domingo, 28 de maio de 2017

Amor nos tempos do esquecimento


Tudo passa. Somos passantes. como passam o vento, as folhas que se deixam levar, o andante que a tudo olha e nada parece ver. Passam o sorriso morrendo no canto da boca, o brilho do olhar desbocado, o medo de que passem os anos e a senectude chegue...

Tudo é tão efêmero. Como água escorrendo pelos dedos, vão-se os momentos do encantamento pela vida. Porque tudo urge; a urgência nos afoga no esquecimento do ontem vivido e sentido. Há um despedaçar da alma já fraturada e nem nos damos conta de que, afinal, emergenciamos a tudo como numa oura em que contemplamos a queda, o espatifar-se, o último frêmito.

E o que nos resta sempre, ali, contumaz, como um faraute da vida agoniada: o amor! Sim, nos tempos do esquecimento, ele não olvida, não desapetece o alucinante palpitar da sístole e diástole,  o suor das mãos, o dilatar das pupilas que não veem mas se impõem querer.

E lá está aquele rosto que não se pode ver, não se acariciou, deixando contemplar a boca não beijada, como imagens soltas de um sonho confuso, rabiscos da lembrança viva do que não se teve presente.

Em mundo assim, tão apressado, o esquecimento é o modo de sobrevivência. E nesses tempos opacos, só o brilho do amor que nos habita é perene, atemporal, ubíquo. Basta entrever o ser amado, ali, quando o hoje se deixou acasalar com o ontem, que tudo para; até o esquecimento se deixa esquecer de si mesmo...

A civilização da superficialidade


A realidade é simbolicamente mediada. Tão fundamental é o sentido que construímos sobre o mundo que não raro se diz que o real é construído pela linguagem ou, como poeticamente dirá o último Heidegger, “a linguagem é a morada do ser” ou ainda “tudo o que pode ser compreendido é linguagem”. Essa concepção está à base do construtivismo reinante em nossos dias, a tal ponto que o real seria o que a linguagem diz que é, mesmo que negue o mundo lá fora: questões biológicas passam a ser superadas na definição da sexualidade pelos construtos sociais, dizem os ideólogos do gênero, só para citar o exemplo de uma questão cada vez mais presente nos debates sociais em que o uso da linguagem passa a ser meio para a reconstrução ideológica da natureza.

Se a linguagem já desafiava a filosofia, a tal ponto que o giro linguístico marcou a segunda metade do Século XX, o que dizer de uma época dominada pela comunicação instantânea, avassaladora, que nos acompanha em todos os lugares: televisão, internet, celulares... O jornalismo mesmo passou a ser produtor das notas dadas de imediato, quase que contemporaneamente aos acontecimentos. Os jornais, para sobreviverem, passaram a ser cada vez mais opinativos, porque as notícias de ontem não mais interessam aos leitores do dia seguinte; estão já saturadas de narrativas conhecidas e superadas...
Em um mundo que é construído por notas, por tiras, por informações rápidas, tudo é superficial, tem uma dinâmica que não permite o enraizamento de nada. Se há um gravíssimo caso de estupro, logo alguém grita, no calor das informações aceleradas, que há uma “cultura do estupro”. A expressão vai sendo repetida sem que a maioria saiba ao certo do que estamos realmente falando, ficando a rede de comunicação sobre o tema de antemão conduzida por um ativismo comunicativo de grupos de pressão, embotando a compreensão da maioria, presa a opiniões, doxas, que logo serão abandonadas diante do próximo acontecimento midiático, embora o caldo ideológico permaneça ali, depositado no fundo do baú das informações, para ser engatilhado quando aquele ativismo novante se interesse em levantá-lo como escudo ou uso retórico de ataque.

Vamos criando cada vez mais a civilização da superficialidade; pior que líquida, ela é vazia, volátil, desumanizante. E nós, que buscamos ansiosamente por segurança, raízes, esteio, caímos dia a dia na era da depressão: a angústia consome a todos, a fuga de si mesmo passa a ser a saída para a sobrevivência, o engajamento a grupos fundamentalistas, uma solução ao sem-sentido. A civilização da superficialidade é aquela, a nossa, dos homens e mulheres fraturados, mutilados, sorriso no rosto e medo na alma.

E a linguagem dos tempos superficiais vai nos desinformando, nos domesticando em um mundo que passa a ser inescapável e no qual não nos sentimos nunca em casa. Somos sempre inquilinos de nossas próprias vidas, em que os valores são tão variáveis que quase não podem ser havidos como valores.

Sim, o nosso tempo, a quadra em que vivemos, só nos convida ao conflito, ao medo, ao desespero. Não se buscam consensos, encontros, pontes. Cada vez mais nutrimos muros, fronteiras, guetos. E aí ou voltamos os olhos para as raízes em que construímos a nossa civilização ocidental ou a superficialidade do nosso tempo irá esmagando o que de melhor há em nós. Eis aí o grande desafio: conservar o que temos de melhor para nos abrir ao novo estruturado em solo firme e fértil.

O humanismo ateu de Leandro Karnal

1. Sentido da vida, liberdade humana e solidão.

Leandro KARNAL é um historiador brasileiro que ganhou prestígio e destaque através da divulgação de vídeos com passagens das suas palestras que viralizaram nas redes sociais. E não sem razão. A sua postura cordata, a segurança e a finura expositivas, as citações de autores e textos clássicos ou cultos, o humor sem afetação e distante de qualquer vulgaridade, enfim, são atributos que deram a KARNAL uma crescente lista de admiradores e de pessoas interessadas em ouvi-lo e beber da sua rica fonte intelectual. Diria que ele tem um traço que muitas vezes tem faltado entre nossos pensadores: o asseio da linguagem e fineza de trato. Já de saída, portanto, uma lição para nós do modo de se portar em defesa das suas ideias, que devem se impor não por serem expostas com inflamação e olhos esbugalhados, mas por serem bem estribadas e cativarem os ouvintes.

Com o seu sucesso legítimo, mais e mais interessados passaram a parar para ouvi-lo com atenção. Por isso mesmo, foi convidado para participar como entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura, cujo vídeo pode ser assistido aqui, gerando comentários e textos críticos, favoráveis ou não, alguns desses últimas até duros (vide um exemplo aqui). Pois bem. Julguei interessante escrever um pouco sobre a entrevista de KARNAL, fazendo algumas ponderações despretensiosas, sem emulação alguma.

Um primeiro aspecto importante que perpassa o discurso de KARNAL é o seu ateísmo declarado. Não apenas afirmou descrer na existência de uma entidade como também asseverou não ter mais nenhuma metafísica dentro de si. Quando chegar o momento da sua morte terá certeza que ali terá se encerrado tudo, absolutamente tudo. E exemplificou a sua falta de fé falando sobre o momento dramático da morte do seu pai, quando não sentiu necessidade de fazer uma oração, porque sabia que tudo havia terminado, ficando ele apenas na memória dos que o amavam, sabendo que ele cumpriu uma vida muito produtiva, muito boa...

Esperei, dada a complexidade do tema, que KARNAL desse alguns passos além. Porque o pensamento científico, qualquer que seja ele com pretensão de ser levado a sério, principia sempre com uma indagação: "por que isso é assim e não de outro modo?". Quando o homem está diante da morte, poderá não ter o interesse em saber para onde vai além do depósito do seu corpo no túmulo, mas por certo terá uma pergunta básica retrospectivamente: "qual o sentido da minha vida individual?"; "qual o sentido da vida humana?". O ateísmo é a resposta que de antemão nega a seriedade ou propriedade da pergunta sobre o sentido da existência. Na breve assertiva de KARNAL sobre a morte do pai há apenas um conformismo: a vida dele foi boa, foi produtiva. Certo; isso basta à sede que temos de eternidade? Porque todos temos, mesmo o mais cético e o mais ateu dos homens, uma sede imensa de autotranscendência, razão pela qual, inclusive, nos comunicamos, pensamos adiante, escrevemos livros, fazemos palestras: para que algo de nós sobreviva nos outros, na história, até mesmo para além da nossa morte...

Não há como negar a centralidade da pergunta sobre o sentido da vida. Como no-lo disse Viktor Emil Frankl (Teoria e terapia das neuroses: introdução à logoterapia e à análise existencial. Trad. Cláudia Abeling, São Paulo: É Realizações, 2016, p.16), "A autotranscendência marca o fato antropológico fundamental de que a existência humana sempre aponta para algo que não é ela própria - aponta para algo ou alguém, ou para um sentido que deve ser preenchido, ou para a existência de outro ser humano que encontra. Ou seja, o ser humano só se torna realmente ser humano  e é totalmente ele mesmo onde ele se entrega na dedicação a uma tarefa, no serviço a uma causa ou no amor a outra pessoa, deixando de se enxergar e esquecendo-se de si". Por isso, impressiona que todas as citações eruditas feitas por KARNAL não se apresentem diante da explicação do evento dramático da morte do seu pai, ficando ele quase sem palavras para manifestar o seu absoluto conformismo de que, sim, ele, o seu pai, foi muito produtivo em vida e tudo se consumou, senão a sua lembrança na memória dos seus entes queridos.

Ora, o homem tem na morte o seu fim; mas qual o fim, a finalidade, da vida? KARNAL mostra não apenas o seu ceticismo conformista, mas também tragicamente fatalista: somos sozinhos, individual e absolutamente sozinhos. Só conseguimos compreender o outro vendo no seu "espelho de dores" as nossas próprias dores, compreendendo-o pelo que somos nós mesmos. "Somos sozinhos e morreremos sozinhos", diz-nos KARNAL, falando na televisão para inúmeras pessoas, buscando ser compreendido em seus pensamentos. Prega justamente a solidão que seríamos nós, existências ilhadas e irrelevantes:

 "Somos absolutamente irrelevantes diante do universo, de um tempo cósmico que nos torna absolutamente um átomo perdido em tudo isso; só que isso lhe dá a absoluta liberdade. Ou seja, isso que lhe torna uma pessoa, isso que lhe torna um ser humano, os seus atos comprometem toda a humanidade, como diz Sartre, e aí eu digo que, de fato, a solidão não quer dizer o isolamento, mas é a consciência de que a minha dor é a minha dor, e de fato ninguém é responsável pelo meu fracasso e ninguém é responsável pela minha felicidade".

Ora, se os meus atos comprometem toda a humanidade (!), como teria dito Sartre, então haveria uma relação ineliminável entre mim e esta entidade metafísica chamada "humanidade". Aliás, relação essa que a tradição judaico-cristã chama de pecado original. KARNAL, ao afirmar que eliminou toda a metafísica, talvez não tenha se dado conta de que nenhum grande filósofo antimetafísico tenha de fato conseguido fazê-lo; basta pensar no positivismo analítico e no desastre da redução das proposições científicas às proposições protocolares, que outra coisa não poderia recomendar para a ciência senão que "O que não se pode falar, deve-se calar", conforme a proposição final do Tratactus logico-philosophicus. O que é a "humanidade" senão uma abstração, um conceito metafísico? Para o empirismo só poderia existir o homem individual concreto, ou o homem no meio de outros homens. Como o meu ato individual me compromete diante de toda a humanidade, de gente que nem conheço e nem se relaciona comigo? KARNAL ou declinou da sua tese antimetafísica ou fez poesia ou, o que mais me parece, não amadureceu a sua reflexão sobre a existência humana (outra questão metafísica...).

O que seria a "absoluta liberdade" de um ser irrelevante diante do universo? Em que medida essa liberdade absoluta - se é que ela existiria - nos tornaria "pessoa", "ser humano", quando somos socialmente vinculados a uma tradição simbólica, cultural, ética, que condiciona o nosso existir e diz da nossa própria identidade pessoal? Ora, se há algo nos falta como indivíduos situados em um mundo que nos condiciona é justamente uma liberdade absoluta. KARNAL fala, assim, algo incompreensível, contraditório e logicamente em litígio com as suas próprias premissas. Pareceu dizer algo profundo,  mas sem muita perquirição damo-nos conta do seu vazio de conteúdo.
A absoluta irrelevância que seríamos diante do universo, da própria história da civilização, não poderia fazer com que os nossos atos comprometessem toda a humanidade, ainda mais se levarmos em conta a proposição de KARNAL segundo a qual ninguém seria responsável pela felicidade ou fracasso de ninguém. Ou haveria aquele comprometimento do meu ato perante toda a humanidade ou a minha profunda solidão me faria antecipadamente irresponsável pelo destino de outras pessoas. Ou uma coisa ou outra: na mesma oração as proposições se chocam em sentido lógico.

2. Contra a direita delirante e absurdamente estúpida

Leandro KARNAL, na entrevista do programa Roda Viva, é crítico dos preconceitos. A tolerância seria uma virtude, desde que não seja com os que defenderiam ideias de direita ou ideias conservadoras. Diz KARNAL, quando perguntado sobre o projeto "Escola sem partido": "Escola sem partido é uma bobagem conservadora. Substituir uma ideologia por outra conservadora. Não existe escola sem ideologia. É uma crença fantasiosa de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola  forme a cabeça das pessoas e que esses jovens saiam líderes sindicais". Aqui cessou o exercício da tolerância do entrevistado e se apresentou a verdade de uma frase sua anterior, no início da entrevista: "A bipolarização não pensa; a bipolarização adjetiva".

Não tratarei do tema da escola sem partido, que não merece ser abordado com o simplismo ou os ataques disparados por KARNAL. Prendo-me a um outro ponto: se é certo que não existe escola sem ideologia, parece-nos não menos certo que seja legítimo que os nossos filhos sejam educados em escolas que defendam valores mais próximos aos dos pais, inclusive ideológicos. Talvez o ataque aos conservadores - delirantes e estúpidos simplesmente por serem conservadores e não pensarem como KARNAL - decorra justamente do fato de que a direita passou a compreender que a razão da prevalência de valores e pensamentos de esquerda em nossa juventude adviria da ocupação intelectual que a esquerda havia feito nas escolas e universidades.

A "bobagem conservadora", como no-la denominou KARNAL, talvez tenha aparecido com mais força quando surgiram tentativas oficiais de impor a ideologia do gênero no ensino e o modo de pensar esquerdizante, substituindo o papel das famílias pela escola. No Brasil, o chamado Kit-gay foi a expressão mais eloquente dessa política oficialista, que despertou os conservadores sobre a sua verdadeira "crença fantasiosa" até então vigente: a de que a escola seria um campo neutro de ensino. O despertar dos conservadores sobre o aparelhamento ideológico das escolas brasileiras é que levou a essas reações fortes de pensadores de esquerda, surpreendidos com a resistência contrária ao projeto de planificação social da esquerda então no poder: a destruição dos valores religiosos, tradicionais, familiares, em nome de uma sociedade fundada no único valor absoluto: o politicamente correto.
A mudança do tom cordato de KARNAL ao tratar do tema da "escola sem partido" e a recorrência com que se pediu pelos entrevistados para que falasse sobre ele demonstram a importância do assunto e a necessidade da sua análise mais cuidadosa. E isso me pareceu ainda mais evidente quando KARNAL investiu contra a direita por meio do velho e roto discurso planfletário, chamando-a de "fascista", articulando ideias indignas da inteligência e preparo do entrevistado: "Como disse Brecht: 'a cadela do fascismo está sempre no cio', sugerindo a intervenção militar, dizendo que a mulher apanhou porque merecia, e estuprada porque foi leviana". A direita seria fascista; o fascismo defenderia a intervenção militar, o estupro e a submissão da condição da mulher. Logo, a direita é filha dileta do Papa Figo...

Aliás, Brecht é um pensador recorrente nas citações de KARNAL, com a sua ética de guerrilha do humanismo comunista: "O que é um ladrão de banco em relação a um homem que funda o banco?". Nesses pequenos momentos o ascetismo demonstrado pelo discurso de KARNAL cede lugar para o sentido real do seu projeto intelectual, presente em todas as suas concorridas palestras: o ataque por dentro à razão religiosa, à fé, ao conservadorismo, a qualquer expressão daquilo que ele denomina de "fascismo", e que fascismo não é e nunca foi. Usa a técnica de rotular com uma palavra emotivamente negativa e de sentido oco - ao menos no uso com que a emprega - aquilo contra o qual luta ou rejeita, gerando em seus ouvintes a mais absoluta aversão ao modo de pensar que não comungue com a sua ideologia de esquerda. Faltou a KARNAL citar a poesia de Brecht sobre o homem bom, mas aí seria expor demasiadamente a veia poética do seu autor multicitado:

 Perguntas a um homem bom

 Por Bertolt Brecht
 Avança: ouvimos
 dizer que és um homem bom.
 Não te deixas comprar, mas o raio
 que incendeia a casa, também não
 pode ser comprado. Manténs a tua palavra.
 Mas que palavra disseste?
 És honesto, dás a tua opinião.
 Mas que opinião?
 És corajoso.
 Mas contra quem?
 És sábio.
 Mas para quem?
 Não tens em conta os teus interesses pessoais.
 Que interesses consideras, então?
 És um bom amigo.
 Mas serás também um bom amigo de gente boa? Agora escuta: sabemos
 que és nosso inimigo. Por isso
 vamos encostar-te ao paredão.  Mas tendo em conta os teus méritos
 e boas qualidades
 vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te
 com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te
 com uma boa pá na boa terra.

Nada há de fascista nesse discurso poético de Brecht; há aí apenas a ideologia marxista levada a um estado de arte. Essa, consoante se pode observar, é um belo exemplo da tolerância da esquerda. Não acredito, porém, que KARNAL comungue dessa mesma lógica de destruição dos que, mesmo sendo bons, não pensam conforme a esquerda, ainda quando ele manifeste a sua irritação com a tal direita delirante e absurdamente estúpida, essa doença que estava controlada, representando as vozes das sombras, que agora parece novamente voltar à vida pública brasileira.

3. Uma última reflexão sobre o Roda Viva.

O humanismo ateu tem talvez em Proudhon a sua origem. Não se trata do simples ateísmo ou do materialismo, sempre presentes na história da humanidade, mas de uma postura antiteísta e antirreligiosa. Feuerbach e Nietzsche são também pais dessa dramática luta sem trincheiras do homem contra Deus. Foi Feuerbach quem disse que o homem "afirma em Deus o que nega em si mesmo", em seu livro A essência do cristianismo.

O humanismo ateu de Leandro KARNAL não é novo, sendo filho do pensamento de Feuerbach e Nietzsche. O seu ateísmo é um antiteísmo, embora sem a eloquência de uma apologia desabrida contra a religião e a fé. Ele compreende a religião como um fato, um dado, nada obstante que será superado no Progresso da própria evolução humana - há muito de Proudhon nessa visão, no evolucionismo da história e do próprio desenvolvimento da humanidade.

A crença no Progresso, mostra-nos Christopher Dawson (Progresso e religião, trad. bras., É Realizações), que surgiu nos séculos XVIII e XIX, faz com os pensadores acreditem na aurora de uma nova época comandada pela Razão, em que o Homem passaria a ter a centralidade da história, liberto de Deus: "E o mesmo espírito reaparece nos reformadores revolucionários políticos e sociais do século XIX, que apresentavam uma crença quase apocalíptica na possibilidade de transformação da sociedade humana - uma passagem abrupta da corrupção à perfeição, da escuridão à luz" (pp.62-63).

Esse humanismo ateu, nada obstante, com a sua fé no Progresso, encontra em Marx o seu adversário ferrenho. As sociedades sem classes, pranteada por KARNAL sub-repticiamente ao falar sobre a nossa, tão cheia de diferenças e patamares sociais, nada mais seria do que o produto desse Progresso, obtido pela planificação social, que teve em Marx o seu formulador com o comunismo alcançado após a destruição dos inimigos burgueses. Ele põe fim ao humanismo renascentista porque menoscaba o indivíduo para olhar a história pelo coletivismo; é o social que conta, não o indivíduo. Em Marx a ideologia do Pregresso ganha um sentido próprio e definitivo: o fim da história com a destruição das contradições do capitalismo e o surgimento do comunismo, última etapa da realização da humanidade.

Nicolai Berdiaev, um dos mais profundos filósofos russos a fugir do regime comunista, demonstrou como a ideologia do Progresso nada tem de científica; hoje, bem sabemos os resultados das tentativas de aplicação da engenharia social marxista, em que pese ainda tenhamos os que dão aos defensores de ideias baseadas naquelas premissas o nome de progressistas. Tivessem lido Bardiaev, dariam-se conta que há muito de pensamento místico e religioso naquele paraíso na Terra pensado por Marx (El sentido de la historia, trad. esp., Ecuentro Ediciones, 1979, esp. p.135 ss.).

Encerro esse breve texto com um alerta. Más ideias podem ser vendidas com a vestimenta elegante das citações eruditas; continuam, contudo, a ser más ideias. Os antiteístas estão mais presentes do nunca, sobretudo em uma época pautada pelo relativismo moral e pela lógica policêntrica do politicamente correto, uma espécie de moral sem moral e sem raízes, flutuando entre as paixões do momento e a moda do que parece ser cool à vista da maioria.

KARNAL fala muito bem; por vezes não diz coisa com coisa, mas o faz com a adequada empostação de voz de alguém marcado pela educação jesuíta. Deus ingressa em sua fala como um mito a ser destruído pelo humor sarcástico, pela ridicularização dos que ainda acreditam nessas bobagens de anjos da guarda. Ao ridicularizar sutilmente - por vezes, outras nem tanto! - a crença, promove a erosão dos valores religiosos. Sim, a cadela do ateísmo militante está no cio, como nunca antes na história da humanidade.

O humanismo ateu, mostra-nos Henri du Lubac, busca a destruição do verdadeiro humanismo, aquele que encontra em Deus o seu fundamento último. E sem Deus, sem a moral que brota da fé, tudo será permitido...



Apropriação cultural

A primeira coisa que devemos fazer ao falar sobre uma coisa é dizer sobre que coisa estamos falando, para que evitemos os efeitos negativos da polissemia, turbando qualquer chance de entendimento. Se vamos falar sobre apropriação cultural, é preciso primeiramente saber o que significa esta expressão para os que a usam como uma bandeira ideológica. Procurando na internet, encontramos muitas menções ao significado desta locução como ela vem sendo aplicada no discurso das redes sociais. No site Geledés - Instituto da Mulher Negra, há um texto de Bárbara Paes, do site OvelhaMag.com que diz: "A apropriação cultural acontece quando elementos de uma cultura são adotados por indivíduos que não pertencem a esta cultura. Isso inclui o uso de acessórios e roupas, a exploração de símbolos religiosos, o sequestro de tradições e de manifestações artísticas. A apropriação cultural é especialmente terrível quando se trata de elementos de uma cultura historicamente marginalizada e explorada... Um grande problema de sequestrar elementos de culturas não dominantes e adotá-los de maneira descontextualizada, é que as pessoas que fazem a apropriação se beneficiam dos aspectos que julgam “interessantes” de uma cultura, ignorando os significados reais desses elementos, enquanto os membros dessa cultura tem que lidar com opressão diariamente."

Em um outro texto, Stephanie Ribeiro diz que "há séculos uma cultura é dominante e imposta, o modelo a ser seguido é o europeu, consequentemente, o padrão estético é o ocidental e branco. Quando se nota o interesse nos casos citados, esses símbolos sofrem um processo de embranquecimento, elitização e exclusão dos costumes. O turbante que sua empregada fazia não era interessante até aquela amarração sair numa revista. O pior lado disso tudo é que a exclusão vem quando a tradição se torna um bem de consumo caro e de acesso restrito, ou seja, vira “modinha”. É totalmente diferente ser branco – ou passar como branco – e usar um turbante/dread, e ser negro usando as mesmas coisas; os olhares são outros, exatamente porque quando usado pelo protagonista daquela tradição, o símbolo ganha outro significado, ele é político, de resistência e empoderamento."
Para esse pessoal, que copiou o modismo americano sobre o assunto, há sempre embutido um conceito binário opressor/oprimido, elite/excluído, brancos/negros, cuja inspiração sustenta a ideologia da esquerda marxista. Para a esquerda, com o seu caldo ideológico necessário para se retroalimentar, há sempre uma luta de classes - econômica, cultural, religiosa, etc. -, um conflito em que os mais fracos ou marginalizados devem se erguer contra a opressão, real ou fictícia, gerando com isso um discurso de resistência contra seja-lá-o-que-for. No caso da tal apropriação cultural, os argumentos são rasteiros, como se vê dos textos citados e de vídeos que circulam na internet (vide aqui).

A crítica a essa tal "apropriação cultural", tal como tratada por essa turma da esquerda, gostaria, na prática, de criar um gueto cultural: adereços usados pelos negros deveriam ficar segregados, como se as pessoas não intercambiassem valores, ideias, pensamentos, etiquetas, formas de se vestir... Trata-se de uma espécie apartheid de sinal trocado, em que os brancos deveriam se abster de usar aspectos culturais dos negros, porque estariam fugindo das suas raízes históricas de opressão e resistência. Em um mundo marcado por trocas simbólicas, a crítica à tal apropriação cultural só não é totalmente idiota porque há nela uma lógica das esquerdas: conservar o mercado das lutas ideológicas como uma forma de sobrevivência discursiva: sem alimentar ou criar novas formas binárias opressor/oprimido, o seu discurso emotivo perde a força e os que se beneficiam dessa lógica aloprada perdem o relevo, como ONGs, lideranças políticas, meios de comunicação, etc.

A indigência intelectual dos argumentos sobre a apropriação cultural é impressionante. No fundo, o que essa gente está pregando é simplesmente a cultura da segregação, porém sustentada por aqueles que seriam as vítimas, numa espécie de Síndrome de Estocolmo cultural: o oprimido vira o seu próprio opressor, identificando-se com o gueto em que foi historicamente colocado e cujo rompimento foi uma luta histórica sua. Enquanto os americanos adoram quando os outros povos reproduzem o seu modo de ser e de pensar, o seu modo de vestir, as suas representações culturais, o seu modo de vida, essa turma da tal apropriação cultural quer que haja uma segregação da sua cultura, no fundo porque lhe cai bem o papel de eterna vítima.

O interessante é que o fenômeno da aculturação - assimilação de aspectos de uma cultura por uma outra, seja de modo impositivo ou natural - demonstra que a apropriação cultural é um fato comum, ordinário, normal, quando culturas se encontram, convivem e dialogam. O normal de uma cultura, aliás, é querer que os seus traços se perpetuem, inclusive pela sua adoção por outras culturas. Assim é que o pensamento grego e romano persistem até hoje entre nós, influenciando o Direito, a arte, a literatura, a filosofia...

Daqui a pouco vão querer proibir a feijoada  nas nossas mesas...

Sobra-me uma pergunta: por que esse pessoal não vai catar coquinhos?

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

DO AMOR E DOS APETITES

Os apetites humanos buscam ser satisfeitos. Saciados, deixam de existir temporária ou definitivamente; não saciados, tendem a desaparecer naturalmente, superados por outros apetites. Nenhum desejo é estável ou longevo, fenecendo ou pela sua realização ou pelo seu esquecimento e superação.
O amor não é um apetite; sentimento é o que ele é. Ultrapassa o tempo, os contratempos, as dificuldades, a distância, os desgastes da presença cotidiana... Todavia, não é um sentimento qualquer. Os sentimentos afloram, se instalam e esfriam, ainda que não sumam. O sentimento de apreço, a empatia, o carinho, a saudade, as afinidades, por exemplo, são sentimentos presentes, que não desaparecem simplesmente, mas que não ditam o que somos.
O amor é um sentimento existencial, diz da nossa estrutura como seres situados na mundanidade do mundo. Amar nos autodefine porque já deixa em nós marcas na alma, para além das nossas vontades. Intemporal, ubíquo, constitutivo é o amor, podendo haver variantes tão-só nos apetites que faz nascer, aqui e acolá, em relação ao objeto amado.
O amor subsiste mesmo longe de quem se ama; o desejo, não. O amor se alimenta também na saudade, na ausência, na distância, nas impossibilidades, nas dificuldades; os apetites, não. O amor pode ser platônico; o desejo, não. Agora, o principal: o amor resiste ao convívio, ao cotidiano, aos desgastes da vida a dois; o desejo, apenas como apetite, nunca.
Tanto a distância como a presença constante são desafiantes para o amor, que se deixa desafiar porque se sabe tal. Ambas, porém, são terra árida para o desejo, porque os apetites precisam ser alimentados e logo satisfeitos, na fugacidade lhe é constitutiva.
Em resumo: o amor que tem medo da distância ou do convívio é pobre, frágil, imaturo. Porque amor que é amor só se compreende no apropriar-se e no se deixar apropriar, alimentando-se pela constância, pela força, pela coragem e, sobretudo, pelo querer o bem de quem se ama. Parece muito em um mundo tão propenso a quedar-se na fatuidade.

terça-feira, 14 de julho de 2015

LER, MEDITAR, ESCREVER.

Hoje, a leitura tem sido negligenciada pelos estudantes, mesmo aqueles já em nível de mestrado e doutorado. Lê-se muito pouco e, não raro, rasamente. A leitura é a chave de abertura para o mundo; ela proporciona o nosso encontro com o pensamento dos que nos antecederam e meditaram sobre o tema que nos instiga a lê-los. Mas não basta apenas ler. Convém meditar, conciliar proposições à primeira visada em litígio, fazer dialogar textos do mesmo autor e esses com textos d'outros autores, buscando com isso a ampliação de perspectivas e, a partir delas, o encontro de eventuais novos caminhos. Apenas depois, já bem depois, é que passamos à escrita, ao dividir com outros o produto das nossas meditações, as descobertas que fizemos, as nossas visadas que passamos a adotar e propormos a que outros possam aderir a elas no processo de reflexão.
Porém, há muita afoiteza no escrever. Pulam-se etapas. Há uma ânsia em dividir aquilo que mal dá para proveito próprio. E o que temos visto é a publicação de obras superficiais, repetitivas, com erros evidentes de construção teórica e de falta de informação. Porque lê-se muito pouco e muito mal. Escolhem-se os autores mais óbvios, os textos mais limitados, o que é de fácil compreensão. É como se não houvesse tempo para mastigar; come-se a papa rala do conhecimento, porque não há estímulo e tempo para o delicioso esforço de comer o que necessita ser deglutido sem pressa e com paladar refinado.
Temos visto a pobreza acadêmica de teses de mestrado e doutorado que impressionam pela ousadia de serem óbvios, repetitivos e preguiçosos esforços intelectuais. Nos acostumamos com tanta miséria intelectual, que já não temos mais a visão de que pensar é uma arte, é um encantamento com o objeto pensado. E, pois, exige tempo, dedicação, esforço intelectual.
Precisamos escrever menos. Precisamos ler mais. E meditar ainda mais.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Primavera Brasileira

A Primavera Brasileira também nasceu através das redes sociais. Curioso que os analistas políticos não tenham se dado conta do fenômeno que lembra a Primavera Árabe. O próprio Governo e o PT não perceberam que houve uma mudança muito grande entre 2002 e 2015: a sociedade não precisa dos coletivos sociais organizados para se manifestar; já não são mais os sindicatos que levam a população às ruas, como ocorria em um passado próximo. Esse monopólio, que era a maior força das esquerdas, foi esmaecendo e hoje se mostra dissolvido, como podemos ver nas manifestações de sexta-feira (13), em que estavam os sindicalistas, os filiados, ausentes da população, que sempre foi a alma desses movimentos.

A Primavera Brasileira é a politização crescente da sociedade. É um fenômeno que brota por geração espontânea e catalisa o sentimento ou espírito (Geist) intramundano, prerreflexivo e atemático. Somos nós em nossa constitutiva liga dialógica, agora sem intermediários, sem ter quem precise falar por nós para que os nossos líderes políticos nos ouçam.

O movimento do dia 15 de março ficará na história do País. É o início da maturidade democrática, em que a internet e o fluxo de informações joga um papel decisivo. Eis aí a Primavera Brasileira.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Reforma política proposta pela OAB: breve análise do parecer aprovado pelo Conselho Federal.

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil aprovou, no dia 04 de fevereiro de 2015, a proposta de reforma política produzida pela própria entidade, contando com apoio da CNBB, CUT e uma série de coletivos sociais, como o MST. Segundo matéria divulgada no site oficial da entidade, "O presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, entende que a relevância da questão se traduz em urgência nas ações. “A reforma política não é do governo nem da oposição: ela é da sociedade. Todos os candidatos a presidente da República prometeram, durante a campanha eleitoral, realizar uma reforma política. Agora, o povo aguarda e exige o cumprimento desta promessa. A Ordem é protagonista nessa busca pela republicanização do Brasil”, defendeu.".

O site publicou também o parecer do relator da matéria, conselheiro federal pela OAB-CE, Kennedy Reial LINHARES, em que se expôs as razões pelas quais defendia a aprovação pelo pleno do Conselho Federal da proposta de reforma política.

Li com atenção esse texto. Trata-se de um discurso retórico, sem substância jurídica, em que se apela a uma linguagem emotiva para dizer da necessidade de uma reforma política no País. Falando em democracia, cita em seu favor Hegel e Marx, justamente dois filósofos inimigos das sociedades abertas, conforme sublinhado por Karl Popper em obra sobre o tema. Aliás, a inspiração ideológica do texto não deixa margem de dúvidas sobre o seu caráter marxista e anticapitalista, quando pespega, lá para as tantas, a seguinte pérola contra a globalização, cujo entendimento textual está além do meu alcance cognitivo. Trata-se de uma construção argumentativa que parece nos levar do nada ao lugar-nenhum intelectual:
A contemporaneidade vive o “fenômeno” da globalização, que indubitavelmente interferi (sic) na política, no direito, na justiça e na cultura. A globalização, por assim dizer, é devastadora quando não mediada de forma racional entre as derrubadas das fronteiras dos Estados na esfera econômica, que indubitavelmente implicará em unificação de algumas ou todas as leis entre Estados, como por exemplo tem acontecido na Zona do EURO (em quase toda Europa) e iniciando timidamente com o MERCOSUL (com alguns países da América do Sul). 
Ainda nessa toada, LINHARES passa a divagar sobre a globalização e os seus efeitos, exercitando a sua capacidade especulativa ao extremo e levantando para si próprio questões transcendentais de elevada gravidade para ele, ao que parece pela ênfase empregada:
O mundo esta sendo reinventado ou sendo ocidentalizado? E em quais parâmetros? Os consumos, os excessos, a crise moral, o desapego ético, a chamada “sociedade do espetáculo” cada vez mais epicurista é o “grande avanço da humanidade nos últimos anos”? Nesse tipo de sociedade existe espaço suficiente para o DIREITO? As leis somente são úteis em um contexto de proteção mercadológica? E a DEMOCRACIA? 
Não sei que diabos tem isso a ver com a reforma política, mas deve ter causado impacto aos membros do Conselho Federal, que passaram a meditar sobre questões como a globalização, o epicurismo, o consumo e que tais. Porém LINHARES não parou por aí.
Nesse cenário sombrio de ferimento dos direitos humanos pelos EUA, afastou-se de vez a perspectiva do direito metafísico oriundo do ideal de sociedade, democracia e justiça decorrente dos Iluministas. Compreende-se cada vez mais que o alcance da democracia e justiça passa pela efetivação prática do direito. Afinal, para que tanto idealismo e tantos direitos conquistados no curso da história sem seu sentido prático-universal? 
Li, reli e treli o texto. Não entendi nada, sobretudo o tal direito metafísico oriundo do ideal de sociedade... Aí, meteu-se jusnaturalismo com positivismo, além da questão profunda subsequente: em nossa sociedade ainda haveria lugar para o direito? Não entendi a pergunta, não sei o que LINHARES entende por direito, ficando eu aqui perdido, sentado na calçada, a divagar sobre tais questões que devem ter tido um poder persuasivo imenso para a aprovação da proposta de reforma política pelo Conselho Federal da OAB.

Nada obstante, novas questões de elevada indagação continuaram a ser feitas no parecer. Foi aí - como diríamos na minha pequena Junqueiro/AL - que eu me lasquei todinho. Não entendi bulhufas:
Entre otimismos e pessimismos, contradições e coerências, o certo é que o mundo contemporâneo não parece deixar espaços para idealismos, exigi-se cada vez mais a concretude das coisas, o respeito do “singular ao universal” , a democracia, o uso imoderado da razão, e a obtenção da justiça com a simples aplicação do direito, são objetivos reais e racionais. De que importa vivermos em uma sociedade cheia de direitos sem nenhum sentido prático-efetivo? 
A "concretude das coisas", o "respeito do singular ao universal", a "obtenção de justiça com a simples aplicação do direito" (ao que parece, o justo seria o legal...), e expressões desse quilate, enfim, me entorpeceram a mente, levando-me ao labirinto da incompreensão profunda. Aí me fiz uma indagação: está tudo muito bem, está tudo muito bom, mas realmente o que temos a ler sobre a reforma política? Responde-nos LINHARES:
A importância do tema em discussão é fenomenal. Diante de sua óbvia repercussão, é sintético o posicionamento da Relatoria a seu respeito.
E tão sintético foi, que o parecer limitou-se a citar breves excertos de falas proferidas pelo presidente da OAB, em uma atitude monológica fechada a qualquer diálogo. Não houve análise de posições diversas, em que se justificasse a opção por uma alternativa e não por outra. Não. Citaram-se breves falas do presidente da OAB e LINHARES tomou-as como suas. E fim!

A Reforma Política proposta seria de interesse da sociedade, diz-nos o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. Ok. Dou uma sugestão para panfletos da OAB promovendo a coleta de assinaturas:


Sinceramente, estou impressionado com a nossa Ordem dos Advogados do Brasil. Não apenas eu, aliás; não faltam os quanto se sintam cada vez menos representados por ela, ao menos em relação à atual gestão.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Petrobras: o problema não está na lei, mas na ausência de controle interno

Diz-se com certa ligeireza que o modelo de licitação adotado pela Petrobras estaria como um dos mais relevantes fatores para a corrupção que passou a grassar na companhia. Nada mais falso, porém. Os problemas advindos da corrupção endêmica da Petrobras decorrem do aparelhamento político adotado como requisito para a ocupação dos cargos relevantes, a pulverização do poder decisório em estratos mais baixos da hierarquia da empresa, a ausência de uma política de accountability e compliance para o acompanhamento dos atos internos e punição dos desvios tão logo detectados, o autoesvaziamento do papel do Conselho de Administração, a promiscuidade da relação com as empreiteiras, a ausência de normas sobre quarentena dos empregados da companhia após a sua saída da relação de trabalho.


Uma empresa que atua no mercado internacional, com concorrência de outras gigantes do setor, não pode ficar amarrada à lei de licitações e ao modelo burocrático por ela estabelecido. Isso impediria a tomada de decisões rápidas, essenciais para a atividade econômica desempenhada pela Petrobras. Aprisioná-la à burocracia das compras públicas é inviabilizá-la como player na disputa internacional, cada dia mais acirrada em tempos de preços em queda do petróleo e da mudança da geopolítica com o xisto americano, que lhe deu autonomia e o transformou em autossuficiente, além de exportador de combustíveis fósseis.

Não se trata, portanto, de mudar a lei - mania atávica herdada dos portugueses: há um problema; faça-se uma lei! -, mas de criar mecanismo internos eficazes de controle dos atos negociais da companhia, com uma sólida estrutura de auditoria e controladoria interna, livre das pressões políticas e do aparelhamento partidário. Além disso, punir com rigor os empregados flagrados em práticas heterodoxas no âmbito das suas competências.

Mudar a lei de licitação diferenciada da Petrobras não é a solução; trata-se de mais uma desculpa feita de afogadilho.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O MITO FÁUSTICO DE CADA UM DE NÓS

Não temos duas almas; uma só unida ao corpo e à mente é o que possuímos, formando a nossa estrutura nouspsicossomática. A tragédia de Fausto, na obra-prima de Goethe, decorre da entrega da sua alma em um pacto com Mefistófeles. O mito fáustico percorre toda a história da humanidade e é exposto de modo supino através dos clássicos versos daquela obra magna.



Se é certo que apenas uma alma temos e a negociamos com outrem a sua entrega, o que nos restará? Talvez a tragédia fáustica seja justamente essa: a realização de apetites (paixões, rancores, ódios, complexos, amores, desejos de riqueza, etc.) ao custo de nós mesmos. Aí, já abdicamos dos nossos valores como ornamentos imprestáveis; já fazemos nossos iguais os que sempre foram desejados ficassem distantes; já chamamos de amigos os que antes víamos com desprezo...
E ao olharmos em volta de nós mesmos, o que nos resta?; onde ficou o que antes nos era tão caro como característica identitária, constitutiva - não apenas para os outros mas sobretudo para nós mesmos - do que somos como sujeitos no mundo? No Fausto de Goethe há o momento do acerto de contas consigo mesmo; na vida, a final, haverá sempre um dia para esse encontro com a alma alienada a preço sobejo ou vil, pouco importa.