas denominações religiosas que se queixaram do tratamento jurídico diferenciado dado à Igreja Católica, nada obstante a crítica fosse difusa, talvez por desconhecimento do conteúdo do texto assinado pelo Brasil e pela Santa Sé.


Na verdade, a concordata não traz grandes novidades nem cria privilégios para a Igreja Católica. Trata-se de um acordo que formaliza práticas já consolidadas, sendo agora juridicamente reconhecidas pelo Estado Brasileiro de modo formal e orgânico. Por exemplo, a organização e a personalidade jurídica das instituições eclesiásticas é historicamente vivenciada em nosso ordenamento jurídico, sendo de conhecimento corrente que a Igreja possui em sua estrutura organismos como a Conferência Episcopal, Províncias Eclesiásticas, Arquidioceses, Dioceses, Prelazias Territoriais ou Pessoais, Vicariatos e Prefeituras Apostólicas, Administrações Apostólicas, Administrações Apostólicas Pessoais, Missões Sui Iuris, Ordinariado Militar e Ordinariados para os Fiéis de Outros Ritos, Paróquias, Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica (artigo 3º do Acordo).


No que diz respeito ao ensino religioso, aí sim, surge o eixo mais sensível da crítica daqueles que sonham com um Estado sem a presença de Deus e, sobretudo, sem os sinais da Igreja. Todavia, ao contrário do que muitos poderiam pensar, o Acordo firmado não buscou criar qualquer benefício para a Igreja Católica, porém, respeitando o pluralismo, desejou preservar a manutenção do ensino religioso, independentemente da sua vinculação aos ditames da Igreja, para que as crianças e jovens tenham direito a uma formação integral, inclusive com ênfase em sua espiritualidade. Por isso, em seu artigo 11 foi estipulada a seguinte cláusula: “A República Federativa do Brasil, em observância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação integral da pessoa”. E em seu parágrafo único: “O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação”. Ou seja, cumpre o Acordo o programa constitucional que prevê a obrigatoriedade do ensino religioso em escolas públicas, nada obstante sem previamente definir ou negar o seu caráter confessional.


Aliás, esse é o ponto fundamental da irritação daqueles que pregam um Estado sem Deus: o acordo celebrado reconhece claramente, extensiva a todas as denominações religiosas, a possibilidade de ensino confessional, em sintonia com o art.210, § 1º, da Constituição Federal e com uma reta interpretação do art.33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Como muito bem enfatizou Dom Filippo Santoro, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, “É inegável que o ensino religioso não deve ser entendido como alusivo a uma 'religião genérica', a-confessional, indefinida, já que uma tal ‘religião’ não existe. Seria pura abstração mental, sem correspondência na realidade da vida e da sociedade humana. E se o Estado quisesse administrar esta forma de ensino genérica, esta sim seria contra a laicidade do próprio Estado porque ele não possui uma religião própria, mas deve respeitar as formas religiosas que se encontram na sociedade”.


Deste modo, resta claro que o Acordo celebrado entre a Igreja e o Brasil não cria privilégios, mas apenas reconhece juridicamente práticas históricas consolidadas da principal religião do país. Ademais, reafirma o programa constitucional da obrigatoriedade de ensino religioso, levando para as crianças e jovens da rede pública o sentido do sagrado e a mensagem salvífica. Assim, o Acordo apenas afeta os que desejam não um Estado laico, mas sim um Estado anti-religioso, intolerante e sem Deus. Por isso, a pergunta inicialmente formulada: por que tanto medo do ensino religioso?


(Texto publicado originariamente no blog "Visão Cristã")

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Música do fim de semana

Por que não uma de Roberto Carlos, hein?! Pois é, o Rei tem vez aqui também:

Habeas Corpus e liberdades públicas

Tenho visto muita coisa na minha prática jurídica como advogado. Poucas, porém, tão impressionantes como certas decisões judiciais tomadas ao sabor da vontade do magistrado, sem fundamento no ordenamento jurídico. Muitas vezes, subvertendo mesmo o sentido e o alcance dos institutos. Mesmo que em nome das melhores intenções, supondo que elas existam mesmo, não se poderia postegar garantias fundamentais dos cidadãos, invertendo a própria razão de ser dos institutos e remédios jurídicos.

No dia 17/08/2009 fui surpreendido com a notícia de que a ex-prefeita de Estrela de Alagoas, Ângela Garrote, estaria foragida, mesmo depois do relaxamento da sua prisão pela 17ª Vara Criminal da Capital, por determinação do Des. Orlando Manso. Mas o novo decreto de prisão teria sido prolatado em que processo? Aí a razão da minha surpresa: no Habeas Corpus que havíamos impetrado contra aquela primeira decisão, posteriormente revogada pela mesma 17ª Vara. Ora, se houve revogação da prisão, o Habeas Corpus impetrado perdera evidentemente o objeto, certo? Errado, segundo o relator. Para ele, o HC lhe dava jurisdição, tirando da 17ª Vara, que ficaria impedida de soltá-la até que o Tribunal de Justiça se pronunciasse. Eis a notícia retirada do Blog do Ricardo Mota:

17/08/2009
Ângela Garrote é considerada "foragida da Justiça"

A ex-prefeita de Estrela de Alagoas, Ângela Garrote, é considerada foragida da Justiça. Ela teve o pedido de prisão decretada pelo desembargador Orlando Manso - logo depois de liberada pelos juízes da 17ª Vara Criminal da Capital, em 31 de julho -, acusada de tentativa de homicídio, em 2005. A ordem do magistrado foi entregue à direção da Polícia Civil, mas a ex-prefeita não foi mais localizada. Segundo o diretor geral da direção da PC, Marcílio Barenco, ela foi procurada em Estrela de Alagoas, Arapiraca, Campo Grande e Maceió, "mas não foi encontrada nos lugares onde poderia, provavelmente, estar".

Segundo o advogado Adriano Soares, Garrote "não está tecnicamente foragida". Ele explicou que a sua cliente não tem conhecimento do decreto de prisão, "até porque a competência para tal seria da 17ª Vara Criminal, que já atendeu ao nosso pedido de Habeas Corpus. Se houve ordem de prisão do relator do HC foi uma inversão do papel desse remédio jurídico".

Numa palavra: o remédio heróico criado para proteger as liberdades públicas passou, em Alagoas, a servir também para prender! (Esqueçam aqui se o paciente é A, B, C, você ou eu. Interessa a insegurança jurídica a que se submete o direito de ir e vir). Diante disso, impetramos um novo Habeas Corpus, desta vez no STJ. Eis a ementa da decisão do Min. Napoleão Maia Nunes Filho:

  1. Mostra-se teratológica, de modo a justificar a superação excepcional do enunciado 691 do STF, a decisão judicial monocrática de Desembargador do Tribunal de Justiça que em HC determina o recolhimento do paciente à prisão, máxime quando já apresentado pedido de desistência do mandamus, em face da perda do seu objeto, por revogação da prisão preventiva dantes decretada e que motivara a impetração do HC.
  1. O HC é medida de excepcional eficácia que serve única e exclusivamente à tutela da liberdade individual, se ameaçada ou objurgada, por ato ilegal ou abusivo, não se prestando para veicular constrangimento a esse superior bem da personalidade, protegido por norma constitucional de tradicional e respeitável hierarquia.
  1. Ordem concedida.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Suplicy e a indignação tardia

Há quem diga que Eduardo Suplicy faz gênero todo o tempo. Até quando se faz de bobo, de bobo ele não teria nada. E, verdade seja dita, Suplicy parece sempre estar se fazendo de bobo. Bem, durante a crise do Senado, quando José Sarney claudicava na presidência sob o fogo cerrado da imprensa e da oposição, Suplicy silenciou, teve sempre uma postura de observador. Pouco falou e pouco se manifestou. Nesse entretempo, o PT sucumbiu diante dos interesses de Lula, deixando o seu líder falando sozinho e revogando o irrevogável, enquanto senadores faziam streep tease no Conselho de Ética, salvando Sarney do constrangimento de responder a diversos processos por quebra do decoro parlamentar.

Depois de resolvida a situação de José Sarney, que mesmo manco permanecerá no exercício da presidência do Senado, Eduardo Suplicy pareceu despertar de seu sono ético e passou a radicalizar o discurso, cobrando a renúncia do presidente que o seu partido salvou. Questão de cálculo político, evidentemente. Os eleitores de Suplicy parecem não ter engolido e digerido a postura do PT e, por via de consequência, do nosso Senador cantante.

Ontem, Suplicy interrompeu um discurso morno de Sarney sobre Euclides da Cunha, questionando a sua permanência na presidência do Senado. José Sarney o respondeu lhanamente e seguiu em marcha batida, falando sobre o autor d'Os Sertões. Saiu nos jornais televisivos, porém não com o destaque que gostaria. Hoje, foi à tribuna da Câmara Alta e fez um discurso (sabidamente inócuo, do ponto de vista político da Casa e do Planalto, porém muito útil a ele) contra a permanência de Sarney, apresentando-lhe um enorme cartão vermelho, como a expulsá-lo de campo. Claro que o plenário estava vazio e Sarney não estava presente. Mas as câmaras da TV Senado estavam ligadas...

E aí, diante do ridículo da cena, o Senador Heráclito Fortes completou o quadro dantesco, acusando Supliciy de insinceridade e de negar-se a dar cartão vermelho ao pai do apoio petista ao presidente do Senado: o presidente Lula. Suplicy, desnudado, agiu feito Fernando Collor: respiração ofegante, gestos abruptos, olhar irritado, expressão de indignação. E o Senado Federal mostra-se, mais uma vez, como um circo, uma casa dos horrores, onde os nossos piores costumes políticos resolveram desfilar dia a dia, desmoralizando-o. Vejam a cena:



Diante disso, o que dizer? Simplesmente, que Eduardo Suplicy escolheu a hora em que seria o único ator a dar espetáculo, fazendo um monólogo para os bobos de plantão. Sabidamente, seu gesto não altera a ordem das coisas na Casa, mas servem para justificar-se perante a opinião pública, apresentando hoje aquilo que sonegou durante todo esse tempo: a sua indignação.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Símbolos religiosos

Reproduzo Reinaldo Azevedo, com uma importante informação:

quinta-feira, 20 de agosto de 2009 | 15:45

crucifixo-31

Maria Lúcia Lencastre Ursala, da 3ª Vara Cível Federal de São Paulo, indeferiu pedido do Ministério Público Federal, que queria a retirada de símbolos religiosos dos prédios públicos — leia-se: de crucifixos e Bíblias.

Sabem o que escreveu a juíza?

1 - que é natural a presença de símbolos religiosos cristãos num país de formação cristã — isso pertence à nossa história;
2 - que, “sem qualquer ofensa à liberdade de crença, garantia constitucional, eis que, para os agnósticos, ou que professam crença diferenciada, aquele símbolo nada representa, assemelhando-se a um quadro ou escultura, adereços decorativos”;
3 - que estado laico não quer dizer estado anti-religioso. Dando uma pequena aula de lógica e de história à boçalidade do CCC, escreveu: “O Estado laico foi a primeira organização política que garantiu a liberdade religiosa. A liberdade de crença, de culto, e a tolerância religiosa foram aceitas graças ao Estado laico, e não como oposição a ele. Assim sendo, a laicidade não pode se expressar na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos."

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

PT, saudações

PT, saudações. Sim, o PT despede-se do seu ex-discurso ético. Nunca antes na história desse país um partido foi tão longe no seu streep tease público.

domingo, 16 de agosto de 2009

Imprensa, democracia, liberdade de expressão

Quem acompanha o que está ocorrendo na Venezuela não pode deixar de se espantar. Hugo Chavez está solapando a democracia, utilizando-se de instrumentos legais votado por um legislativo formado por esmagadora maioria de chavistas. Com a reforma da educação, criou-se um instrumento legal para o fechamento da Globovisión, último bastião da liberdade de imprensa na Era Bolivariana. Agora, com a reforma eleitoral, Chavez muda as regras do jogo, fortalecendo a votação de locais em que ainda exerce uma forte influência, de modo a reduzir o peso nos grandes centros, onde a oposição tem força para se opor às vontades do semiditador venezuelano.

Essa lógica chavista é a mesma que nutre os líderes da Bolívia, Equador, Nicarágua e, há pouco, Honduras, antes da sua queda determinada pelo Poder Judiciário, que afastou Manuel Zelaya. pela tentativa de modificar cláusulas pétreas da Constituição daquele país. E essa turma se une, por sabedoria política e dependência econômica, ao líder venezuelano, que dita o rumo ideológica daquilo que ele denominou de revolução bolivariana. É certo, porém, que a esquerda brasileira flerta, ao menos expondo uma impudica simpatia, com esse modelo de poder, que destrói a liberdade dos meios de comunicação social (hoje, na Venezuela, o Estado é o maior proprietário dos meios de comunicação), limita os mecanismos de expressão das minorias e dos opositores, muda as regras do jogo para a perpetuação do poder nas mãos do líder carismático e do seu grupo político, e reduz a democracia a um jogo de cartas marcadas para legitimar justamente a destruição da própria democracia.

No Brasil, cuja estrutura partidária termina impedindo a supremacia de um partido sobre os outros e obriga a formação de alianças políticas heterodoxas, não houve meios para o Partido dos Trabalhadores, por exemplo, buscar implantar eixos da tal revolução bolivariana, menos por desejo e mais por impossibilidade política. Quando na oposição, o PT era beneficiado com as constantes denúncias de corrupção estampadas nas páginas de jornais e nas matérias jornalísticas na televisão (Collor e Fernando Henrique tiveram os seus governos devassados; Itamar Franco viu dois dos seu Ministro da Fazenda renunciarem por acusações da oposição). Agora no governo, o PT não consegue conviver com as denúncias e a fiscalização da mídia. É ela sempre chamada de golpista, a serviço da direita, criando mentiras como o "mensalão", os atos secretos no Senado, e agora, pasmem!, as denúncias contra a Igreja Universal do Reino de Deus, que seria uma apoiadora de Lula. Os líderes da IURD chegaram ao cúmulo, buscando o benefício da popularidade do presidente, de dizer que os ataques à Rede Record era uma estratégia de José Serra, utilizando-se da Rede Globo para influenciar nas eleições de 2010. (aqui) E o PT, estranhamente, não contrariou ainda essa lógica estúpida.

Vivemos um momento importante em nossa democracia. Todos devemos rejeitar qualquer impostura que signifique o controle dos meios de comunicação social, a pretexto de calar protestos como aqueles que ontem surgiram em vários lugares no Brasil, com o "Fora Sarney". Podemos até discordar dos que querem a saída antecipada do presidente do Senado, mas não podemos acatar qualquer tentativa de calá-los, como não podemos aceitar que tentem silenciar os jornais e redes de TV.

Bem, mas que isso não signifique proteger grupos de comunicação que surgiram e são alimentados financeiramente com recursos de origem duvidosa, aqueles criados com recursos advindos de carteis colombianos, é claro. E dentro dos meios legais, com transparência e observância do pleno exercício do direito de defesa, que a democracia prevaleça, sempre, inclusive sobre grupos religiosos que se armaram de meios de impor as suas posições sectárias e perseguir os que delas discordem, como ocorreu com a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S. Paulo.

sábado, 15 de agosto de 2009

Música de fim de semana: LeAnn Rimes

Conexão colombiana da fé universal

Reproduzo aqui a coluna do Diogo Mainardi na Veja desta semana. Um tema sobre o qual se falava no passado e que, parece, poderá receber luzes sobre ele:

Diogo Mainardi

O dízimo do tráfico

O pastor Carlos Magno de Miranda, em 1991, acusou a Igreja Universal de ter comprado a Rede Record com dinheiro de narcotraficantes colombianos. Agora, com duas décadas de atraso, o episódio finalmente poderá ser esclarecido. Os mesmos promotores que, na semana passada, denunciaram criminalmente Edir Macedo e outros integrantes da Igreja Universal indagam também a suspeita de que a segunda parcela da compra da Rede Record possa ter sido saldada com recursos do Cartel de Cali. Carlos Magno de Miranda é uma das testemunhas arroladas pelo Ministério Público, e os promotores cogitam pedir a abertura de mais um processo contra os donos da Rede Record.

Carlos Magno de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Em 1990, ele se desentendeu com Edir Macedo e passou a atacá-lo publicamente. Num dos documentos obtidos pelo Ministério Público, ele relatou os detalhes de sua ida a Medellín, para receber o dinheiro dos narcotraficantes colombianos. Ele teria viajado com os pastores Honorilton Gonçalves e Ricardo Cis, todos acompanhados de suas mulheres. Permaneceram dois dias na cidade. No primeiro dia, aguardaram no hotel. No segundo dia, um mensageiro entregou-lhes uma pasta contendo 450 000 dólares. As mulheres dos pastores esconderam o dinheiro nas calcinhas e, de madrugada, retornaram ao Rio de Janeiro num jato fretado. Segundo Carlos Magno de Miranda, os fatos teriam ocorrido entre 12 e 14 de dezembro de 1989. Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) analisaram os registros aeroportuários da Polícia Federal e – epa! – documentaram que, naqueles dias, os pastores da Igreja Universal realmente foram a Medellín, com escala em Manaus.

O Ministério Público, além disso, entrou em contato com autoridades americanas para poder interrogar o narcotraficante colombiano Víctor Patiño, que foi preso em 2002 e extraditado para os Estados Unidos. Seu nome foi associado ao da Igreja Universal em 2005, quando a polícia colombiana descobriu que uma de suas propriedades em Bogotá – uma cobertura de 600 metros quadrados – era ocupada por Maria Hernández Ospina, que alegou ser representante de Edir Macedo. Uma das dificuldades dos promotores do Gaeco é que Edir Macedo tem cidadania americana, dado confirmado oficialmente pelo consulado. O Ministério Público já encaminhou todos os documentos do processo contra Edir Macedo aos Estados Unidos, para que os americanos possam abrir um inquérito próprio.

A Igreja Universal, nos últimos dias, atrelou sua imagem à de Lula. É a mesma estratégia empregada por José Sarney. Um apoia o outro. Um defende o outro. Edir Macedo está com Lula e com Dilma Rousseff. Agora e em 2010. Se a Igreja Universal tem um Diploma do Dizimista, assinado pelo senhor Jesus Cristo, Dilma Rousseff tem um Diploma de Mestrado da Unicamp, supostamente assinado pelo senhor Espírito Santo. O senhor Edir Macedo e o senhor Lula se entendem. Eles sabem capitalizar a fé.

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Na verdade, a Igreja Universal, embora tente reduzir as acusações feitas pelo Ministério Público de São Paulo a um guerra de grupos de comunicação, encontra-se diante de um adversário forte, competente e temido: o GAECO, esse grupo de promotores que desarticulou os esquemas de Paulo Maluf e sua família, entre outros importantes trabalhos de combate ao crime organizado. A ação proposta e as medidas tomadas perante autoridades de outros países onde a IURD tem negócios, como os Estados Unidos, país que deu cidadania a Edir Macedo, irão gerar novas dores de cabeça aos milionários donos da Universal.

Além disso, hoje os líderes da IURD não contam com a solidariedade de outras denominações petencostais, como no passado. Silas Malafaia, em vídeo que está circulando na internet, mostra-se ressentimento contra o assédio de pastores da Universal, que tentaram contratar os horários usados por ele em emissoras de televisão. Isso em 2007. Agora, em que a guerra Record Vs. Globo foi declarada, Edir Macedo terá dificuldades em reunir pastores de outras denominações para juntos chorarem contra a perseguição religiosa e política da Globo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mais do mesmo

Quando aqui me manifestei sobre a greve da educação, dizendo que era um ato insensato e provocado pelo processo eleitoral do SINTEAL, disse uma verdade. Mas faltou dizer que a dissidência do SINTEAL não tem outro discurso que não o da radicalização e da greve. Ou seja: mudar por mudar, melhor deixar tudo como está.

No Blog do Célio Gomes, fotos de uma passeata da oposição dentro do SINTEAL (aqui) mostram que os sindicatos alagoanos são movidos por uma única lógica: a greve, a radicalização, o confronto, o discurso vazio e a política da força. Há uma miopia dos movimentos sociais, não havendo quem possa criar uma via razoável, um discurso coerente, uma pauta construtiva. Diante disso, a luta interna nos sindicatos apenas pode dar nisso: mais do mesmo, à exaustão.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A Teologia da Prosperidade

A Igreja Universal do Reino de Deus continua crescendo no Brasil, ancorada na estrutura do grupo de comunicação que os seus líderes montaram, em nome próprio, com recursos que teriam sido desviados das arcas da denominação petencostal. Essa é a essência da denúncia feita pelo Ministério Público, que enseja algumas relevantes questões: a) por que, diante das movimentações elevadas e atípicas de recursos flagrada pelo Coaf (órgão fiscalizador do governo federal), a Receita Federal teria chancelado operações com empresas de fachada, que funcionariam para esquentar o dinheiro desviado da Universal para financiar a compra da Rede Record de Televisão e outras atividades pessoais dos líderes da seita?; e b) por que o Ministério Público Federal não tomou nenhuma medida judicial, com os dados do Coaf, sobre suposta evasão de divisas e supostos crimes federais, inclusive contra o sistema tributário nacional? São algumas perguntas simples diante do volume de recursos envolvidos sob o pálio da imunidade tributária.

Claro está que o Ministério Público paulista colocou no papel o que todos já sabíamos e o que já era público e notório. Revelou que a teologia da prosperidade praticada pelos líderes da Universal é, antes de tudo, a prosperidade do grupo que controla a seita, cujos recursos arrecadados serviram para transformá-los em grandes empresários de comunicação social, com poder político tão grande e capilarizado, que com ele talvez possamos entender as respostas possíveis àquelas perguntas feitas anteriormente.

A seguir, a reportargem do Jornal Nacional de ontem à noite:

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A marcha da insensatez: nova greve da educação

Os professores alagoanos seguem na marcha da insensatez, com a sua greve estúpida e equivocada. A Agência Estado publicou hoje uma matéria sobre o tema, com uma frase cheia de sentido da presidente do Sinteal:



"Só vamos voltar ao trabalho esses três dias, de quarta a sexta-feira, para não comprometer a legalidade do nosso movimento e evitar retaliação aos grevistas. Por isso vamos cumprir o prazo legal de 72 horas para que possamos deflagrar um segundo movimento paredista, desta vez por tempo indeterminado", explicou a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), Girlene Lázaro.

A principal reivindicação do SINTEAL é o reajuste salarial de 15%, mas na pauta de nove itens que eles entregaram ao governo do Estado constam também melhores condições de trabalho, contratação dos concursados de 2005 e a melhoria na qualidade do ensino. Na verdade, puro diversionismo. Sempre que um grevista fala em melhoria nas condições de trabalho lembro-me daqueles conceitos indeterminados que servem apenas de aparato retórico. Que condições de trabalho, quando o SINTEAL solapa o dinheiro da educação apenas para pagar folha de salário? Segundo Girlene, conforme a Agência Estado, a continuidade da greve foi aprovada por unanimidade pela categoria porque o governo do Estado até agora não acenou com uma proposta de reajuste salarial e ainda não demonstrou interesse em atender os demais pontos da pauta de reivindicações.

Certo está mesmo o governo, e mais certo estará se endurecer os procedimentos e começar a demitir os faltosos. Sinto-me extremamente perplexo em ver, mais uma vez, uma greve irresponsável destruir os sonhos de adolescentes e crianças alagoanos. É um crime.

Mercado da Fé

É de conhecimento público que a Rede Record de Televisão é de propriedade de Edir Macedo, autointitulado bispo. Como um pastor, que vive da sua atividade missionária, teria meios para adquirir a Record do seu anterior proprietário, Sílvio Santos, por R$ 20 milhões de reais? Como teria recursos para a aquisição de outras emissoras próprias pelo Brasil, criando um poderoso e agressivo grupo de comunicação social? Pois é, como?

A Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo chegaram a algumas respostas, mostrando as imbrincações societárias entre membros da Igreja, off-shores, empresas de fachada, tudo criado e estruturado com a finalidade de transferência de recursos da Igreja Universal, cuja receita anual com dízimos ultrapassa a casa de R$ 1 bilhão de reais, para os seus controladores, sobretudo Edir Macedo, líder religioso e empresarial (vide a extensa matéria da Folha de S. Paulo, aqui). Aliás, com essas cifras percebe-se que a IURD emprega quase um terço das suas receitas em publicidade na Rede Record, pagando R$ 300 milhões por ano para manter os programas da Igreja Universal nas suas madrugadas. Valores bem acima do preço de mercado, justamente para dar oxigênio à empresa de comunicação, jóia da coroa do Grupo IURD.

A Igreja Universal poderia investir no que quisesse, acaso não se valesse da imunidade tributária que as igrejas possuem para ampliar o seu patrimônio. Ao atuar com os benefícios fiscais que dispõe, passa a ter obrigações para com o fisco, entre elas respeitar as suas finalidades e investir o produto da prestação dos seus serviços religiosos na sua atividade fim. Ao encorpar o patrimônio pessoal dos seus líderes, criando empresas de fachada e contas em paraísos fiscais, nada mais fez do que agir, ao menos em tese, à margem da lei, respondendo os seus líderes por isso, com severas consequências para o destino dos seus bens e empresas. Assim, a Rede Record de Televisão passa a estar no centro de uma relevante disputa com o fisco e com o Ministério Público. Quem viver, verá...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Bolsa Piquete

O sindicalismo está se profissionalizando. Para fortalecer as suas reinvindicações, croiou um novo tipo de militância: a remunerada. À falta de mobilização e ideologia, um "bolsa piquete", com pagamento para participações em manifestações sindicais. No Consultor Jurídico (aqui):

Sindicatos compram manifestantes em Brasília

Diskgent - motoboy - maior - SpaccaSindicalistas de Brasília inventaram um método prático, econômico e seguro de fazer protestos e promover manifestações sem precisar deslocar manifestantes do resto do país ou de convencer ninguém sobre a causa a ser defendida. Para isso, criaram o manifestante profissional. Com R$ 40 por cabeça, é possível reunir até duas mil pessoas na Esplanada dos Ministérios, para defender ou atacar qualquer coisa, tomar partido contra ou favor de qualquer um.

Uma das maiores especialistas no novo método de manifestação sob encomenda é a Nova Central Sindical. Por R$ 80 mil, a nova entidade conseguiu, em duas oportunidades, mobilizar pessoas por algumas horas em defesa de “suas causas”. Tudo pago com notas de R$ 20. Encomendas de manifestantes podem ser feitas com tranquilidade e sem qualquer relutância pelo telefone, por qualquer pessoa. Além dos manifestantes, a organização fornece todo o know-how da manifestação.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Senado e a sua irrelevância democrática

A decomposição política e moral no Senado é visível e grave. Os ataques pessoais entre senadores começa a gerar um clima de guerra perigoso para a instituição, que deveria ser a câmara alta, porém nunca esteve tão agachada. Às acusações de ilicitudes administrativas, outras são feitas, apenas com o sinal trocado, de modo a vincar bem que todos são iguais: ali não há virgens nem querubins.

Renan Calheiros chamou Tasso Jereissatti de "coronel", que retrucou chamando-o de "cangaceiro". Os senadores do nordeste revivem assim as diatribes entre uns e outros, trazendo para a Nação a epopeia tipicamente sertaneja. Porém, as armas da peleja passaram a ser ofensas pessoais e denúncias de corrupção. Uns assacando contra os outros, nauseando a plateia atônita e embasbacada.

Sarney poderá, diante do teatro belicoso em que se transformou o plenário do Senado, permanecer na presidência daquela casa legislativa. Com o controle sobre o Conselho de Ética, além da maioria no plenário - o apoio incondicional de Lula mantém musculatura política para o octagenário senador porfiar -, José Sarney não será ejetado da cadeira azul de elevado espaldar. Sairá se desejar fazê-lo, nos termos e condições que vier a impor. Até lá, porém, o Senado vai se decompondo, perdendo o que lhe resta de legitimidade, com os senadores se agredindo mutuamente, numa luta sinistra em que não há vencedores: todos perdem, sobretudo a democracia.

Renan Calheiros mudou o perfil como político. Reconhecidamente hábil, exímio articulador, sempre buscou atuar em busca de consensos, evitando confrontos públicos. Desde que foi conduzido ao inferno astral, quando presidente do Senado, enfrentando uma campanha virulenta contra ele, que terminou por levá-lo à renúncia, Renan mudou: passou a ser enfático, agressivo, combativo, duro nas falas, enfrentando de peito aberto os seus detratores. Faz por Sarney o que ninguém fez por ele, indo para o ataque sem pejo, de modo intimorato. E assim passou a ser temido, respeitado e odiado.

Renan joga um jogo pesado, duro, sem meias medidas. Não se utiliza mais de ardis para engalanar manobras regimentais: elas estão à mostra, claramente, para serem vistas. A maioria se impõe, e pronto. Assim, o Conselho de Ética teve os seus membros indicados pelo PMDB com o critério da fidelidade canina à liderança. Não se indicaram nomes aceitos pela opinião pública, simbolicamente respeitados. Não. Nos tempos atuais, o Senado expurgou a opinião pública e passou a conviver com o jogo bruto, antes circunscrito aos bastidores, sob os holofotes da Tv Senado, invadindo as casas das pessoas. Os símbolos de probidade passaram a ser devastados publicamente, como ocorreu com Pedro Simon, que passou a guardar o silêncio no dia de hoje, após o severo embate com Renan e Collor.

Calheiros dá as cartas e joga uma partida de riscos elevados, mas calculados. Joga com lances de mestre, sabendo que tem o jogo em suas mãos, porque haverá de contar com o apoio contrito e irrestrito de um PT agachado diante da CPI da Petrobras, cuja direção está nas mãos do PMDB. As pedras do xadrez foram bem movimentadas e o presidente Lula percebeu que está preso aos desdobramentos da crise no Senado: se jogar Sarney às feras, verá aberta a caixa de pandora dos gastos heterodoxos da Petrobras.

Não é à toa que a blogosfera petista ou chapa branca ataca Pedro Simon, defendendo José Sarney, ainda que timidamente, como Luis Nassif, cujo blog mostrou-se decididamente em defesa de Sarney, ainda quando parecia criticá-lo.

Renan Calheiros conseguiu, com a sua liderança, deixar desnorteada a oposição a Sarney. E o Senado vive o seu pior impasse, constrangedoramente. Até onde essa crise vai, ninguém sabe. Mas já se sabe o seu resultado imediato: a irrelevância do Senado em nossa democracia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ataque ao crucifixo

Reproduzo aqui o blog do Reinaldo Azevedo (aqui). Há alguns que, em nome do Estado laico, querem simplemente apagar as raízes históricas do Brasil com o cristianismo católico, desde a sua descoberta. Ao tentarem retirar símbolos religiosos de prédios públicos, como o crucifixo, querem mesmo é arrancar um pedaço da nossa cultura, cuja expressão está até mesmo na invocação de Deus no preâmbulo da nossa Constituição. Laico que é, como pode o Estado mencionar Deus em sua principal norma jurídica, que funda juridicamente o país?

Depois, como vagar, trato do assunto:

QUEREM CASSAR E CAÇAR ESTE SÍMBOLO DAS REPARTIÇÕES. EM NOME DA TOLERÂNCIA!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009 | 19:14

crucifixo

Uma coisa é ser agnóstico; outra, distinta, é considerar mera estupidez o que não pode ser explicado pela razão; uma coisa é ser ateu; outra, distinta, é achar que os crentes merecem a fogueira — ainda que seja a da desmoralização. Uma coisa é ser laico e advogar um estado idem; outra, diferente, é perseguir as religiões e os signos religiosos. Uma coisa é defender firmemente que a religião não degenere em fanatismo e sectarismo; outra, distinta, é perseguir fanática e sectariamente os que fazem questão de evidenciar a sua religião.

Por que esse preâmbulo?

Certamente por julgar que todas as outras questões que dizem respeito aos “Direitos do Cidadão” já estão em seu devido Lugar, a Procuradoria Regional dessa área, em São Paulo, decidiu ajuizar uma ação civil pública pedindo à Justiça que obrigue a União a retirar símbolos religiosos, como crucifixo e bíblias, das áreas públicas dos órgãos federais. A argumentação: o Estado é laico.

Parece tudo tão óbvio, não? Parece tudo tão evidente: se é laico, sem símbolos religiosos. Pronto! Não! Pronto nada! De jeito nenhum! Houvesse a obrigatoriedade de se exibir o crucifixo nessas repartições, eu estaria entre aqueles a lutar pela mudança da lei. Mas não é assim.

Dada a forma como se ostentam esses símbolos nos órgãos públicos, estamos diante de uma óbvia e legítima expressão que é também da nossa cultura — não diz respeito apenas à nossa crença. Se um juiz ou promotor decidir pôr em sua sala um quadro com a imagem de uma figura do Candomblé, não ocorreria a ninguém lhe pedir que tirasse o objeto de lá. E ai daquele que o fizesse! Correria o risco de ser processado por racismo ou intolerância religiosa.

O mais surpreendente, e até engraçado, é que a ação da Procuradoria teve origem na representação de um tal grupo chamado Brasil para Todos. Para todos, como se nota, mas menos, então, para os cristãos, que formam, suponho, mais de 90% da população brasileira. Estamos diante da intolerância em nome da tolerância; do desprezo, então, à vontade da maioria em nome da minoria. Aí não é possível. Isso não é democracia, mas autoritarismo sectário.

Como já vimos aqui tantas vezes, a democracia não se esgota com a realização da vontade da maioria. Se os direitos e a voz das minorias não estiverem assegurados, não há regime democrático. A simples exposição de um crucifixo ofende a minoria não-cristã do Brasil? Aliás, dentro dessa minoria, quantos, de fato, estão se sentindo agredidos? Não estamos diante de uma daquelas situações típicas em que não podendo o grupo minoritário impor a todos a sua vontade e as suas escolhas, contenta-se, então, em constranger a vontade majoritária?

Caberá à juíza Maria Lúcia Lencastre, da 3ª Vara Federal, a decisão. O grande guia da meritíssima, a exemplo do que ocorre com todos os juízes, é a Constituição da República Federativa do Brasil, aquela que, como está explícito em seu preâmbulo, foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Ou haverá nesta referência algo de profundamente ofensivo aos ateus e agnósticos? O tal grupo Brasil para Todos dará início a um movimento para tirar Deus da Constituição? Não seria o caso de consultar os brasileiros, então, já que a consulta feita — por meio da eleição dos constituintes — parece sem validade a essa gente?

Preconceito anticristão! Esse é o nome da iniciativa do grupo e, se quiserem saber, da ação da Procuradoria Regional. Aliás, seria mais específico: trata-se de preconceito anticatólico, porque é do catolicismo que deriva a, atenção!, “tradição cultural” de se ornarem repartições públicas com o símbolo maior do cristianismo. Ora, que valores tão exóticos ele encerra? O da convivência entre as diferenças? O do amor ao próximo? O da solidariedade? O da caridade? O do perdão? O da fraternidade em Cristo? A quem isso tudo ofende? A quem isso tudo constrange? A quem isso tudo afronta?

Fui ao site do grupo. Encontro lá os dirigentes. E algumas coisas começaram a ficar mais claras para mim:
- Iyalorisa Sandra M. Epega - Presidente da ONG Respeito Brasil Yorubá;
- Pai Celso de Oxaguián;
- Monja Coen Sensei - Missionária da tradição Soto Shu - Zen Budismo;
- Mahesvara Caitanya Das - sacerdote Vaishnava;
- Pr. Djalma Rosa Torres - Igreja Batista Nazareth;
- Rev. Cristiano Valério - Igreja da Com. Metropolitana de São Paulo;
- Ricardo Mário Gonçalves, PhD, monge budista;
- Monge Genshô, Diretor-Geral do Colegiado Budista Brasileiro;
- Jagannatha Dhama Dasa - sacerdote hinduísta Vaishnava;
- Milton R. Medran Moreira - Presidente da Conf. Espírita Pan-Americana.

Como fica evidente, trata-se da expressão de minorias religiosas. Que têm todo o direito de se manifestar. Aliás, é justamente o regime de tolerância propiciado, felizmente, pelo cristianismo que lhes garante lutar para que se apaguem da vida pública brasileira os sinais do… cristianismo. Essa gente seria realmente corajosa, valente, se decidisse, sei lá, pedir que o Irã eliminasse os sinais do islamismo da vida pública — imagem de Maomé, não, porque não pode…

Sim, senhores! O fato é que o cristianismo moderno tem sido a melhor garantia da tolerância entre as diferenças. A lei é sua forma civil. A tradição cristã é seu caldo cultural.

A ONG também conta com “juristas”, como aparecem identificadass lá as seguintes pessoas:
- Roberto Arriada Lorea, MSc. - Juiz de direito;
- Daniel Sarmento - Procurador da República;
- José Henrique Torres - Juiz de direito;
- Iso Chaitz Scherkerkewitz - Procurador do Estado de SP;
- Aldir Soriano - Vice-presidente da Ass. Bras. de Liberdade Religiosa e Cidadania, membro da Comiss. de Dir. e Liberdade Religiosa da OAB-SP;
- Elza Galdino - Advogada

Que esses doutores reflitam se não estão tentando, a exemplo dos racialistas, trazer para o Brasil um conflito que não existe, importando tensões que não estão presentes entre nós ou que têm sido equacionadas no espaço da convivência democrática. Rituais de natureza religiosa, segundo a tradição de cada país, estão presentes em quase todo o mundo. Em boa parte do planeta, a testemunha jura dizer a verdade com a mão sobre a Bíblia.

O cristianismo, felizmente, não se impõe mais a ninguém. No Brasil e no mundo. No que respeita à Igreja Católica, poucas religiões têm buscado, com tanta dedicação, a convivência com as diferenças — em alguns casos, a ponto de se descaracterizar. Querer cassar e caçar o crucifixo, impondo uma proibição, corresponde a violentar a história brasileira e a incentivar a intolerância.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

O poder do olhar

Essa imagem foi objeto de diversos jornais hoje. Um olhar... (clique duas vezes na imagem).

Greve: A Arte da Guerra do Sindicalismo à Manguaba

A greve geral da educação vem aí. Na matéria postada por Célio Gomes, fotos da reunião do novo secretário estadual da Educação com os velhos dirigentes sindicais (aqui). Se fôssemos fazer um fotogaleria das greves dos últimos dez anos da educação, veríamos diversos secretários negociando com os mesmos sindicalistas. Algo de impressionante.

Com a experiência de ter participado de diversas mesas de negociação, proponho aqui A" Arte da Guerra do Sindicalismo à Manguaba - em 10 Proposições," com apontamentos sobre o eterno modus operandi do nosso movimento sindical.

Proposição 1: O líder sindical deve insuflar a sua base, convencendo-as de necessidades que ela não possui ou possui de modo mitigado. Com isso ele mostra a sua importância e evita que terceiros se apropriem do seu papel.

Proposição 2: Estimular a realização de paralisações ou greves. Sem elas, o sindicalista passa a ser uma figura sem importância e sem causa. As greves são essenciais para manter o líder em evidência.

Proposição 3: O líder sindical deve esmagar a oposição dentro do sindicato. Se aparecer líderes radicais, o líder no poder deve ser mais radical e incendiário, minando o discurso do oponente. Ao mesmo tempo, deve o líder sindical distribuir favores aos seus pares estratégicos, evitando perder o poder.

Proposição 4: Estabelecida a greve, deve o líder sindical constituir uma comissão do sindicato para negociar. Apenas devem participar as pessoas do seu grupo político, evitando o aparecimento de novas lideranças.

Proposição 5: Aberta a negociação com o governo, o líder sindical deve logo observar até onde vai o poder decisório e a vontade política do negociador. Se o negociador tiver vontade política, mas não tiver poder, deve o líder sindical preservá-lo no processo negocial, encontrando imediatamente um bode expiatório responsável pela ausência de avanços na negociação. A isso, denomino "Jogo do Anjo X Demônio". Identificar o entrave é fundamental para sobre ele jogar a culpa pessoal pelo insucesso nos resultados. Quem quer ceder é "bonzinho"; quem quer negociar racionalmente com os números e as possibilidades é "o lúcifer". Esse procedimento é fundamental para dividir o inimigo, fragilizando a posição dos setores menos flexíveis ao atendimento dos pleitos da categoria.

(Esse jogo é frequente e no governo sempre tem quem ainda caia nessa roubada. Na greve dos médicos, por exemplo, virei eu o demônio, enquanto outros se apresentaram como anjos, fragilizando a posição do Governo em mesas paralelas de negociação. Por vezes, o próprio Governador é enredado nesse jogo, porque não faltam amigos que aparecem com as mais variadas sugestões, soluções e milagres. Quando isso ocorre, o sindicato consegue fragilizar o negociador e obter sucesso. Na greve da educação, o demônio era o Maurício Toledo, secretário adjunto da Fazenda. Esse jogo é velho e inteligente, mas ainda há pessoas que caem nele).

Proposição 6: Esticar a corda até o limite, flexionando apenas quando sentir que as suas bases estão começando a claudicar. O líder sindical apenas deve recuar quando correr o risco de ficar sozinho na luta, pondo a sua liderança em risco. Ao primeiro sinal de cansaço da base, o líder sindical começa a flexionar, mas sempre deixando a decisão para ser tomada coletivamente.

Proposição 7: As mesas de negociação devem ser longas, criando a impressão na base que as conversas são produtivas e que há chances de sucesso na greve. A tática usada pelos sindicatos é levar muita gente para as reuniões, cada um pedindo a palavra para dizer muitas vezes a mesma coisa. Com isso, uma reunião que poderia durar 10 ou 15 minutos dura longas 2 ou 3 horas. A base fica aguardando do lado de fora, imaginando discussões técnicas, avanços, caminhos. Muitas vezes, as reuniões são vazias, com idas e vindas, circunlóquios cansativos, inutilidades.

(Na foto da matéria do Blog do Célio Gomes, vemos o secretário cercado de ao menos cinco dirigentes sindicais. Todos ali pedem a palavra sucessivamente, de modo que a reunião se alonga interminavelmente, dando esperança à base que espera na frente da secretaria. Todavia, os que estão na mesa sabem onde a reunião vai dar: em nada!).

Proposição 8: Nas reuniões maiores com os negociadores do governo (sobretudo se for com o Governador), deve ser levado um técnico que fale sobre os números, um servidor que faça um discurso emocionado e - se possível - chore ou faça chorar, e alguns parlamentares ligados ao sindicato, que tirarão proveito político se houver avanços.

Proposição 9: Quando houver impasse grave nas negociações, devem os líderes sindicais procurar interlocutores alternativos por diversionismo e para produzir notícias, evitando que a greve caia no esquecimento e as bases se enfraqueçam. É o que chamo de "Momento do Passeio".

(Em Alagoas, é comum que os líderes sindicais procurem o chefe do Ministério Público, a presidência do Poder Legislativo, a presidência do Poder Judiciário e qualquer um que tope recebê-los e que possa gerar notícias).

Proposição 10: Durante a greve, o líder sindical deve criar eventos para esquentar o clima e animar a base do sindicato. Se necessário, usando os sem-terras, os índios e o outros sindicatos. Uns ajudam os outros, uns engrossam o movimento dos outros, e assim todos podem sair ganhando.

***
O meio de se combater esse método dos sindicatos é simples, mas requer disciplina. Proponho aqui alguns encaminhamentos:

  1. Liderança: o líder deve saber o que quer e determinar aos seus comandados qual caminho tomar.
  2. Unidade: a equipe de governo deve estar unida e observar a voz de comando, evitando a formação de divisões internas.
  3. Respeito ao negociador: apenas quem negocia é o negociador. Não podem existir canais paralelos de negociação, de modo que o sindicato não encontre meios de dividir a equipe de governo. Para isso, porém, é fundamental o papel da liderança, que não permitirá tratar da greve sem ser através do negociador.
  4. Credibilidade: o negociador deve ter uma postura séria, sem escamotear as suas intenções.
  5. O que pode, pode; o que não pode, não pode: o negociador deve conduzir habilmente o processo negocial, flexibilizando o que puder e sendo inflexível no que for essencial. Se precisar esticar a corda, deve fazê-lo implacavelmente, chegando ao limite extremo de demissões exemplares. Negociar indefinidamente pode ser combustível para a greve e para as lideranças sindicais.
Penso esteja aí um mapa de como funciona uma greve e de como deve agir o governo. É uma anatomia crua de como as coisas ocorrem. Eu as vivi.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Senado virou um ringue

Um debate interessante no Senado. Renan enfrenta Pedro Simon, que o ataca usando Collor, que reage chamando-o de "parlapatão" (embusteiro, vaidoso, impostor). Um ringue de ataques pessoais impressionates. Collor ofegava de raiva. Um vídeo para ser visto e pensando:



Collor estava com a respiração arfante, demonstrando ingente incômodo com a referência ao seu nome feita por Pedro Simon. Os seus olhos saltavam da órbita, conjugando-se com as feições embaraçadas, tesas, emulando o seu opositor. A fala carregada, revelando incontida emoção, trouxeram de volta ao ringue o "velho" Fernando Collor. Foi o primeiro embate seu no Senado, em quase 3 anos de mandato completos. O leve embate com Ideli Salvati, em que tripudiou indiretamente chamando-a de galinha, foi nada diante do arregaço com o senador gaúcho, até mesmo pelo contexto do conflito e pelo valor simbólico que Simon passou a ter em um Congresso Nacional malvisto pela sociedade brasileira.

Renan cumpriu melhor o seu papel, indo para o embate em defesa de Sarney, porém com a poderação que os anos de Senado lhe ensinaram. Quase conseguiu desestabilizar o experiente senador gaúcho, que terminou sendo defendido por seu pares nos petardos desferidos por Collor.

Vamos ver os desdobramentos da crise. Uma coisa é certa: há dois cenários diferentes em questão: o interno, em que os defensores de Sarney têm maioria, são apoiados por Lula e poderão nadar de braçadas; e o externo, em que a opinião pública terá papel decisivo, sobretudo com a aproximação das eleições. A oposição sabe que pode perder no curto prazo, mas terá grandes dividendos no longo prazo. A questão é: Lula topará pagar essa conta até quando? A resposta bem pode estar na CPI da Petrobras.

domingo, 2 de agosto de 2009

Crônica da semana: Um Olhar

UM OLHAR

As pessoas passavam ao meu lado, cumprimentavam-me. Falava com alguém sobre algo chato e sem relevo, quando senti - sim, senti - olhos que me olhavam absortos, profundamente, vendo sem ver. Era um olhar para além do ambiente, para além de mim mesmo. Era como se me absorvesse, abstraindo-me daquele contexto. Tão profundo que o senti, como se uma energia se desprendesse e me alcançasse ali, apanhando a minha visão periférica. Voltei-me e os meus olhos alcançaram aquele olhar, que continuou assim, como se não visse o meu movimento, como se o tempo estivesse suspenso, com uma cortina de pensamentos encobrindo o instante.

Os olhos se encontraram. Encontraram-se com força. A expressão densa, o rosto meio inclinado, os cabelos longos com fios delicados sobre um dos olhos... Os lábios levemente entreabertos, depois fechados de modo austero. Ela estava ali, olhando-me com os braços delicadamente pousados, um deles dobrado transversalmente sobre o tronco para alcançar o outro e segurá-lo. Fui tragado pelo olhar, que em instantes eternos perdurou para, em seguida, sumir em um movimento de corpo, dando-me as espaldas e andando adiante. Os cabelos longos dançaram com aquele movimento abrupto e candidamente suave, banhando as costas como línguas d'água.

Aquele olhar profundo, invasivo, penetrante, nunca me abandonou. Eram olhos lânguidos, com uma ponta de tristeza. Tomava-me, porém sem tomar para si. A melancolia estava ali, mergulhando naquela profundidade de pensamentos e sentimentos não revelados, escondidos em camandas profundas e íntimas.

E fiquei ali, perturbado por aquele olhar. Os olhos espessos, a fisionomia marcada, o rosto lindo e sofrido, a boca vermelha entreaberta... Um quadro pintado pela vida, pelo instante. Um quadro... Um olhar...

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sábado, 1 de agosto de 2009

Música do fim de semana

Uma daquelas que é boa para dançar, namorar... Michael Bolton já cantou, mas Laura Braningan é show. Antiga e boa, como um bom vinho...