domingo, 27 de maio de 2012

Breves e soltas (III)


I.
Somos seres incongruentes, vejam só! Por isso, é que renego a lógica do razoável, a lógica do possível e a lógica do ponderável. "Abaixo a lógica", bradaram até Ministros, antes de transformarem a vida em "a coisa" a ser terapeuticamente estirpada.

II.
A horas tantas já não pensava em mais nada. Pensar era um sacrifício que emasculava a sua alma. Quis dormir, mas pensou melhor e continuou a pensar.

III.
Amor em ebolição arde mais que febre e também pede cama. Repouso, somente ao depois...

Beleza, suavidade e personalidade

Beleza é fundamental? Sim! Mas o que é o belo? Uma mulher bonita fisicamente chama a atenção e enche os olhos. Mas a sua estética é o começo, apenas. É impossível que algo mais profundo seja querido com ela se mais ela não tiver, se mais ela não for.

A beleza sustenta um primeiro movimento de desejo. Estimula uma aproximação e até o jogo da conquista, a troca de olhares. Numa balada, um xaveco, uma dança, uma noite. Se for muito, mas muito bonita, uma segunda noite... Mas finda a conquista, à falta de conteúdo, outras conquistas de igual procedência passa a ser mais interessante. Salvo se ambos tiverem a mesma profundidade rasa intelectual e de valores.

Beleza é fundamental! Mas insuficiente... Nada mais interessante que uma mulher bonita, inteligente e feminina. Mulher marombada, parece-me, é uma contradição em termos. Ela há de ter formas, mas que sejam delicadas, suaves e com curvas suficientes para a perdição, sem que sejam excessivas. Seios e bumbum são necessários, como à música faz-se imperioso o ritmo e a letra adequados. Mas que sejam proporcionais ao todo, sem demasias que quebrem a harmonia ou carências que empalideçam o conjunto da obra.

Sim, mas o conteúdo há-de ser simétrico à forma. Beleza pensante, inteligente, que faz a refrega ser saciada em momentos posteriores de carinho, conjunção de corpos cansados que se deixam entregues e sustentados em um bom papo, uma conversa agradável, em que as horas passam em um piscar de olhos. A mulher bonita e inteligente desafia o tempo, o constrange, o faz módico. Não cansa a vista tampouco a alma.

A mulher apenas bonita pode ser um troféu de momento, com um carro que mostra aos amigos, um relógio novo ou mais um bem de consumo qualquer. Mas a mulher bonita adornada pela inteligência não é troféu, mas um constante campeonato nunca vencido, uma eterna e diária conquista, uma razão para lutar e temer a perda. Vale cada esforço, cada momento, cada elogio, cada cuidado... Ela é como o horizonte de fim de tarde, cujo sol pinta no céu um quadro único; e quanto mais nos aproximamos, mais cresce em nós o encanto e a certeza de que nunca o teremos dominado, nunca nos apropriaremos, seremos sempre pequenos diante da sua beleza completa, plena...

Beleza é fundamental, porém que seja feminina e suave. Que saiba ser e se fazer mulher. O perfume, o vestir-se, o cuidar-se para quem se ama. E que seja séria, muito séria, mantendo a exata distância para os outros; e que seja deliciosamente amante, despudorada na entrega àquele que lhe tomou o coração e a alma. E sendo assim, será como um sonho, um presente, uma descoberta constante, que se renova todos os dias.

É, que me desculpem as feias, as marombadas e as assanhadas, mas beleza, suavidade e personalidade são fundamentais.

Breves e soltas (II)

I.
De tanto prestar atenção ao rótulo, nunca se enganou de frasco. E tudo foi sempre como esperado. Se não teve más surpresas, boas também deixou de ter. Foi a vida geometricamente perfeita até a morte. A lápide aposta em seu túmulo anunciava: "Viveu conforme os rótulos; morreu de tédio e falta de criatividade generalizada".

II.
Era como uma pintura o horizonte visto da janela. Não sabia, porém, que a beleza maior só poderia ser vista na aventura da rua. Bastava-lhe, porém, o que sem luta já estava à sua disposição.

III.
Não lhe faltava apetite; apenas coragem. Por isso, definiu que a vida seria apena o antepasto. Não se banqueteava, porque lhe exigiria, mais do que fome, disposição...

IV.
A mulher era tão feia, mas tão feia, que o espelho selou um compromisso com ela: só se encontravam pelo avesso!

Viver a vida em abundância

Não quero viver olhando o que deixei de fazer, me arrependendo pelas indecisões, omissões, comodismos. Prefiro a inquietude à paz dos mortos; prefiro a angústia dos que fazem à serenidade dos que abdicaram dos seus sonhos. Que a sede de viver me consuma, que o amor me desabrigue, que os desafios se apresentem e sejam desafiados.

Quero viver o medo de errar, errando, na tentativa dos acertos; não quero a precisão dos inertes, a diplomacia dos acomodados, a vitória por wo. A vida, desejo tomá-la com as unhas, porque ou há sede de sentido ou caímos no vazio, no nada, na esterilidade.

Nasci para ser torto; o certo, o perfeito, o exato não me fascinam. São atemporais e imateriais. Minha contigência me impõe a sede de infinito; minha humanidade, a fé em que me ultrapassa, a clareza da Cruz e a esperança na Ressurreição.

Quero amar sem medo, sem cobranças, sem regras. Amar por amar, porque ela se faz inteira em mim, seu olhar me devora, a sua voz provoca meu sangue, a sua boca me diz do amor e faz o beijo ser mais beijo. Quero a alma em chamas, porque só assim vencemos o que nos oprime, o peso amargo do cotidiano.

Enfim, proclamo a felicidade dos que lutam, a paz dos que porfiam, a esperança dos que buscam, os sonhos dos que se aventuram, a fé dos que são capazes de morrer pelo que crêem. Proclamo que vida não seja uma sucessão de dias, um cotidiano repetitivo e oco, um país com fronteiras. A vida seja vida em abundância, afinal, e que em nós brote a responsabilidade de decidir e assumir os caminhos tomados e a alegria dos passos dados...

Breves e soltas

I.
Somos o somatório da imagem que fazem de nós ou a imagem que nós próprios fazemos? Ou nem uma coisa nem outra? Somos o que somos; quem diz de nós são os nossos pensamentos e as nossas ações. Somos a totalidade da nossa história e o ainda por fazer-se.

II.
Drummondiano: Não fosse eu consumido pela vida, os desafios nada me diziam. Nasci um anjo torto, com tantas faces mais que sete, e desde sempre propenso a ser "gauche" na vida.

III.
Iam as horas já lerdas, cansadas de si mesmas. E não podiam parar, porque o tempo, esse severo senhor, não lhes dá sossego. Deram-se conta, então, que viver é já e sempre cumprir o seu destino, mesmo quando pesado. E tic tac! Tic tac!

IV.
"Tu não és um homem sábio; tu tens sonhos e paixão. A paixão cega; os sonhos iludem", disse-me um sábio. "Que faço eu?" - perguntei à minha alma apequenada, pois o que me move são justamente os sonhos e as paixões. E fiquei com o dilema cruel: ser sábio ou ser feliz com as minhas buscas...

V.
O que pede o seu coração? Dá a ele a chance da expressão, para que o silêncio não lhe pode as batidas, não lhe atropele o gosto de pulsar a vida. Coração que não diz de si mesmo não pode cumprir a sua vocação de fazer o sangue correr nas artérias, irrigando até mesmo a alma.

VI.
E lá ia eu, cioso dos meus sentimentos, quando as palavras me encontraram e quiseram me despertar do sonho. Olhei para elas com as armas da ortografia, impus-lhes um ponto e vírgula e completei a oração. O que de mal havia virou uma proposição sem sentido, como as frases que ficam pedindo complemento. Por ponto e vírgula não acaba a oração; dá-lhe o instante de respiração e a chance do refazer-se no andar do discurso.

VII.
O amor é um rio caudaloso e profundo. Nada há que lhe sirva de óbice, tampouco lhe tolha a caminhada rumo ao seu destino. Suas águas são transparentes e fundas, até que se deixem misturar ao oceano e ganhe o tempero que lhe faltava.

VIII.
As palavras são veículos da expressão. Por elas, damos aos outros o que antes só habitava em nós. Elas dão sentido ao mundo, como as cores que fazem a tela ganhar vida e sentido.

Não me negues

Não me negues o gosto da tua boca, que a minha carece sempre dos teus beijos.
Não me negues a tua voz de acalanto, que meus sentidos todos te escutam.
Não me negues estar em minha vida, que ela se esvazia sem os teus carinhos.
Não me mate sem tuas palavras de amor; se matares for, que seja com a ira das tuas unhas rasgando a minha carne e o sufocar do meu pescoço aprisionado em tuas pernas.
E me mate de mil mortes, se preciso for, me sepultando em teu ventre sem piedade ou misericórdia.

terça-feira, 1 de maio de 2012

FÓRMULA DO AMOR

Amar é intemporal e geograficamente ubíquo. O amor não tem tempo nem espaço; é energia vital, que doses cavalares toma não apenas o coração, mas cada poro do corpo e cada pedaço da alma.

O amor, assim, desafia as leis da física e dá um ultimato à razão pura kantiana. Nele tudo é já de antemão a priori, sem que se possa mais falar em depois. O amor é; como o ser, não admite definições, senão tautologias ocas.

Ama-se! Ama-se e, com isso, se deixa apoderar o coração, os pensamentos, o corpo, a alma. E o ser, assim amante, outra coisa mais não é que uma busca do ser amado, esse complemento que não completa, esse outro que, para ser amado, haverá de ser sempre outro, na sua individualidade, nas suas idiossincrasias.

No amor há fórmulas? Há quem diga que se ama de A a Z, assim, na completude e inteireza do ser. Mas uma outra fórmula possível é dizer que o amor é igual à soma da Luz, que tudo ilumina, e da Caridade, que nos faz abrir a alma ao outro, querer o bem, buscar a verdade e a felicidade do outro (A'= L + C).

Sim, Luz e Caridade é o amor verdadeiro. E, quando esse amor se converte no amor de homem e mulher, a fórmula ganha o elemento da sexualidade, da carne que nos revela não sermos anjos celestes, mas humanos para vivermos a nossa humanidade (A''= L + C + C).

A' é o amor ágape; A" é o amor eros. O Eros é o amor com ágape, acrescido de um "plus": o desejo sexual que pede a inteireza de alma e carne.

Eis aí uma fórmula para o amor...

Palavras...

Palavras para alma são carinhos, são espinhos
São palavras
Entram pelo ouvido ou perfuram nossos olhos
alarido, gemido, ais,
São palavras
Ditas, escritas ou proscritas
nos invadem e consomem
São palavras.
Bem ditas, malditas, ciciadas
Nos dominam ou crepitam
São palavras.
Que delas cuidem os que as usam,
lambuzam a blusa ou ajudam o despir
Porque são palavras que fazem o agir...

Amar amar a mulher amada



Não existe relacionamento amoroso perfeito, sem choques ou sem dor. Se perfeito ele for, se não houver momentos de desentendimentos ou cobranças, é porque ambos se acostumaram com o que têm, não sonham mais, não se olham mais, já estão empanturrados do vazio da relação.


Uma relação se desgasta mais pelo adormecimento do que pelos conflitos. Quando há o comodismo, o dar de ombros, o "tanto faz", é porque o outro já não importa tanto; o convívio passou a ser natural, como natural é a porta de madeira na entrada da casa. Está ali, sem que nem sempre nos demos conta dela... O "estar ali" é o costume morto, como a aceitação da camisa poida, o andar com a meia levemente furada, o comer o cuscuz já frio. Nada importa porque simplesmente já não chama a atenção.



Melhor os desentendimentos. Claro, no limite do respeito, decorrendo da vontade de que o outro possa refletir sobre algo. O conflito é, muitas vezes, produtivo para o casal, desde que haja amor e a vontade sincera de construir as pontes para o outro. Brigar por brigar é tão vazio como o estar por estar; é a morte inquieta da relação, a última convulsão.



O fundamental em uma relação a dois é que haja amor inquieto. O amor dormente, o amor acomodado, o amor saciado, o amor silencioso, o amor sem tesão, o amor satisfeito... são expressões do amor moribundo. A inquietude significa o importar-se, o sair de si, o ter medo de perder, o enciumar-se, o cuidar, o nutrir, o buscar, o estar vigilante... É o amor em estado de ebulição!



Sim, cuidado! A mulher é um bicho estranho. Ela nunca esquece o que lhe é dito; ela guarda todas as suas mágoas em um pote, dentro de um cofre com segredo criptografado. E leva consigo aquelas mágoas até onde o tempo lhe dê algum tino para, na primeira oportunidade, cobrar com juros e correção monetária aquela ofensa sentida. A mulher ama com a mesma intensidade com que cobra e guarda...



Se lá para as tantas você diz "eu te amo" e, antes, fez alguma observação ou brincadeira que lhe desagradou, ela apenas dará atenção ao desagrado; o "eu te amo" cai no abismo das suas cobranças, dos seus reclamos e, no mais da vez, da sua vitimização. Ah, essa é uma poderosa arma para a mulher, porque nos põe frágeis, pequenos, se ela se mostra atingida por algo dito ou feito por nós, gerando em nós a mais profunda compunção.



Desisti de tentar compreender a mulher amada. Quanto mais amada, quanto mais nos damos, mais ela nos cobra e exige, mais ela nos nega ter recebido o amor e a atenção que damos, mais ela nos ataca e exige, fazendo-se de vítima da secura de um amor viçoso e cheio de vida, que ela finge não ver...



É por essas e outras que amo amar a mulher amada. Porque só ela pode ser assim tão contraditória, tão cheia de misteriosos caminhos, tão complexa em nos dar abrigo sem nos tirar do relento, tão rica, sendo dadivosa, e tão pobre, sendo fria quando quer ser, a nos fazer mendigos dos beijos, carinhos e cuidados...